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Masterboi oficializa Ceará e aposta na infraestrutura da Transnordestina

Com investimento de R$ 300 mi e capacidade para abater até mil bovinos por dia, o maior frigorífico do estado em 25 anos nasce ancorado na ferrovia que conecta o Semiárido ao mercado global
Bruno Brandão
Bruno Brandão
De Fortaleza
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Governador Elmano de Freitas e o presidente da Masterboi, Nelson Bezerra, durante a assinatura no Palácio da Abolição - Foto: Divulgação
Ao lado do governador Elmano de Freitas, o presidente da Masterboi, Nelson Bezerra, discursa durante a assinatura no Palácio da Abolição. Foto: Divulgação

A Masterboi, um dos maiores grupos frigoríficos do Brasil, oficializou nesta terça-feira (31) sua instalação em Iguatu, no Ceará, encerrando um hiato de 25 anos sem frigorífico de grande porte no estado. A cerimônia ocorreu no Palácio da Abolição, em Fortaleza, com a presença do governador Elmano de Freitas, do presidente do Banco do Nordeste, Paulo Câmara, e do senador Cid Gomes (PSB). O empreendimento representa um investimento de R$ 300 milhões e a promessa de transformar a estrutura da pecuária cearense, que hoje exporta seus animais para o abate em estados vizinhos.

A escolha de Iguatu não foi aleatória. O município reúne um conjunto de fatores logísticos e de infraestrutura que venceu a disputa com outros municípios cearenses e até com localidades da Bahia. No centro dessa decisão está a Transnordestina, ferrovia intermodal que posiciona Iguatu como entroncamento estratégico para o escoamento de grãos do Matopiba, região produtora formada por Tocantins, Maranhão, Piauí e Bahia, e para a exportação futura de carnes processadas.

A decisão que veio de julho: Ceará vence a Bahia

O presidente da Masterboi, Nelson Bezerra, revelou que as tratativas começaram em julho, quando a empresa avaliava simultaneamente o Ceará e a Bahia. O peso da infraestrutura ferroviária foi determinante: a Transnordestina, com seu terminal intermodal já instalado em Iguatu, oferece tanto o abastecimento de insumos, os grãos do Matopiba que alimentarão os confinamentos, quanto a perspectiva de escoamento de carnes processadas para exportação. A abundância hídrica propiciada pela proximidade com o Açude Orós, exigência técnica para a área de 60 hectares do complexo, completou o quadro favorável.

“Escolhemos Iguatu pela Transnordestina, pela abundância de água, pela proximidade com Orós e por uma população de mais de 60 mil pessoas. O boi virá naturalmente, antes de começar a operação, muitos já vão começar a investir na pecuária”, disse Nelson Bezerra, presidente da Masterboi. A previsão é de que a unidade comece a operar em 2028.

Bezerra citou a experiência bem-sucedida de Pernambuco como referência para o projeto cearense. O frigorífico inaugurado em Canhotinho em 2022 já abate 750 bovinos por dia e deve chegar a 900 ainda em julho deste ano, crescimento que o executivo atribui exatamente à presença da indústria como catalisador da cadeia produtiva local. Os dados confirmam o custo da ausência de estrutura similar no Ceará: atualmente, 8% dos animais abatidos naquela unidade pernambucana são provenientes do estado, uma sangria econômica que o novo frigorífico pretende reverter.

Crescimento de acordo com capacidade de produtores

“O Nordeste é muito grande. Toda a carga que vem do Ceará praticamente vem do Pará, Tocantins e Maranhão. Com uma indústria frigorífica, não tenho dúvida de que a pecuária vai crescer muito. O projeto inicial é para 500 cabeças por dia, gerando mais de 200 empregos. Quem vai dizer o tamanho do frigorífico serão os produtores. Onde Pernambuco ninguém acreditava que conseguiríamos abater 500 por dia, já estamos chegando em 900. Queremos desenvolver não só Iguatu, mas toda a região do Ceará”, pontua Nelson. 

O governador do Ceará Elmano de Freitas reforçou a importância com o investimento e incentivo na pecuária de corte e a importância da Transnordestina. “Mil bois em um curral é muita coisa. Eu fico satisfeito, pois sei que isso vai representar muito desenvolvimento para a cadeia produtiva. Queremos aumentar a pecuária estritamente de corte. Não tenho dúvida que vamos superar todos os desafios. E o diferencial ainda mais para a Masterboi é que a empresa estará em Iguatu, por onde passa a Transnordestina, um diferencial logístico do Ceará. Os grãos do Matopiba darão rebanho e confinamento para a empresa”, destacou.

Nelson Bezerra destacou a Transnordestina como fator decisivo: 'Escolhemos Iguatu pela ferrovia, pela água e pela localização estratégica - Foto: Divulgação
Nelson Bezerra destacou a Transnordestina como fator decisivo: ‘Escolhemos Iguatu pela ferrovia, pela água e pela localização estratégica – Foto: Divulgação

Terminal Logístico de Iguatu: a engrenagem que faltava

Para Eugério Queiroz, sócio-diretor do Terminal Logístico de Iguatu (TLI), a chegada da Masterboi completa um ecossistema que estava em construção. O terminal, que recebe grãos do Matopiba via ferrovia, passa a ter agora uma âncora agroindustrial de alto valor agregado para as cargas que movimenta. O impacto foi imediato na ordem de prioridades do próprio terminal. 

“Estou bastante otimista. A chegada do frigorífico vem fechar com chave de ouro a chegada dos grãos através do Terminal Logístico de Iguatu, que chegam do Matopiba e vão alimentar as cadeias de criadouros de gado que serão comercializados na Masterboi”, diz Eugério.

A reconfiguração estratégica do terminal é concreta: o projeto de um terminal de combustível, que era a prioridade anterior, cede lugar ao terminal de contêineres, necessário para atender simultaneamente ao TLI e à Masterboi. Queiroz informou ainda que 100 novos vagões com capacidade de 100 toneladas cada já foram incorporados à frota. O ritmo de operações deve se tornar semanal entre maio e junho, com duas operações pontuais de grãos previstas para abril.

“Antes, após o terminal logístico, tínhamos como prioridade o terminal de combustível. Agora, com a chegada da Masterboi, nossa prioridade passa a ser o terminal de contêineres, que vai atender as duas empresas”, disse. 

Os 60 hectares escolhidos pela Masterboi ficam ao lado do Terminal Logístico - Foto: Divulgação
Os 60 hectares escolhidos pela Masterboi ficam ao lado do Terminal Logístico – Foto: Divulgação

O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Faec), Amílcar Silveira, classificou o investimento como “divisor de águas” para a pecuária cearense. O último grande frigorífico que operou no estado foi o Frigorífico Industrial de Fortaleza (Frifort), que encerrou as atividades no ano 2000, uma lacuna de um quarto de século que forçou os pecuaristas cearenses a depender de estruturas em outros estados.

“O Ceará estava carente de um frigorífico de grande porte, e esse investimento representa um avanço significativo para o agronegócio cearense. O interesse da empresa demonstra que o Ceará tem potencial produtivo e competitivo na pecuária. O frigorífico é um divisor de águas para a pecuária cearense”, completa Amílcar Silveira, presidente da Faec.

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