
Por Carlos Cavalcanti*
A transição energética, a descarbonização, a desfossilização, a sustentabilidade, a Agenda ESG, os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, a economia de baixo carbono, a economia circular, a economia regenerativa, a economia verde, a economia azul, a economia ecológica, as COPs, entre tantos outros termos, são conceitos, teses, pactos, movimentos, acordos e políticas que buscam encontrar saídas para harmonizar a vida perene no único planeta habitável do Sistema Solar, a Mãe Terra, Pachamama!
Mas, na prática, será que estamos conseguindo cumprir efetivamente com esses compromissos e levar essa árdua e incansável jornada adiante? Ou, estamos limitados a uma vontade, uma narrativa, uma condicionante, para canalizar mais dinheiro para segmentos ditos sustentáveis, renováveis, verdes, regenerativos, circulares?
Em 1987, o clássico relatório “Nosso Futuro Comum”, também conhecido como Relatório Brundtland, preparado pela Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, concluiu que “a humanidade tem a capacidade de atingir o desenvolvimento sustentável, ou seja, de alcançar às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das futuras gerações de atender às próprias necessidades.”
Todavia, ao verificar o método de contabilidade ambiental da “Pegada Ecológica” aplicado pelo Global Footprint Network e concebido em 1992 pelo economista ecológico canadense William Rees, que mede a demanda humana em relação ao capital natural – uma espécie de conta ecológica que avalia o impacto da produção e do consumo sobre a natureza e sobre os recursos naturais -, se conclui que no dia 1º de agosto de 2025 passaremos a consumir os recursos naturais que deveriam ser usados apenas em 2026. Em resumo, os sete primeiros meses de 2025 vão consumir toda capacidade de carga do planeta.
Cumulativamente, esse déficit ecológico vem aumentando desde 2014, aponta o estudo do demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE.
No mundo real, o modelo mental vigente funciona assim: comprar, sem ver o preço, e depois pagar com cartão de crédito. Ou, linearmente falando, extrair da natureza, transformar, consumir e aterrar os resíduos. E assim o débito (ambiental) só aumenta e se acumula, tornando-se impagável e insustentável. É exatamente o que está acontecendo com o planeta: colapso total no suporte de carga.
Agora, é preciso muita ação, agilidade e mudança no mindset, na mentalidade coletiva. É um desafio colossal. Mas, há esperança. Como apregoava o professor e dramaturgo Ariano Suassuna: “…o melhor é ser um realista otimista…”. O cerne da questão pelo viés do mercado está sendo viabilizar mecanismos de impulsionamento da economia de baixa emissão de carbono, associada à produção e ao consumo, mirando um futuro resiliente e sustentável.
Assim, começam a brotar inúmeras inciativas e negócios altamente exigentes e comprometidos com os acordos estabelecidos nas edições da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, com o intuito de incentivar o engajamento e a ambição global para garantir que o aumento da temperatura não ultrapasse o 1,5º celsius até o final do século 21. São empresas, universidades, governos, ONGs e cidadãos buscando encontrar saídas e meios para evitar o colapso total e compatibilizar o bom viver da civilização atual com a prosperidade ambiental.
Aqui se faz necessário ponderar sobre a função das florestas em pé e a conservação dos ecossistemas associados como grandes sumidouros e armazenadores de carbono, além de reguladores do clima localmente, para simplificar em muito os inúmeros benefícios relacionados. Fazendo o recorte na questão do clima, é só analisar a mudança de temperatura que ocorre em lugares com cobertura florestal e sem. Ao realizar o teste da sombra da árvore e analisar o índice de conforto da temperatura embaixo da copa e a pleno sol, observam-se diferenças significativas, inclusive repercutindo em seu entorno.
No caso do sequestro de carbono, o reflorestamento nativo torna-se um excelente e efetivo instrumento mitigatório. Nesse artigo, exponho os dados do inventário de sequestro de carbono do Complexo de Suape, realizado pela Associação Plantas do Nordeste (APNE | 2021-2025), com a utilização de modelos multivariados para estimar a biomassa e quantificar o estoque de carbono nos solos e na vegetação na zona de preservação ecológica, numa área de 8 mil campos de futebol ou 8 mil hectares, o que corresponde a 80 quilômetros quadrados.
