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Clube do vinho nordestino cresce fora do Vale do São Francisco

Primeiro vinho potiguar é registrado no Ministério da Agricultura, marcando a entrada do município de Martins no mapa vitivinícola nordestino, ao lado de produtores da PB, SE, PE e BA.
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Casal Salismar Correia e Alice Monteiro apresenta os três vinhos com uvas cultivadas na cidade serrana potiguar de Martins. Foto: Sebrae-RN/Divulgação
Casal Salismar Correia e Alice Monteiro apresenta os três vinhos com uvas cultivadas na cidade serrana potiguar de Martins. Foto: Sebrae-RN/Divulgação

Um blend entre empresários ousados, terrenos de altitude ou de clima quente com boa oferta de água e assistência técnica especializada está redesenhando o mapa da produção de vinhos no Nordeste. Engana-se quem pensa que os brancos, tintos e rosés da região saem apenas das tradicionais vinícolas pernambucanas e baianas do Vale do São Francisco. Rótulos começam a surgir em outras cidades e estados, revelando novos terroirs e ambições. O mais recente integrante do clube dos produtores de vinho nordestino é o Rio Grande do Norte, que acaba de registrar oficialmente seus primeiros rótulos no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA).

A estreia potiguar ocorre pelas mãos da Destilaria Serra de Martins, no município de Martins, no Alto Oeste. Até então, o Rio Grande do Norte não tinha registro formal de produção de vinho nos sistemas oficiais do Ministério da Agricultura e Pecuária — SIVIBE, voltado a vinhos e bebidas, e SIPEAGRO, que reúne o cadastro nacional de estabelecimentos agropecuários.

A entrada da vinícola marca a primeira presença oficial do estado no mapa vitivinícola brasileiro. Martins, a cerca de 700 metros de altitude e com clima mais ameno, já era conhecida como destino turístico de inverno, e agora incorpora o vinho como novo atrativo, ampliando seu potencial de enoturismo.

A iniciativa, liderada pela empresária Alice Monteiro, começou com a produção de cachaça e rum, mas encontrou no vinho uma forma de expressar a identidade local. A linha, batizada de Arretado, conta com três rótulos elaborados com uvas cultivadas nos vinhedos da própria cidade serrana: um tinto seco Syrah, um branco meio seco com uvas Lorena e um rosé suave, blend das variedades Lorena e Vitória.

A produção inicial para lançamento no festival foi limitada a cerca de 80 garrafas por tipo, totalizando 240 unidades, e foi disponibilizada para degustação durante a 17ª edição do Festival Gastronômico e Cultural da cidade, realizado em julho, com apoio do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no Estado (Sebrae-RN). As uvas utilizadas são cultivadas na própria serra. Para o ano, a expectativa é atingir aproximadamente 1,2 mil garrafas, com possibilidade de dobrar nos próximos ciclos.

As variedades Lorena e Vitória, híbridas desenvolvidas no Brasil, foram escolhidas por sua boa adaptação ao clima tropical e resistência a doenças, enquanto a Syrah, já consagrada no Vale do São Francisco, permite elaborar vinhos tintos estruturados. Segundo estudos da Embrapa, áreas serranas do RN, como Martins, apresentam aptidão para viticultura de qualidade quando se adota manejo adequado de poda e irrigação.

Projeto de vinícola boutique e experiência de consumo

Queremos que as pessoas venham conhecer nossa região, se encantem com as paisagens e levem um pouco da Serra de Martins na garrafa”, disse Alice Monteiro. O enólogo Caio Dias, responsável pela produção, destacou: “Este é um passo importante para mostrar que o Rio Grande do Norte também pode produzir vinhos de excelência, aproveitando nosso potencial natural”. A altitude acima de 700 metros e o clima mais ameno são considerados ideais para a produção.

Após a primeira safra, a empresa já projeta ampliar a área cultivada para aumentar a produção. Segundo Alice Monteiro, a meta é construir uma vinícola boutique voltada à qualidade e à experiência de consumo. “Nossa produção ainda é pequena, mas já estamos ampliando as áreas de cultivo com cuidado e responsabilidade. A ideia é focar na autenticidade e na experiência de quem bebe, mais do que na quantidade”, afirmou.

O pioneirismo potiguar reforça uma tendência que vem ganhando força em diferentes cantos do Nordeste. Assim como em Martins, outras cidades e estados vêm investindo em vinhedos adaptados às suas condições locais, combinando clima, solo e inovação para criar rótulos com identidade própria.

