
Com foco em bioeconomia, descarbonização e transição energética, o Sistema Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB) lançou o Programa Indústria Verde, iniciativa que pretende estruturar cadeias produtivas sustentáveis e apoiar a implantação de grandes projetos industriais ligados à produção de combustíveis renováveis, química verde e novos insumos de baixo carbono.
O programa já nasce com três grandes empresas participantes: Acelen, Braskem e Casa dos Ventos. Cada uma delas desenvolve projetos próprios, mas todas convergem ao mesmo objetivo de criar uma nova base industrial sustentada por combustíveis renováveis, matérias-primas agrícolas e tecnologias de baixo impacto ambiental.
Além da articulação institucional, o programa prevê ações de atração de investimentos, desenvolvimento tecnológico, qualificação profissional, adensamento de cadeias produtivas e integração regional entre municípios, empresas âncoras e governos.
A atuação será dividida entre as entidades do Sistema FIEB. A FIEB ficará responsável por assessoria ambiental, financeira e institucional; o SENAI atuará na formação técnica; o SENAI Cimatec desenvolverá soluções tecnológicas e projetos de inovação; o SESI oferecerá suporte em saúde e segurança do trabalho; e o IEL ficará encarregado da qualificação e certificação de fornecedores locais.

Acelen aposta na macaúba para liderar produção de SAF
De acordo com Ricardo Kawabe, gerente do Observatório da Indústria da FIEB, o projeto mais avançado entre os três é o da Acelen, voltado à produção de diesel verde e SAF (combustível sustentável de aviação), a partir da macaúba, palmeira considerada uma das grandes apostas da bioeconomia brasileira. O empreendimento prevê investimentos da ordem de US$ 3 bilhões e já teve o funding aprovado por instituições financeiras, etapa considerada decisiva para viabilizar a implantação.
Segundo Kawabe, a empresa já iniciou a fase de consolidação do projeto industrial, que será instalado próximo à Refinaria de Mataripe, em São Francisco do Conde, no Recôncavo Baiano. O projeto depende da criação de uma ampla cadeia agrícola para cultivo da macaúba em larga escala, envolvendo milhares de hectares espalhados entre a Bahia e Minas Gerais.
Kawabe explica que o grande desafio será transformar uma espécie ainda pouco explorada comercialmente em uma cultura agrícola de escala industrial. “É uma planta que precisa ser domesticada para produção em larga escala. Isso envolve seleção de áreas, colheita, licenciamento ambiental, outorga de água, logística e certificações internacionais”, detalhou.
Inicialmente, a produção também utilizará óleo de soja, mas a expectativa é que a macaúba se torne a principal matéria-prima no futuro. O cronograma prevê que a operação entre em funcionamento em cerca de três anos, desde que as etapas regulatórias avancem sem atrasos.
Casa dos Ventos vai produzir etanol verde
Outro projeto estratégico é o da Casa dos Ventos, que aposta na produção de etanol e SAF a partir do agave, planta resistente ao clima semiárido e tradicionalmente associada à produção de tequila no México. A iniciativa nasceu a partir de pesquisas conduzidas pelo SENAI Cimatec em parceria com a Shell.
A proposta prevê a fabricação de etanol de primeira e segunda geração utilizando o agave cultivado em regiões de baixa disponibilidade hídrica do semiárido baiano. Para Kawabe, o diferencial do projeto está na possibilidade de levar desenvolvimento econômico para áreas historicamente menos industrializadas.
“A beleza desse projeto é viabilizar uma nova economia para regiões do semiárido que têm pouca disponibilidade hídrica e menos oportunidades econômicas”, afirmou. Segundo ele, o cultivo do agave pode abrir uma nova fronteira produtiva no interior baiano, aproveitando características climáticas que antes eram vistas como limitação.
O executivo ressalta que o projeto ainda demandará expansão agrícola em grande escala, além de investimentos em tecnologia, mecanização e certificações ambientais voltadas ao mercado internacional. “São projetos complexos, voltados principalmente para exportação, e que precisam atender exigências internacionais de rastreabilidade e sustentabilidade”, explicou.
Além da produção de combustíveis sustentáveis, o projeto pode criar uma nova cadeia econômica ligada ao semiárido nordestino, aproveitando áreas de baixa produtividade agrícola tradicional. A expectativa é que o agave se torne uma alternativa econômica semelhante ao papel histórico desempenhado pelo sisal na Bahia.
Indústria verde: Braskem aposta em química
Já a Braskem aposta em um projeto de química verde baseado na substituição de insumos fósseis derivados do petróleo por etanol de origem agrícola. Na prática, a companhia pretende utilizar etanol como matéria-prima para produção de resinas termoplásticas, criando uma cadeia de plástico verde com menor pegada de carbono.
A estratégia busca aumentar a competitividade da indústria petroquímica brasileira diante de concorrentes internacionais beneficiados por gás natural mais barato, como Estados Unidos e países do Oriente Médio. “A gente enxerga a descarbonização dessa cadeia como uma oportunidade de diferenciação competitiva da química brasileira”, disse Kawabe.
O executivo reconhece, no entanto, que o projeto da Braskem avança em ritmo mais lento devido ao atual processo de transição societária da companhia. Ainda assim, ele afirma que a iniciativa é vista como estratégica tanto pela empresa quanto pela Petrobras.
Produção de etanol ampliada na indústria verde
Além dos três projetos iniciais, a Bahia também começa a consolidar investimentos na produção de etanol a partir do milho e do sorgo. Empresas como a Inpasa e a Impacto já operam ou planejam ampliar unidades em Luís Eduardo Magalhães, no oeste baiano.
Hoje, a Bahia ainda consome mais etanol do que produz e depende de combustível vindo de estados como Pernambuco, Alagoas e São Paulo. Com os novos investimentos, a expectativa é transformar o estado em exportador de biocombustíveis e fornecedor estratégico para os próprios projetos de SAF e química verde em implantação.
Para Kawabe, a nova indústria verde representa uma das maiores oportunidades econômicas do país nas próximas décadas. “O Brasil tem uma força única no agro, com disponibilidade de terra, água, tecnologia agrícola e capacidade produtiva. A grande oportunidade agora é transformar essa produção em produtos de maior valor agregado”, afirmou.
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