Reflorestamento em Saupe
O levantamento conclui que “as taxas de crescimento positivo e significativo nas áreas de reflorestamento de Suape demonstram o potencial de acúmulo de carbono nessas situações. E o processo se se acelera após os 10 anos de idade.”
O estudo, usou metodologias especificas e os princípios e parâmetros indicados pelo Painel Intergovernamental de Mudança Climática (IPCC) e aferiu que toda a área estudada consegue estocar cerca de 1,5 milhões tCO²e (toneladas de CO²). O termo equivale a uma unidade de medida para representar todos os gases de efeito estufa em relação ao dióxido de carbono, facilitando a comparação e o cálculo das emissões ou de sequestros. Efetivamente, é um acervo de ativo ambiental que está em formulação na contabilidade ecológica do Complexo Industrial Portuário de Suape com os inventários de fauna silvestre, flora nativa e nascentes de água.
Portanto, além de tantos outros fatores associados ao papel da floresta em pé, a contribuição de Suape no enfrentamento às alterações climáticas tem sido cientificamente contundente e com padrão de excelência na gestão ambiental, comprovado com sua liderança em desempenho ambiental no ranking nacional de Portos (Antaq 2024).
Raramente, vamos encontrar no mercado nacional e internacional um equipamento de infraestrutura industrial e portuária que abrigue uma reserva ecológica protegida por um decreto-lei (nº 54.185, de 20/12/2022), compondo mais de 10 mil hectares destinados exclusivamente à preservação ecológica. A área representa nada mais do que 59% do território de 17,3 mil hectares do nosso Complexo.
Da outra margem, surgem enormes desafios que são as atividades industriais e portuárias que atingem diretamente a contabilidade ambiental dos ativos naturais abrigados na reserva ecológica de Suape e na gestão ambiental da estatal portuária. Por exemplo: as emissões de gases de efeito estufa dos empreendimentos são quase duas vezes maiores do que se registra no sumidouro natural.
O que anima e oferece esperança é o fato de que os empreendimentos, de uma maneira geral, estão buscando base sólida de tecnologia, inovação, produtos verdes, processos limpos e fontes renováveis que contenham baixa emissão de carbono, e um compromisso firme de neutralidade para as próximas décadas.
Além disso, o caso concreto de Suape, o legado socioambiental, a sustentabilidade forte do complexo industrial portuário, têm atraído novos empreendimentos cujos negócios estão plenamente conectados com essa pegada de baixo carbono, tal como a produção dos combustíveis verdes marítimos, com o e-metanol integrando o setor sucroalcooleiro, e a instalação de um terminal de contêineres totalmente eletrificado por fontes renováveis.
E há mais iniciativas exitosas em curso, a exemplo do TecHub de Transição Energética, o envolvimento das comunidades como fornecedores de insumos e produtos às empresas, a qualificação e formação do capital humano local para o emprego e o empreendedorismo; o estímulo aos sistemas agroflorestais, o incremento da restauração florestal, a conexão de negócios com visão de circularidade industrial e, sobretudo, os compromissos formais ambicionando metas ousadas para atingir a neutralidade de emissão de gases de efeito estufa antes de 2050.
Para aproveitar toda essa massa crítica de perspectivas, de stakeholders, de desafios e de enormes oportunidades, anúncio a participação da empresa Suape no Carbon Summit Pernambuco (CSP), evento que será realizado nos dias 27 e 28 de maio, no JCPM Trade Center, localizado na Praia do Pina, na Zona Sul do Recife.
A proposta do CSP é ser uma espécie de “Think Tank”, um laboratório de ideias para promover o debate sobre os mercados de créditos de carbono, não só como conceito, mas como estratégia firme para viabilizar a proteção e a restauração das nossas florestas e ecossistemas associados.
Esse movimento visa aprofundar a rota do desenvolvimento regenerativo e da economia ecológica para promover o crescimento socioeconômico em bases sustentáveis, projetando a força de Suape e de Pernambuco para o mundo como líderes em sustentabilidade forte.
*Carlos Cavalcanti é diretor de Sustentabilidade e Gestão Fundiária do Complexo Industrial Portuário de Suape
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