
Mais de seis décadas após a histórica Carta do Nordeste, redigida pelo economista e idealizador da Sudene, Celso Furtado em 1959, o debate sobre o desenvolvimento regional ganha novo fôlego, agora impulsionado por um cenário global de transformações tecnológicas, mudanças demográficas e desafios institucionais. Se, à época, a solução apontada por Furtado era a industrialização financiada pelo Estado, hoje, para os economistas neoclássicos, o foco se desloca para o fortalecimento de um sistema baseado em capital humano, inovação e governança local.
O seminário promovido nesta quinta-feira, no Recife, pela FGV e pelo Centro de Estudos para o Desenvolvimento do Nordeste, braço regional do FGV Ibre, marca o início de um esforço para construir uma nova Carta do Nordeste, a ser debatida em três etapas — haverá reuniões também em Salvador e em Fortaleza — e entregue ao governo federal em 2026 e aos candidatos à presidência da República. A proposta é diagnosticar os entraves ao crescimento da região e formular um plano estruturado de políticas públicas para o século XXI.
O evento, realizado no Recife, reuniu economistas, acadêmicos e gestores públicos e revelou não apenas a permanência de desigualdades históricas, mas também uma divergência conceitual entre as principais correntes de pensamento. De um lado, a tradição desenvolvimentista inspirada em Furtado, que ainda defende o papel estratégico da indústria. Do outro, os economistas de formação mais recente, que propõem substituir o foco em capital físico por investimentos em educação, saúde e produtividade do trabalho.

“Furtado estava certo ao tratar o Nordeste como projeto nacional. Mas o instrumento hoje precisa ser outro. Se antes era preciso construir fábricas, agora é urgente formar pessoas”, sintetizou Alexandre Rands, curador acadêmico do evento. Para ele, a geração de economistas dos anos 1990 e 2000 falhou em propor uma política regional com pouca atenção à formação de mão de obra. A nova carta pretende reparar essa omissão com base em evidências empíricas e formulação moderna.
Mas há divergências. A economista Tania Bacelar, que é da escola de Furtado, fez uma defesa enfática da retomada da industrialização. Segundo ela, há avanços concretos na formação de jovens qualificados no interior do Nordeste, graças à expansão das universidades. “Temos capital humano. O que vamos fazer com essa mão de obra? Vamos formar para exportar cérebros?”, questionou Bacelar, que também criticou o fato de a energia renovável produzida na região beneficiar outras localidades. “Seremos meros exportadores de energia para o crescimento de outros estados?”, provocou.
Concentração de riqueza no Nordeste
Os dados apresentados ao longo do seminário ajudam a contextualizar o impasse. A concentração econômica ainda é um traço marcante da região. Segundo levantamento do IBGE, menos de 10% dos municípios de cada estado concentram mais da metade do PIB estadual. Em Pernambuco, por exemplo, 15 dos 185 municípios concentram 71% da riqueza do estado, enquanto na Bahia, 18 dos seus 417 municípios respondem por 59% do PIB estadual. Essa realidade contradiz a narrativa de interiorização do desenvolvimento e revela uma estrutura fortemente polarizada em torno de poucos polos industriais e logísticos, como Suape (PE), Feira de Santana (BA), Mossoró (RN) e Petrolina (PE).
Além disso, há um descompasso entre produção e população. Em Pernambuco, 48% da população vive nesses 15 municípios mais ricos. Na Bahia, a discrepância é ainda maior: 39% da população vive nos 18 municípios mais produtivos. Isso indica que amplas parcelas da população nordestina continuam excluídas das cadeias mais dinâmicas da economia.
Nordeste envelhecido
Outro eixo de preocupação está nos dados demográficos. A taxa de crescimento populacional no Nordeste caiu significativamente. Segundo o Censo 2022, estados como Bahia, Alagoas e Sergipe apresentaram crescimento vegetativo abaixo de 0,1% ao ano. O envelhecimento da população, combinado à baixa qualificação da mão de obra e à concentração da atividade econômica, pode comprometer o potencial de crescimento futuro.
A renda domiciliar per capita cresceu 26,7% no Nordeste entre 2012 e 2024 — acima da média nacional (19,1%) — mas a região ainda apresenta o maior índice de pobreza e a maior proporção de pessoas em situação de extrema pobreza. Dados projetados no evento apontam que, embora tenha havido redução nos indicadores de desigualdade, o Nordeste ainda reúne cerca de 40% dos pobres do país.
Adriano Sarquis, pesquisador da FGV, foi enfático ao apontar a fragilidade institucional como entrave. “O problema do Nordeste não é econômico, é social e institucional. Quando um governador indica parentes para tribunais de contas, temos um problema institucional”, ressalta. Segundo ele, isso corrói as bases do desenvolvimento. Além disso, ele diz que o Nordeste não consegue internalizar os investimentos que chegam à região e que há vazamento de recursos oriundos de bancos públicos que não permanecem na economia local.
Como bem sintetizou Flávio Ataliba, coordenador do Centro Nordeste da FGV: “O Nordeste precisa de uma nova carta porque os desafios mudaram. A desigualdade permanece, mas ela agora se manifesta em novas formas — e exige novas respostas”.
Nesse contexto, os economistas neoclássicos propõem uma inflexão. O foco não está mais em megaprojetos industriais, mas em um sistema articulado de políticas públicas baseadas em capital humano, infraestrutura social e eficiência institucional. Entre as propostas estão: educação desde a primeira infância, inclusão produtiva em cidades médias, capacitação digital, saúde básica, redes urbanas integradas e fortalecimento da capacidade técnica dos governos locais.
Mais do que uma atualização técnica, trata-se de uma revisão estratégica da forma como o Nordeste deve ser entendido e tratado nas políticas nacionais. A carta de Furtado inaugurou um pensamento de transformação estrutural. A nova proposta busca consolidar uma visão de desenvolvimento sustentável, ancorada em conhecimento, equidade territorial e integração federativa. Mas como diz a economista Tânia Bacelar, “tem que haver equilíbrio”.
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