
Tecnologias como irrigação, mecanização da colheita e uso de bioinsumos avançam nos canaviais do Nordeste e sustentam a projeção de alta de 10,3% na produção regional de açúcar na safra 2026/2027, para 3,63 milhões de toneladas, segundo estudo do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene), do Banco do Nordeste. A recuperação ocorre sob risco climático, com probabilidade de 61% de formação de El Niño em 2026, e em meio a uma reconfiguração comercial: enquanto as exportações para os Estados Unidos recuaram 11% em volume após sobretaxa de 50%, novos destinos como Argélia e Mauritânia registraram saltos superiores a 330%.
Na safra 2025/2026, a produção regional havia caído 10,9%, pressionada pela redução dos preços internacionais, pela menor disponibilidade de matéria-prima e pela maior demanda por etanol. Parte dessas condições persiste: os preços globais do açúcar seguem em patamares baixos e a elevação da mistura obrigatória de etanol na gasolina de 30% para 32%, aprovada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) em 14 de julho, tende a desviar mais cana do açúcar para o biocombustível. O que sustenta a projeção de recuperação é o lado da oferta, com maior área plantada e ganhos de produtividade. O estudo é de autoria da pesquisadora Maria de Fatima Vidal, coordenadora de Estudos e Pesquisas do Etene.
A oferta nordestina de cana-de-açúcar deverá crescer 3,7% na safra 2026/2027, resultado da combinação entre aumento de 1,3% da área plantada e avanço de 2,3% na produtividade, segundo projeções da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Os estados com maior expansão de área cultivada são Bahia (+14%) e Piauí (+11%). Em Pernambuco, Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte e Sergipe, praticamente não há mais espaço para expansão na Zona da Mata, região tradicionalmente produtora, o que torna os ganhos de produtividade o principal vetor de crescimento.
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Produtividade e mecanização
O rendimento médio da cana-de-açúcar no Nordeste foi de 59,8 toneladas por hectare na safra 2025/2026, o menor do país. Segundo o estudo, o desempenho é atribuído a condições climáticas e de solo menos favoráveis, comparado às do Centro-Oeste e Sudeste, combinadas com baixo emprego de técnicas avançadas de cultivo. A Bahia é a exceção regional: alcançou 87,9 toneladas por hectare na mesma safra, desempenho associado ao uso da irrigação.
A colheita manual ainda predomina na região. Os maiores percentuais de mecanização projetados para a safra 2026/2027 estão no Maranhão (77%), na Bahia (72,4%) e no Rio Grande do Norte (65,6%). Alagoas e Paraíba avançam, com perspectiva de alcançar 43,8% e 36,2%, respectivamente. O relevo ondulado da Zona da Mata é o principal obstáculo, mas a escassez de mão de obra para o corte manual e a busca por eficiência operacional têm impulsionado a adoção de máquinas. O setor também amplia o uso de bioinsumos, remineralizadores de solo e drones.
“A adoção de tecnologias, aliada a um bom gerenciamento empresarial, constitui condição fundamental para tornar o setor sucroenergético nordestino competitivo frente às demais regiões produtoras de açúcar e etanol do país”, afirmou a pesquisadora Maria de Fatima Vidal.
Produção estadual de açúcar e liderança alagoana
Alagoas e Pernambuco concentram mais de 70% da produção regional de açúcar. Na safra 2026/2027, Alagoas deve produzir 1,64 milhão de toneladas (+7,1%), mantendo participação de 46,8% no total nordestino. Pernambuco projeta 990,2 mil toneladas (+1,9%), com fatia de 29,5%.
Os maiores percentuais de crescimento estão em estados de menor escala. A Bahia deve registrar alta de 44,9%, alcançando 214 mil toneladas. O Piauí projeta avanço de 37,2%, para 118 mil toneladas. A Paraíba estima produção de 295 mil toneladas (+31,7%), e o Rio Grande do Norte, 214 mil toneladas (+26,3%). Na direção contrária, o Maranhão projeta queda de 7,8%, para 22,6 mil toneladas, e Sergipe deve manter produção estável em 128,9 mil toneladas.