Casal da Paraíba cria primeiros rótulos de vinho fino do estado e altera rota do enoturismo do país.
Herta Sônia e Jorismar Gonçalves tiveram a ideia de criar rótulos paraibanos após viagem à Europa. Foto: Divulgação

Château HS: rótulos finos do Sertão paraibano

Na Paraíba, o casal Herta Sônia e Jarismar Gonçalves investiu R$ 1 milhão para cultivar uvas vitis vinífera em Sousa, município localizado no semiárido e mais conhecido pela produção de algodão e pela presença de fósseis de dinossauro. A propriedade é irrigada com água proveniente da transposição do rio São Francisco, tecnologia que permite a produção agrícola em áreas antes limitadas por estiagens prolongadas.

A primeira safra produziu uma tonelada de uvas, suficientes para cerca de 600 garrafas de vinho fino, com variedades como Malbec, Syrah, Tannat e Touriga Nacional. A vinícola, batizada de Château HS, recebeu orientação técnica do Sebrae-PB e apoio de enólogos para desenvolver métodos de poda e condução adaptados ao clima quente, permitindo colheitas no segundo semestre. A produção atual ainda é experimental, mas o objetivo é alcançar 5 mil garrafas/ano até 2027, atendendo tanto ao mercado local quanto ao enoturismo regional.

Segundo dados da Embrapa Semiárido, o potencial produtivo na região de Sousa pode chegar a 12 toneladas por hectare, semelhante a áreas irrigadas de Pernambuco. O projeto busca explorar o diferencial de terroir do semiárido paraibano, combinando solos arenosos, alta insolação e noites relativamente frescas no período de maturação.

Muita gente acreditou nesse sonho que se concretiza hoje. O Sebrae é um parceiro estratégico… marca o que pode ser uma nova cultura para a nossa cidade”, afirmou Jarismar, durante lançamento dos rótulos, batizados de “Nozze D’argento” e “Abelisaurus”, em referência aos 25 anos de casamento e às pegadas de dinossauro da região.

Possamai
Vinícola sergipana Possamai projeta produção de 10 mil litros com partes das uvas produzidas na cidade de Canindé de São Francisco. Foto: Divulgação

Vinícola Possamai: tradição familiar em Sergipe

Em Sergipe, a Vinícola Possamai, comandada por Darlei Possamai, produz cerca de 4 mil litros de vinho por ano em São Cristóvão. Fundada em 2018, a vinícola começou como um projeto familiar e se consolidou com a formalização do registro no MAPA em 2023. As uvas vêm de fornecedores de Canindé do São Francisco (SE) e Petrolina (PE), mostrando que a vitivinicultura nordestina também prospera fora de regiões serranas e de altitude.

A produção inclui variedades como Isabel e Moscato, adaptadas ao clima quente e colhidas em ciclos controlados para preservar acidez e frescor. Parte da produção é destinada a vinhos de mesa e outra a vinhos finos, elaborados em pequena escala. Atualmente, cerca de 60% das vendas são realizadas no próprio estado, com o restante distribuído para Alagoas e Bahia.

Segundo levantamento do MAPA, Sergipe não possui tradição histórica na vitivinicultura, mas vem se beneficiando da demanda crescente por produtos regionais e do apoio de programas de capacitação técnica. A meta da vinícola é atingir 10 mil litros anuais até o final de 2025 e, no médio prazo, incorporar enoturismo, aproveitando a localização próxima a Aracaju e ao litoral.

Eu ia visitar meus familiares e sempre trazia vinho. Um dia, resolvi produzir”, contou o professor de filosofia Darlei Possamai, resumindo o início da atividade.

Vinícola Vale das Colinas apostou em Garanhuns por causa das temperatyras médias mais baixas em Pernambuco. Foto: Divulgação

Vale das Colinas: vinhos de altitude no Agreste pernambucano

No Agreste de Pernambuco, o médico Michel Moreira Leite criou a vinícola Vale das Colinas, em Garanhuns, município situado a cerca de 900 metros de altitude e com temperaturas médias mais baixas que o restante do estado. O projeto teve início em 2013, com a implantação dos primeiros vinhedos, e recebeu apoio técnico da Embrapa Semiárido, responsável por indicar práticas de manejo e variedades adequadas ao clima.

