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Com sinal verde da Anvisa, fazenda de cannabis em Olinda projeta expansão via SUS

Com regulamentação da Anvisa, Aliança Medicinal avança para funcionar sem necessidade de liminares judiciais. Reforma elevou capacidade de 10 para 36 contêineres; produção pode triplicar
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Anvisa estabeleceu regras diferenciadas para produção de cannabis por empresas (com Autorização Especial via Anvisa) e pesquisa científica (em instituições de ensino e órgãos de defesa). Foto: Aliança Medicinal/Divulgação

A aprovação, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do marco regulatório para cultivo de cannabis medicinal no Brasil abre o caminho para regularização das associações de pacientes, como a Aliança Medicinal – primeira fazenda urbana de cannabis sativa do país. Instalada em Olinda, Pernambuco, ela é uma das poucas com autorização judicial para funcionar, e atende 17 mil associados em todo o Brasil, com a entrega de 3 mil frascos de óleo medicinal mensalmente, além de pomadas e cremes lançados em 2025.

Com a regularização, a expansão da produção e o aumento da capacidade de atender novos associados ficam cada vez mais perto, graças à Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) Específica para Associações de Pacientes. Considerada uma das mais importantes, ela traz segurança jurídica para instituições que, em sua maioria, trabalhavam sem a proteção legal para o cultivo de cannabis sativa e a produção dos medicamentos.

“Estamos diante de um momento importante de reconhecimento das instituições que funcionavam à margem, como se não existissem legalmente. Porém, é um modelo experimental de avaliação, que ainda precisa amadurecer e evoluir para reconhecer melhor o nosso trabalho”, declara Ricardo Hazin Asfora, diretor-executivo da Aliança Medicinal.

A RDC específica para associações cria instrumento de avaliação sanitária em ambiente controlado e supervisionado, sem autorização para comercialização. A Anvisa fará chamamento público com critérios técnicos e limites de produção, transformando o improviso anterior em governança regulatória explícita.

Todas as resoluções mantêm limite de até 0,3% de THC (tetra-hidrocanabinol) e proíbem qualquer autorização para uso recreativo. A aprovação das três resoluções por unanimidade estabelece ainda regras diferenciadas para produção por empresas (com Autorização Especial via Anvisa) e pesquisa científica (em instituições de ensino e órgãos de defesa).

 Ricardo Hazin Asfora, diretor-executivo da Aliança Medicinal cannabis maconha Pernambuco
Engenheiro agrônomo, Ricardo Asfora desenvolveu método de cultivo e preside atualmente a Aliança Medicinal. Foto: Aliança Medicinal/Divulgação

Expansão do sistema com novos contêineres

A regulamentação chega em paralelo ao crescimento anual da demanda, em todo o país, e que levou a Aliança Medicinal a ampliar sua capacidade instalada, com uma reforma concluída em 2025, que permitirá alavancar sua capacidade produção e ampliar as condições de atender mais associados.

No sistema desenvolvido por Ricardo Hazin Asfora, engenheiro agrônomo, o cultivo é realizado em contêineres climatizados e controlados por uma tecnologia que permite a padronização fenotípica das plantas e replicabilidade de lotes — exigência essencial da Anvisa.

“Com a reforma, passamos de 10 para 36 contêineres, porque acreditamos na ampliação do acesso aos pacientes e que nosso serviço vai chegar na ponta, com o SUS fornecendo o tratamento a toda a população. Estamos preparados para um aumento significativo que pode até triplicar a produção”, afirma Asfora.

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Expectativa é de que regulamentação pela Anvisa facilite a produção e oferta de medicamentos pelo Sistema Único de Saúde. Foto: Aliança Medicinal/Divulgação

Governança regulatória em lugar do improviso

Lyane Menezes, advogada da Aliança Medicinal e vice-presidente da Comissão de Direito Canábico da OAB-PE, destaca que a regulamentação substitui improviso por estabilidade. “Na prática, quem sustentou o acesso cotidiano ao tratamento foram as famílias e as entidades associativas, atuando à margem de uma regulamentação inexistente. Ao prever um instrumento voltado à produção associativa, com monitoramento, rastreabilidade, controle de qualidade e supervisão, a Agência sinaliza a intenção de substituir improviso por governança regulatória”, resume.