Mercado global e exportações
O Brasil respondeu por aproximadamente 24% da produção e 54% do comércio global de açúcar na safra 2025/2026, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Para a safra 2026/2027, a produção mundial deve recuar 0,6%, para 184,8 milhões de toneladas. A queda projetada no Brasil (-3%), na União Europeia (-7,5%) e na Tailândia (-15,6%) não será compensada pelo crescimento de 12% na Índia.
No mercado doméstico, o direcionamento da cana para a produção de etanol tende a se intensificar. A elevação dos preços do petróleo, associada à guerra no Oriente Médio, já havia tornado o biocombustível mais atrativo, e a aprovação da mistura de 32% de etanol na gasolina reforça esse movimento. Segundo o Ministério de Minas e Energia, a medida deve reduzir a importação de gasolina em 500 milhões de litros por mês. A produção brasileira de açúcar na safra 2026/2027 deve cair 0,5%, para 43,95 milhões de toneladas, segundo a Conab.
Estados Unidos caem, países africanos sobem
As exportações nordestinas de açúcar em 2025 mantiveram volume praticamente estável em relação a 2024 (+0,4%), mas o faturamento caiu 18,8%, pressionado pela queda dos preços internacionais. As vendas para os Estados Unidos recuaram 11% em volume e 33,5% em valor, afetadas pela aplicação de sobretaxa de 50% sobre o açúcar importado.
A tarifa foi derrubada pela Suprema Corte norte-americana em fevereiro de 2026. No mesmo período, houve redirecionamento de exportações para Argélia (+335,4% em volume), Mauritânia (+331,1%) e Geórgia, que passou a figurar entre os destinos regionais. O Canadá manteve a liderança como principal comprador, com 19,4% do volume exportado.
O Regime de Processamento Interno da União Europeia, que permitia importações de açúcar isentas de tarifas para refino e posterior reexportação, foi temporariamente suspenso em janeiro de 2026. O Brasil era o principal fornecedor do bloco nesse regime. O Acordo de Parceria entre União Europeia e Mercosul prevê cota isenta de tarifas para 180 mil toneladas de açúcar bruto de cana destinado ao refino.
Riscos climáticos e matriz energética
As fortes chuvas que atingiram Pernambuco e a Paraíba no início de maio de 2026 provocaram alagamentos de áreas plantadas, com potencial impacto negativo sobre a produtividade. Com a aprovação da mistura de 32% de etanol na gasolina, o mix de produção das usinas pode se tornar mais favorável ao biocombustível, elevando a incerteza sobre o desempenho da produção regional de açúcar.
O NOAA, agência climática dos Estados Unidos, atribui probabilidade de 61% à transição de condições neutras para El Niño entre maio e julho de 2026, com manutenção do padrão até o final do ano. O cenário pode resultar em chuvas irregulares e abaixo da média no Nordeste. Segundo o estudo, o setor sucroenergético da região tende a ampliar as áreas irrigadas para manter a produção nesse contexto.
A prática de queimadas para viabilizar o corte manual da cana persiste na região. A mecanização da colheita dispensa esse recurso, reduzindo a degradação da qualidade do ar e contribuindo para a melhoria da matéria orgânica do solo. O uso controlado da vinhaça, resíduo da produção de etanol, na fertirrigação dos canaviais é reconhecido como boa prática agronômica e ambiental, segundo o estudo: permite a reciclagem de resíduos industriais, aumenta a fertilidade do solo e reduz a dependência de fertilizantes químicos e a captação de água para irrigação. Segundo o Balanço Energético Nacional 2025, os derivados de cana-de-açúcar responderam por 16,7% da oferta total de energia no Brasil em 2024 e por 33,4% da oferta de energia renovável.
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