
Com pouco mais de 30 dias de conflito, a guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã já elevou o preço dos fertilizantes importados usados em culturas relevantes de Pernambuco, como cana-de-açúcar, uva e manga irrigadas do Vale do São Francisco, além de plantios tecnificados de milho no Agreste, segundo especialistas entrevistados nesta reportagem. A alta pressiona os custos no campo e pode reduzir a produtividade, caso os produtores diminuam a aplicação desses insumos.
“Ocorreu um aumento de cerca de 30% no preço dos fertilizantes nitrogenados por causa deste conflito e isso começa a pressionar os custos da produção agrícola em Pernambuco, devendo ser repassado ao consumidor nos próximos meses, com impacto direto nos preços de alimentos e itens da cesta básica”, resume o engenheiro agronômo da Secretaria de Desenvolvimento Agrário, Agricultura, Pecuária e Pesca de Pernambuco Josimar Gurgel.
O fertilizante nitrogenado é feito a partir do petróleo e teve o preço diretamente impactado pelo conflito, sendo importado do Oriente Médio. As culturas mais afetadas são as que dependem de maior uso de fertilizantes e que usam estes produtos de forma contínua com a fertirrigação, como por exemplo, a uva e a manga, do Vale do São Francisco, produzidas durante quase todo o ano.
Ainda de acordo com Josimar, no caso dos grãos, como o feijão produzido no Sertão e no Agreste – pela agricultura familiar – deve sofrer pouco impacto, por ser cultivado com baixo uso de fertilizantes, além de ser uma cultura que fixa nitrogênio no solo. “Já o milho pode ser afetado nas áreas mais tecnificadas da Zona da Mata e do Agreste, onde há maior uso destes insumos”, comenta Josimar. Nesse caso, tecnificados são os plantios com maior uso de tecnologia e de fertilizantes.
O impacto deste aumento deve atingir hortaliças como tomate, alface, pimentão e folhosas, produzidos principalmente por pequenos produtores que não compram fertilizantes de forma antecipada, segundo Josimar. Ele cita que “regiões produtoras como Bezerros, Camocim de São Félix e Gravatá tendem a sentir rapidamente a alta dos custos, com reflexo direto nos preços praticados no Ceasa e nos supermercados”.
Na opinião dele, a alta deve chegar primeiro às culturas de ciclo curto, como o alface que pode ser colhido com cerca de 60 dias depois de plantado. “O impacto vai depender da técnica utilizada e não só da cultura”, explica Josimar. Estes produtos de ciclo curto devem repassar a alta de custo no preço da venda para o varejo e atacado que também devem aumentar o preço para o consumidor, na opinião de Josimar.

Fruticultura do Vale do São Francisco
O aumento no preço dos fertilizantes percebido pelos produtores do Vale do São Francisco varia bastante de acordo com a cultura e o manejo, segundo o coordenador dos Observatórios de mercado de Manga e Uva da Embrapa Semiárido, João Ricardo Lima. “Até o momento, está sendo um primeiro semestre complicado para os produtores do Vale. O aumento do preço dos fertilizantes variou bastante, mas, na média, ficou em 11%. Também tiveram incremento de preço os fretes e as embalagens, além das chuvas que impactam negativamente e podem provocar perdas da produção”, explica o pesquisador.
Somente para o leitor ter uma ideia, o preço do frete de uma carreta que transporta em torno de 30 toneladas de frutas para estados como Rio de Janeiro ou São Paulo custava R$ 15.800 antes da guerra. “Hoje está entre R$ 18 mil e R$ 20 mil”, conta João Ricardo. O preço do petróleo e dos seus derivados aumentaram com o conflito no Oriente Médio e este foi o primeiro reflexo sentido pelo consumidor brasileiro.
Segundo informações do observatório, no plantio das uvas, os fertilizantes podem chegar a 6% do custo em pequenas propriedades e 9% em grandes propriedades, enquanto no cultivo das mangas, esta despesa corresponde a 14% dos gastos. “O Brasil tinha que ser autossuficiente na produção de fertilizantes nitrogenados. O atual conflito foi pior porque atingiu toda a cadeia que usa petróleo, incluindo o transporte por caminhões, por navios e os fertilizantes”, entre outros.
João Ricardo também diz que as frutas irrigadas do Vale do São Francisco vão chegar mais caras nos pontos de venda ao consumidor final, mas isso não significa que o produtor vá vender por um preço maior. “No caso da uva e da manga, o que faz o preço subir é o aumento da demanda no mercado”, cita João Ricardo.
O Vale do São Francisco é responsável por 99% das exportações de uva do País e de 92% de todas as mangas vendidas ao exterior pelo Brasil. No ano passado, aquela região exportou 62 mil toneladas de uva por US$ 162 milhões e 291 mil toneladas de manga por US$ 337,4 milhões.

O impacto da guerra na cana-de-açúcar
O presidente da Associação dos Fornecedores de Cana-de-Açúcar, Alexandre Andrade Lima, diz que os produtores já estão com problemas no fornecimento dos fertilizantes, que geralmente são vendidos, localmente, por duas empresas do setor. Segundo ele, uma das empresas vendedoras está com problema de gestão e a outra não está conseguindo entregar o que foi comprado.
“A guerra está prejudicando mais ainda o fornecimento do produto. Compramos 2.500 toneladas de fertilizantes em dezembro e até agora só recebemos 800 mil toneladas. Este fertilizante era pra estar praticamente nos galpões, sendo distribuído para os produtores aproveitarem o ciclo chuvoso que faz a cana se desenvolver mais com a adubação”, cita Alexandre.
Segundo ele, a alta no preço dos fertilizantes vai fazer com que alguns produtores deixem de adubar, provocando uma redução da produtividade nos canaviais. “É cedo não dá pra dizer o quanto vai cair a produtividade”, fala. “Os fertilizantes que têm fosfato também estão subindo de preço por causa do aumento dos fretes terrestre e marítimo”, afirma. No Brasil, entre 85% e 90% dos fertilizantes são importados, principalmente do Oriente Médio e Rússia, entre outros.
O presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool de Pernambuco (Sindaçúcar-PE), Renato Cunha, diz que uma das saídas para o setor depender menos dos fertilizantes importados é usar os biofertilizantes, incluindo os que podem ser feitos a partir do bagaço da cana-de-açúcar, utilizando também bactérias, entre outros compostos orgânicos. “O mundo tem tido oscilações com certa frequência. É preciso criar antídotos, investindo em biofertilizantes. Isso não vai ocorrer num passe de mágica, mas é um caminho”, conclui Renato.
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