Desde 2018, a produção é de cerca de 6 mil garrafas artesanais por ano, distribuídas em cinco rótulos – três tintos e dois brancos – com variedades como Sauvignon Blanc, Syrah e Malbec. A altitude favorece um amadurecimento mais lento das uvas, resultando em maior complexidade aromática. Segundo a Embrapa, a produtividade média chega a 10 toneladas por hectare, patamar comparável ao Vale do São Francisco.

O Vale das Colinas integra o circuito emergente de enoturismo no Agreste, recebendo visitantes para degustações e visitas guiadas. A vinícola também participa de feiras regionais, fortalecendo a presença dos vinhos pernambucanos de altitude no mercado interno. A meta é ampliar a área plantada em 20% até 2026, mantendo foco na qualidade e na experiência turística.

Localizada a 1.150 metros de altitude em Mucugê, na Bahia, a Vinícola UVVA é um projeto inovador que combina terroir tropical de altitude, tecnologia de ponta, e curadoria criteriosa de uvas
Localizada a 1.150 metros de altitude em Mucugê, na Bahia, a Vinícola UVVA é um projeto que combina terroir tropical de altitude, tecnologia de ponta, e curadoria criteriosa de uvas. Foto: UVVA/Divulgação

Vinícola UVVA: alta gama na Chapada Diamantina

Na Bahia, fora do Vale do São Francisco, a Vinícola UVVA, em Mucugê, produz vinhos a 1.150 metros de altitude, em solo franco-argilo-arenoso. Inaugurada em 2022, a propriedade integra um projeto vitivinícola que envolve mais de 50 hectares de vinhedos e instalações modernas para vinificação, com tecnologia de controle de temperatura e armazenamento.

A colheita ocorre no inverno, entre julho e agosto, permitindo um amadurecimento lento e a formação de um perfil aromático diferenciado. O portfólio inclui variedades como Syrah, Sauvignon Blanc, Tempranillo, Cabernet Franc e Chardonnay, cultivadas com manejo sustentável e irrigação controlada. Segundo dados da própria vinícola, a produção inicial foi de cerca de 30 mil garrafas, com expectativa de expansão gradual.

A UVVA aposta na combinação de vinhos de alta gama com forte apelo de enoturismo. A estrutura da vinícola inclui restaurante, espaço para eventos, hospedagem e programação cultural, integrando-se ao roteiro turístico da Chapada Diamantina. O objetivo é posicionar a marca como referência nacional em vinhos de altitude produzidos no Nordeste.

Novos vinhedos em implantação

Segundo a Embrapa, o enoturismo no Agreste e no Semiárido pernambucanos estimula novos projetos e desperta o interesse de empreendedores de outras regiões do Nordeste. Já estão em andamento iniciativas para a implantação de vinhedos em Camocim de São Félix, Bonito, Gravatá e Flores (PE); Bananeiras, Natuba e Sousa (PB); e São José de Mipibu (RN). Esses projetos, em diferentes estágios, contam com suporte técnico de instituições de pesquisa e parcerias com o Sebrae e governos municipais.

Os estudos preliminares indicam que essas áreas têm condições favoráveis, seja pela altitude, seja pelo acesso à irrigação e manejo adequado. A expectativa é que, nos próximos cinco anos, essas novas localidades possam somar-se ao mapa da produção de vinhos do Nordeste, ampliando a diversidade de terroirs e fortalecendo o mercado interno.

Potencial técnico e recomendação agronômica

Estudo da Embrapa Semiárido e da Embrapa Uva e Vinho, publicado pela Revista Pesquisa Fapesp, aponta áreas da Bahia, Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Sergipe e sudoeste do Maranhão como aptas ao cultivo irrigado de uvas para vinho. Essas regiões apresentam combinações de clima e solo que permitem tanto a produção de vinhos de altitude quanto vinhos de regiões quentes, como no Vale do São Francisco.

A recomendação agronômica para áreas mais quentes é realizar a poda entre maio e junho, de forma a concentrar a maturação no período seco, preservando acidez e equilíbrio. Já para áreas serranas, a poda pode ser ajustada para aproveitar o ciclo natural de temperaturas mais baixas e insolação moderada. A pesquisa também reforça a importância do uso racional da irrigação e do manejo integrado de pragas para garantir qualidade e sustentabilidade.

O panorama oficial do vinho no Brasil

O registro no MAPA é obrigatório para comercialização. Até julho de 2025, apenas a Destilaria Serra de Martins figurava com registro formal fora do Vale. O SIPEAGRO autoriza estabelecimentos e produtos, enquanto o SIVIBE acompanha a produção de uvas por estado.

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