
A decisão do governo brasileiro de acionar a Lei de Reciprocidade amplia a expectativa em torno dos próximos desdobramentos da relação comercial com os Estados Unidos. A medida ocorre em meio à nova rodada de sobretaxas norte-americanas, que dificulta ainda mais o acesso dos produtos brasileiros ao maior mercado consumidor do mundo e acende um alerta adicional para a economia do Nordeste.
Segundo cálculos da Amcham Brasil, a decisão alcançará cerca de três mil produtos nacionais, responsáveis por aproximadamente US$ 12,5 bilhões anuais em exportações para os Estados Unidos. Desse total, US$ 10,7 bilhões, ou 85,3%, também estarão sujeitos às tarifas de 25% anunciadas anteriormente. Com a cobrança cumulativa, a sobretaxa poderá chegar a 37,5%, um dos níveis mais elevados aplicados pelos Estados Unidos a seus parceiros comerciais. A nova medida entra em vigor em 24 de julho.
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Para o Nordeste, a preocupação é particularmente relevante. Segundo dados da plataforma Data Nordeste, da Sudene, a região exportou US$ 24,8 bilhões em 2025, o equivalente a 7% das vendas externas do país.
No Ceará, os Estados Unidos responderam por mais da metade das exportações estaduais em parte de 2025, com destaque para produtos de ferro e aço e calçados. Em Sergipe, as vendas ao mercado norte-americano somaram US$ 54,5 milhões no primeiro semestre de 2025, enquanto o Rio Grande do Norte exportou US$ 67,1 milhões no mesmo período.
A fruticultura também está entre os setores mais expostos. Em 2024, Bahia, Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte concentraram 62,6% das exportações brasileiras de frutas frescas para os Estados Unidos. Açúcar e etanol completam a lista de produtos nordestinos que podem perder competitividade diante do aumento das tarifas.
O presidente da Amcham Brasil, Abrão Neto, avalia que a nova tarifa tende a aprofundar a retração do comércio bilateral e defende a retomada das negociações entre os dois governos.
Embora não pretenda adotar contramedidas imediatamente, o governo brasileiro já anunciou que acionará a Lei de Reciprocidade Econômica, sob o argumento de que a tarifa norte-americana é arbitrária, injustificada e utilizada para sustentar uma política comercial protecionista contra 59 países e a União Europeia. O mecanismo cria uma base jurídica para uma eventual retaliação.
O setor empresarial, porém, demonstra cautela. Há alguns dias, o vice-presidente Geraldo Alckmin vem se reunindo com representantes dos segmentos atingidos pelo tarifaço dos Estados Unidos, e a palavra que mais tem ouvido é justamente “cautela”. Muitos empresários mantêm contratos em andamento e apresentam forte dependência do mercado norte-americano.
A preocupação é que eventuais contramedidas encareçam insumos, afetem cadeias produtivas e reduzam a competitividade de determinados setores. Também existe o temor de que uma retaliação brasileira provoque uma nova escalada das tensões comerciais com os Estados Unidos. O impacto vai além das empresas diretamente exportadoras. Uma tarifa dessa dimensão também ameaça empregos em cadeias que envolvem fornecedores, transportadoras, portos e prestadores de serviços.
Consequências
As consequências tendem a ganhar peso político. Tanto para a direita quanto para a esquerda, o episódio poderá repercutir positiva ou negativamente, a depender da narrativa construída por cada campo, dos efeitos sobre o bolso dos trabalhadores, da capacidade de negociação do governo brasileiro e da velocidade com que as empresas conseguirem encontrar mercados alternativos.
Perdas e ganhos
A última pesquisa Quaest mostrou como as políticas públicas que afetam diretamente o bolso da população, como o Desenrola – voltado à redução do endividamento-, e a isenção do Imposto de Renda têm contribuído para melhorar a avaliação do governo Lula, principalmente entre a classe média, os eleitores independentes e a população de menor escolaridade, com forte peso no Nordeste. Esse eventual ganho de popularidade poderá se ampliar ou se dissipar, conforme os efeitos econômicos do tarifaço se tornem mais evidentes.
Narrativa
Esse ganho pode se diluir ou se acentuar, vai depender da capacidade do candidato do PT convencer os eleitores indecisos sobre a responsabilidade da família Bolsonaro neste tarifaço. Da mesma forma, o senador Flávio Bolsonaro, já inserido na disputa presidencial de 2026 e principal nome do campo bolsonarista, tem como missão convencer os eleitores de que o governo federal falhou na condução das negociações. As próximas pesquisas deverão indicar qual dessas narrativas terá maior capacidade de influenciar a opinião pública.
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