
A tarifa adicional de 25% que os Estados Unidos passam a cobrar nesta quarta-feira (22) sobre parte dos produtos brasileiros ganhou força após as articulações políticas conduzidas, em território norte-americano, por Eduardo Bolsonaro contra decisões do Supremo Tribunal Federal e do governo brasileiro relacionadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, seu pai.
Em março de 2025, Eduardo Bolsonaro licenciou-se do mandato de deputado federal e permaneceu nos Estados Unidos para buscar o apoio do governo Donald Trump à aplicação de sanções contra autoridades brasileiras. O objetivo declarado era pressionar o ministro Alexandre de Moraes e reagir aos processos que envolviam Jair Bolsonaro e integrantes da direita.
Nesse período, as tarifas comerciais, que já vinham sendo anunciadas por Trump contra diversos países, começaram a se materializar como instrumentos de pressão discutidos em Washington. Posteriormente, Eduardo Bolsonaro admitiu que o assunto havia sido tratado em reuniões com autoridades norte-americanas.
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Em uma das manifestações que circularam nas redes sociais, o empresário Paulo Figueiredo, neto do ex-presidente João Batista Figueiredo e que, ao lado de Eduardo Bolsonaro, vinha atuando em favor das tarifas, afirmou que “o céu de tarifas é o limite”. Também mencionou a possibilidade de cobranças de até 400% sobre produtos brasileiros e declarou que uma medida dessa magnitude poderia “explodir a economia brasileira”.
A declaração expôs o grau de contaminação política de uma discussão que, em condições normais, deveria estar concentrada no comércio exterior, na competitividade e na defesa dos setores produtivos. A disputa em torno de Jair Bolsonaro, do Supremo Tribunal Federal e das eleições brasileiras foi, assim, transferida para a relação econômica entre os dois países.
Tarifas em cenário de emergência nacional
A primeira ofensiva de Trump contra o Brasil utilizou a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional, conhecida pela sigla IEEPA. Com base nessa legislação, o presidente norte-americano aplicou tarifas amplas sob o argumento de que determinadas relações comerciais representavam uma emergência nacional.
A estratégia sofreu uma derrota em 20 de fevereiro de 2026. Por seis votos a três, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu que a IEEPA não conferia ao presidente poder para criar tarifas. Segundo o tribunal, a definição de impostos sobre importações é uma atribuição do Congresso e não poderia ser assumida de forma ilimitada pelo Executivo com base em uma declaração de emergência.
A decisão obrigou a Casa Branca a interromper a cobrança das tarifas fundamentadas nessa legislação e a buscar outros caminhos jurídicos. Em vez de abandonar a política tarifária, Trump passou a recorrer a instrumentos que já previam procedimentos de investigação comercial e maior participação do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR.
Brasil vira teste da nova estratégia
O Brasil tornou-se o primeiro país atingido pela nova fórmula. A sobretaxa de 25% foi estabelecida com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, mecanismo que permite aos Estados Unidos investigar práticas consideradas injustas ou discriminatórias e adotar medidas de retaliação.
A investigação passou a reunir acusações relacionadas ao comércio digital, ao desmatamento, ao etanol, ao sistema de pagamentos Pix e ao tratamento dado pelo Brasil a empresas e plataformas norte-americanas. A decisão final atingiu setores como máquinas e equipamentos, móveis, açúcar, etanol, calçados e outros segmentos industriais, embora tenha preservado itens importantes, como café, carne bovina e aeronaves.
A nova base legal é mais estruturada do que a declaração unilateral de emergência rejeitada pela Suprema Corte. A Seção 301 exige investigação, consulta pública, elaboração de relatório e apresentação de justificativas para a retaliação. Isso não elimina possíveis questionamentos judiciais, mas oferece ao governo Trump uma sustentação jurídica mais consistente para manter as tarifas.
O episódio mostra como a polarização brasileira ultrapassou as fronteiras e alcançou empresas, trabalhadores e cadeias produtivas que não participam diretamente da disputa política. De um lado, aliados de Jair Bolsonaro buscaram apoio externo para pressionar instituições brasileiras. Do outro, o governo Lula incorporou o conflito ao discurso de defesa da soberania nacional e passou a explorar politicamente a intervenção norte-americana.
O próprio Paulo Figueiredo mudou de posição ao perceber que a tarifa poderia fortalecer Lula e atingir produtores brasileiros. Em depoimento preparado para uma audiência do USTR, passou a defender que Washington abandonasse a cobrança de 25% e retomasse as sanções individuais contra autoridades. Argumentou que o tarifaço atingiria “o alvo errado”, puniria empresas e consumidores e aproximaria ainda mais o Brasil da China.
A mudança evidencia a contradição da estratégia. Inicialmente, a tarifa foi tratada por aliados do bolsonarismo como um instrumento legítimo de pressão sobre o Brasil. Quando seus efeitos econômicos e eleitorais se tornaram evidentes, o mesmo grupo passou a sustentar que a medida prejudicaria as supostas vítimas das decisões que pretendia combater.
Ao perceber que o tarifaço começava a gerar desgaste para sua campanha à Presidência da República, o senador Flávio Bolsonaro tentou intervir nas negociações com os Estados Unidos. Ele participou de uma reunião no USTR e pediu que a cobrança fosse adiada para depois das eleições brasileiras.
A estratégia, porém, errou o alvo. Ao vincular o início das tarifas ao calendário eleitoral, Flávio reforçou a percepção de que a principal preocupação era evitar prejuízos à própria candidatura, e não proteger imediatamente empresas, empregos e exportações brasileiras.
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