A Aliança opera sob proteção de liminar judicial do TRF da 5ª Região, conquistada em março de 2023, e segue as exigências da Anvisa. Para a advogada, a regulamentação poderá reduzir as incertezas das associações de pacientes graças ao marco legal que favorece tanto funcionamento quanto futuras decisões administrativas e judiciais.

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Os medicamentos são oferecidos com diferentes concentrações de CBD e THC, princípios ativos da cannabis. Foto: Aliança Medicinal/Divulgação

Ampliação de público e tratamentos

A Aliança atende principalmente pacientes com dores crônicas, fibromialgia, epilepsia, Mal de Parkinson, Alzheimer, depressão, câncer, e condições neurodegenerativas. Os medicamentos são oferecidos em diferentes concentrações de CBD e THC: 15 mg, 30 mg e 60 mg — cada uma indicada conforme prescrição médica e perfil do paciente.

A aprovação da Anvisa também ampliou o público-alvo elegível para uso do THC a 0,2% até então, apenas pacientes em cuidados paliativos ou com condições irreversíveis/terminais podiam usar produtos; agora, pacientes com doenças debilitantes graves foram inclusos.

A agência autorizou também novas vias de administração: dermatológica, sublingual, bucal e inalatória, além das já permitidas (nasal e oral).

Uma história de amor

A história da Aliança Medicinal explica por que essa regulamentação é transformadora. Em 2018, Hélida Lacerda, hoje presidente da associação, conquistou habeas corpus para cultivar cannabis artesanalmente e produzir óleo para seu filho, diagnosticado com epilepsia refratária.

O diagnóstico inicial indicava poucos meses de vida, mas com o óleo derivado da Cannabis, houve uma redução de 98% em relação às crises diárias, e Anthony teve uma melhora na qualidade de vida.

Em 2020, Hélida Lacerda reuniu outras mães que também precisavam da cannabis para tratamento dos filhos. Foi uma semente para a Aliança Medicinal, criada a partir de 2021 quando Ricardo trouxe sua experiência de engenheiro agrônomo e gestor para o grupo.

Em março de 2023, uma liminar judicial reconheceu os benefícios para a saúde dos associados e garantiu que a operação fosse expandida de forma legal.

A cannabis, já adulta, enfrenta o processo de secagem, criando um ambiente ideal para que desidrate e seque adequadamente
Criada em 2021, a Aliança Medicinal ampliou a sua capacidade instalada, com uma reforma concluída em 2025, Foto: Raianne Romão/Movimento Econômico

Amparo por legislação estadual

Em novembro de 2024, a Assembleia Legislativa de Pernambuco aprovou por unanimidade a Lei Alepe nº 18.757, estabelecendo a Política Estadual de Fornecimento de Remédios e Produtos Derivados de Cannabis — garantindo distribuição gratuita pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para pacientes com prescrição de profissional habilitado.

A aprovação da Anvisa em janeiro de 2026 consolida esse avanço estadual, permitindo que a Aliança Medicinal expanda operações sem dependência de liminares e com supervisão regulatória permanente. A Anvisa estabeleceu comitê interministerial coordenado pela agência, Ministério da Justiça, Ministério da Saúde e Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para fiscalização de todas as etapas de produção.

Pernambuco como polo de inovação

A aprovação da Anvisa consolida Pernambuco como centro de inovação medicinal de cannabis no Nordeste. Com o modelo de cultivo patenteado por Ricardo Hazin Asfora, a Aliança Medicinal permanece como pioneira em escala, inovação tecnológica em contêineres climatizados e rastreabilidade — modelo que outras associações poderão replicar sob supervisão regulatória.

O estado se beneficia de aumento de atividade econômica, geração de empregos diretos e indiretos na cadeia de produção, distribuição e pesquisa científica, reforçando sua vocação em setores de saúde e biotecnologia.

Leia mais: Anvisa autoriza cultivo de cannabis por empresas para fins medicinais

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