
O município de Jaguaretama, no Vale do Jaguaribe, receberá até o fim do primeiro semestre de 2026 a primeira biofábrica industrial do país voltada ao processamento de água de coco em pó e compostos lácteos. A unidade, desenvolvida a partir de pesquisas da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e operada pela ACP Nutrition, terá capacidade para processar diariamente cerca de 2 mil litros de matéria-prima e produzirá o ACP Lacte, composto nutricional obtido da combinação de água de coco em pó e leite de cabra.
A água de coco em pó é obtida pelo processo de desidratação à vácuo do líquido endospérmico do coco (Cocos nucifera L.), tecnologia desenvolvida nos laboratórios da Faculdade de Veterinária (Favet/Uece) ao longo de quatro décadas. O produto concentra, em 100 g, 388 kcal, 76 g de carboidratos, 12 g de proteínas, 24 g de fibras alimentares, 5.170 mg de potássio e 492 mg de cálcio, sem gorduras trans e sem colesterol, segundo análises realizadas pelo Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL) e pelo Centro de Qualidade em Alimentos (CQA), laboratórios referência da Anvisa em Campinas. A vitamina B1 atinge 4,55 mg por 100 g, equivalente a 379% do valor diário recomendado.
O ACP Lacte foi concebido para atender populações em situação de vulnerabilidade nutricional, como crianças, idosos e pacientes hospitalizados, com foco no combate à fome proteica. A tecnologia é objeto de patente depositada em 2019 pelo grupo de pesquisa da Uece.
As perspectivas de uso incluem ainda dieta líquida hospitalar, protocolo de jejum pré-operatório, merenda escolar e repositor hidroeletrolítico para atletas, linhas de aplicação documentadas pelo grupo na publicação “Biotecnologias da água de coco: 41 anos de pesquisas de inovações”, organizada pelos professores Cristiane Clemente de Mello Salgueiro e José Ferreira Nunes.
A implantação da biofábrica reúne parcerias com o Instituto Ecoco do Brasil, a Associação dos Caprinovinocultores de Jaguaretama (Capritama) e a Cooperativa Agroindustrial do Vale do Jaguaribe (Cooprivale). A escolha de Jaguaretama reflete a tradição do município na caprinocultura, garantindo proximidade com a matéria-prima e integração direta com a agricultura familiar do Vale do Jaguaribe. O desenvolvimento da tecnologia contou com apoio do Banco do Nordeste, CNPq, CAPES e FUNCAP.

Água de coco usada para conservação de sêmen animal
A trajetória da tecnologia começou em 1985, quando o professor emérito José Ferreira Nunes, da Favet/Uece, iniciou os estudos com água de coco in natura para conservação de sêmen caprino e ovino. Em 1994, foi depositada a primeira patente biológica do Brasil na área, em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Agropecuárias da França (INRA) e a Embrapa, com registro na França. A primeira água de coco em pó foi produzida em 2002.
O grupo acumula mais de 40 anos de pesquisa, 12 patentes registradas no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e patentes em tramitação com aplicações que vão de cosméticos a conservação de órgãos para transplantes e cultivo de células-tronco.
Além do uso nutricional, estudos clínicos registrados pelo grupo apontam resultados da linha ACP Derma no tratamento de feridas crônicas, incluindo casos de pé diabético, com redução do tempo de cicatrização. Parte do desenvolvimento tecnológico passou pela Incubadora de Empresas da Uece (IncubaUece), fortalecendo a conexão entre ciência, empreendedorismo e desenvolvimento regional.
O professor Nunes foi um dos articuladores da criação da Rede Nordeste de Biotecnologia (Renorbio), que teve a Uece como ponto focal da coordenação geral entre 2006 e 2011 e que ainda hoje conta com pesquisadores que seguem na investigação relacionada à água de coco.
*Com informações do Governo do Ceará
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