
O governo federal anunciou nesta sexta-feira (13) a retomada da hidrovia do São Francisco, marcando a reativação de um dos mais antigos corredores logísticos fluviais do país, paralisado desde 2014. Com investimentos superiores a R$ 6 bilhões, oriundos do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC) e do Fundo da Marinha Mercante, o projeto tem como objetivo movimentar até 5 milhões de toneladas de cargas por ano. A operação será coordenada pela Infra SA, com conclusão estimada até 2030, e envolverá a revitalização completa da infraestrutura de navegação ao longo do Velho Chico.
O anúncio foi feito em Petrolina. O ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, ressaltou a importância da obra para a redução do custo logístico e integração dos estados nordestinos. “Essa é uma pauta muito importante para o desenvolvimento do Nordeste, será muito estratégico para o desenvolvimento de toda a região. Em junho vamos assinar a delegação à Companhia das Docas do Estado da Bahia e iniciaremos os estudos técnicos ao lado da Infra SA”, detalhou, ao informar sobre a descentralização da hidrovia para a Codeba.
“A Nova Hidrovia do São Francisco representa mais um avanço para a logística nacional, integrando regiões e promovendo um transporte mais limpo, eficiente e competitivo”, destacou o secretário Nacional de Hidrovias e Navegação do Ministério de Portos e Aeroportos (MPor), Dino Antunes. Entre as cargas previstas, estão insumos agrícolas, gesso, gipsita, calcário, grãos, bebidas, minério e sal.

Hidrovia beneficiará economicamente 300 municípios
A hidrovia será composta por uma série de intervenções técnicas, incluindo obras de dragagem para remoção de sedimentos acumulados, derrocamento de formações rochosas que impedem a passagem segura de embarcações, instalação de sinalização náutica para garantir a segurança do tráfego fluvial e construção de terminais hidroviários em pontos estratégicos ao longo do percurso.
O trecho navegável totaliza 1.371 quilômetros entre Pirapora (MG), Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), com largura média de 500 metros. Abrange 300 municípios nos estados de Goiás, Tocantins, Pará, Maranhão, Mato Grosso, Distrito Federal, Pernambuco e Bahia. Segundo dados do IBGE, a região atendida alcança uma população estimada em 20,3 milhões de pessoas. O regime hidrológico do rio é marcado por águas altas de janeiro a maio e águas baixas entre junho e dezembro, exigindo manutenção permanente para garantir navegabilidade regular.
De 2010 a 2014, o rio movimentou cerca de 14,6 milhões de toneladas de carga, segundo a ANTAQ, o que demonstrava viabilidade operacional. Entretanto, em julho de 2014, a Icofort, única empresa em operação à época, especializada no transporte de caroço de algodão, suspendeu o uso da hidrovia. A decisão foi motivada pelo severo assoreamento do leito e pela vazão reduzida para 1.100 m³/s, o que impossibilitou a navegação. Com isso, interrompeu-se uma rota que reduzia de 20% a 30% os custos logísticos da empresa e mantinha empregos na região.

Agronegócio, mineração e modal de exportação
O retorno das operações fluviais atende diretamente aos setores do agronegócio, mineração e logística de exportação. A hidrovia é estratégica para o escoamento da produção de grãos e algodão no cerrado do oeste da Bahia e sul do Piauí, além da fruticultura irrigada no Vale do São Francisco. As cidades de Petrolina (PE) e Juazeiro (BA) são polos relevantes na produção de manga, uva, mamão e melancia, com parte considerável destinada à exportação. A produção de cana-de-açúcar irrigada também será beneficiada, com acesso facilitado aos portos marítimos.
Na avicultura, a reativação da hidrovia impactará positivamente polos produtivos como Feira de Santana (BA), Caruaru e Recife (PE) e Fortaleza (CE), ampliando a competitividade por meio da integração ao sistema logístico multimodal. No setor mineral, a gipsita extraída em Araripina (PI) e o calcário agrícola produzido próximo a Ibotirama (BA) poderão ser transportados com maior eficiência e menor custo, fortalecendo a indústria de gesso e insumos agrícolas.
A conexão intermodal com os portos do Sudeste, sobretudo Vitória (ES), também será ampliada. A logística multimodal permitirá que cargas oriundas do interior do Nordeste sejam escoadas por via fluvial, conectadas por rodovias e ferrovias até o litoral, reduzindo o tempo e o custo do transporte. Segundo estimativas do setor, o modal hidroviário pode representar até 40% de economia sobre o custo do transporte rodoviário.
Transporte mais sustentável
Do ponto de vista ambiental, o projeto reforça o compromisso do governo com a sustentabilidade. A substituição parcial do transporte rodoviário pelo fluvial contribui para a redução das emissões de gases de efeito estufa, preserva a malha rodoviária e reduz o consumo de combustíveis fósseis.
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta uma safra de 322 milhões de toneladas de grãos em 2024/2025, e parte desse volume poderá ser redirecionada para transporte fluvial, especialmente nas rotas de longa distância.
A expectativa é que os terminais hidroviários sirvam também como plataformas logísticas para armazenamento e distribuição de insumos e produtos finais, conectando regiões produtoras a centros consumidores e exportadores.
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