
Febre nas redes sociais, o agora famoso morango do amor vem conquistando a atenção e o paladar de consumidores brasileiros de norte a sul (especialmente, os nordestinos), movimentando diversas cadeias da economia, numa escala sem precedentes. Vendedores da fruta e confeiteiros ainda tentam entender como algo tão pequeno e com aparência delicada fez com que a demanda e a lucratividade dos negócios fossem multiplicadas em poucos dias.
“Uma procura absurda. Nem mesmo durante a Páscoa recebemos tantos pedidos. Não temos conseguido dar conta nem do atendimento aos clientes desde que anunciamos”, relata Luana Barros, confeiteira, à frente da Lupa Confeitaria, no Recife.
O morango do amor é um doce feito com morangos frescos, que podem ser espetados em palitos ou vendidos em caixinhas ou embalagens comuns. Eles são envoltos com um doce à base de leite condensado e leite em pó (também chamado de brigadeiro branco). E depois, são finalizados com um banho de uma calda caramelizada, feita com açúcar e corante comestível na cor vermelha, deixando o visual parecido com a prima mais antiga da sobremesa, a maçã do amor – daí o nome morango do amor, que viralizou nas redes sociais.

A combinação da estética chamativa e a mistura de sabores doce e azedo, talvez expliquem o sucesso da receita simples e barata, que caiu nas graças do internauta consumidor ávido de vídeos curtos nas redes. Um magnetismo que se reflete em números e lucro.
Luana conta que cinco dias após começar a vender o morango do amor, alcançou faturamento superior a R$ 10 mil. Foram mais de 600 doces vendidos em menos de uma semana, e a expectativa é que esse número continue crescendo nos próximos dias. “Já encomendei mais cinco caixas de morangos (cada caixa contém um quilo da fruta) para suprir a demanda. Em cinco dias, já são 18 caixas no total. Tivemos que parar a produção porque não tem mais morangos”, relata.
Os morangos produzidos pela confeitaria de Luana são vendidos a R$ 15,90, mas podem ser encontrados em outros pontos de venda por R$ 26,00 ou mais. “Tento vender a um preço acessível”, acrescenta. O baixo custo de produção e a alta precificação em função da demanda viral levam confeiteiros a lucrar até 200% em cada unidade.
Fornecedores correm para atender à demanda
No Brasil, segundo o IBGE, 70% do morango consumido vem dos pequenos cultivos da agricultura familiar. Para se ter uma ideia do impacto que o morango do amor vem gerando na cadeia de abastecimento, fornecedores do Centro de Abastecimento (Ceasa), no Recife, estão tendo que ampliar significativamente a compra do produto. Uma das empresas que comercializam morango no centro, a Agro Santos, vendeu mais de 1.100 quilos em apenas quatro dias. E a procura continua em alta.
“Alguns clientes chegaram a brigar com a gente porque não tínhamos mais caixas para vender”, relata Joaquim Quirino, gerente da Agro Santos. Segundo ele, no primeiro dia, as 600 caixas disponíveis se esgotaram rapidamente e, às 3h da madrugada do dia seguinte, já havia fila de consumidores tentando garantir o produto. “Esse foi um dos melhores acontecimentos para o nosso negócio. Já providenciamos uma carga ainda maior para atender à demanda crescente”, completa.
O diferencial está no tamanho dos morangos, que são maiores do que os vendidos mais comumente e, portanto, ideais para o preparo do doce. O morango vendido na Agro Santos vem de Minas Gerais ao custo de R$ 45 o quilo. As remessas semanais compradas por Quirino saltaram de 3 mil para 5.500 caixas/quilos — um crescimento de mais de 90% em menos de duas semanas.

Entre os compradores, estão, desde consumidores finais, a até supermercados e lojas de bairro, que revendem os morangos. Uma rede, antes estável, mas que agora precisa lidar com a pressão logística e com a imprevisibilidade da demanda de consumo de um doce simples, que virou febre nacional.
O aumento da procura não acontece apenas em Pernambuco. Segundo o presidente do Instituto de Desenvolvimento Rural e Abastecimento de Alagoas (Ideral), responsável pela gestão do Ceasa no estado, Davi Maia, a procura por morangos aumentou consideravelmente no centro de distribuição, provocando a elevação do preço da fruta e impactando na redução dos estoques.
Influenciador pernambucano popularizou morango do amor
Embora não se saiba ao certo quem criou a receita ou onde ela surgiu, acredita-se que foi o confeiteiro pernambucano Igor Rocha quem protagonizou o boom causado pelo morango do amor.
O influenciador digital, de 25 anos e com mais de 7 milhões de seguidores em suas redes sociais, publicou a receita em seus perfis e transformou o morango do amor na febre, que segue inspirando milhares de outros vídeos e tutoriais.
Fiscalização
A explosão da demanda por morangos já começa a provocar desabastecimento em alguns centros de distribuição e também a despertar a atenção de órgãos fiscalizadores. Com a alta repentina, há relatos de vendedores aproveitando a onda viral do morango do amor para aplicar preços abusivos.
Em Aracaju, o Procon iniciou uma operação de blitzes junto a distribuidores, após suspeitas de elevação injustificada dos preços da fruta. As inspeções estão sendo realizadas na Central de Abastecimento de Sergipe (Ceasa) e nos principais pontos comerciais da capital sergipana.
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