
Todos os anos, milhões de toneladas de roupas, calçados e sobras da indústria têxtil são descartadas no Brasil. Em meio ao desafio ambiental imposto pelo consumo acelerado da moda, artesãos pernambucanos vêm encontrando no reaproveitamento de materiais uma oportunidade para criar peças exclusivas, gerar renda e fortalecer a economia circular.
Na Fenearte deste ano, realizada no Centro de Convenções de Pernambuco, em Olinda, bolsas, acessórios e artigos de moda produzidos a partir de resíduos têxtis e da construção civil ganham espaço e atraem a atenção dos visitantes.
Dados da consultoria internacional S2F Partners apontam que cerca de 4 milhões de toneladas de resíduos têxteis são descartadas todos os anos nos domicílios brasileiros. Em 2024, cada residência do País jogou fora, em média, 44 quilos de roupas e calçados.
O impacto ambiental é ainda maior quando se observa a cadeia produtiva. Estima-se que entre 15% e 20% do tecido utilizado nas confecções seja descartado ainda na etapa de corte. Além disso, o setor têxtil responde por algo entre 2% e 8% das emissões globais de gases de efeito estufa.
Já na construção civil, o desperdício de material pode chegar a 40%. O setor é responsável pela emissão de 6% a 8% das emissões dos gases de efeito estufa no Brasil.
Na Fenearte, porém, artesãos mostram que parte desse material pode ganhar novos significados. Em comum, todas essas histórias revelam que resíduos e materiais descartados podem se transformar em peças sofisticadas, gerar oportunidades econômicas e fortalecer cadeias produtivas e sociais.
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Dos bastidores do cinema para as passarelas
Foi trabalhando com figurinos para produções audiovisuais que o estilista Thiago Amaral, da marca Coisas de Thi, percebeu o potencial dos resíduos têxteis. Acumulando tecidos e sobras de produções, ele decidiu pesquisar novas formas de utilização dos materiais.
“Eu trabalho com figurino, com cinema, e tinha muito material de resíduos. Comecei a pesquisar mais sobre como iria usar isso e fui testando”, conta.
O processo criativo resultou em uma linha de acessórios produzidos a partir de diferentes tipos de materiais. Hoje, as bolsas representam a principal aposta da marca.
“Utilizo de tudo, desde tecidos estofados até resíduos de vários tipos de material, como malha e tricoline”, explica o estilista, que comercializa suas peças principalmente pelas redes sociais.
A iniciativa acompanha uma tendência crescente no mercado da moda, baseada no conceito de upcycling, prática que transforma resíduos em produtos com maior valor agregado.
Arte, moda e transformação social na Fenearte
No Ateliê Mestra Lívia, o reaproveitamento de tecidos e couros está associado não apenas à sustentabilidade, mas também à formação profissional de mulheres da Região Metropolitana do Recife.
Há 40 anos, a artesã Lívia Aguiar mantém o ateliê em Olinda. Desse período, 39 anos foram dedicados ao trabalho social desenvolvido com mulheres em situação de vulnerabilidade. Atualmente, cerca de 60 participantes são atendidas, sendo 14 delas vinculadas ao ponto de cultura instalado em Jardim Fragoso.
“O processo de criação acontece a partir de vários materiais que são reaproveitados e reutilizados na construção de informação para a moda”, afirma.
Segundo Lívia, transformar resíduos em peças comercializáveis exige técnica e conhecimento. “Quando juntamos pedaços de tecido e pedaços de couro, procuramos dar a isso uma tendência de moda. Se for na técnica do bordado, a peça será bordada; se for no fuxico, será uma peça de fuxico”, explica.
Criadora da Rede Maria Fuxico há 28 anos, ela destaca que as participantes do projeto também atuam como educadoras sociais em diferentes comunidades pernambucanas.

Jeans reciclado ajuda a manter ONG
O reaproveitamento de resíduos também é a base do projeto Recicle Costurando, desenvolvido pela ONG Creche Escola Maria de Nazaré, em Jardim Paulista Baixo, no município do Paulista. A instituição atende cerca de 150 crianças e conta com a participação de 35 mães voluntárias.
Na Fenearte, elas comercializam bolsas e sacolas produzidas a partir de calças jeans doadas pela comunidade. Todo o valor arrecadado é revertido para a manutenção da entidade.
“As peças são vendidas aqui e o dinheiro é usado integralmente para os custos da casa, como alimentação, gás e as despesas das crianças”, explica a voluntária Vera Clara.
Além da geração de recursos, o projeto oferece qualificação profissional às participantes. “Eu fiz o curso lá há três anos, aprendi e continuei produzindo. Todas essas peças foram feitas a partir da capacitação oferecida pela própria creche”, afirma.

Madeira e vidro para compor acessórios
A economia circular presente na Fenearte ultrapassa o universo têxtil. A designer Mila Duarte, criadora da marca Vitrus Concept, transforma materiais descartados pela construção civil em acessórios femininos.
“Meu produto é um design de acessórios em que reutilizo materiais da construção civil e da arquitetura”, explica.
Vidro, couro sintético e metais compõem as coleções da marca, que participa da feira há cinco anos. Para Mila, a Fenearte também funciona como uma vitrine internacional.
“A feira é maravilhosa para divulgação do nosso produto e para criar parcerias, inclusive internacionais”, afirma.
Quem também conquistou novos mercados a partir do reaproveitamento de materiais foi o artesão Flávio Mercês, da Loka Arte Design. Utilizando madeira de demolição, ele produz bolsas que já chegaram a países como Estados Unidos, Portugal, Argentina e Itália.
A ideia surgiu de um pedido inesperado da esposa. “Eu fazia tábuas e utensílios quando ela me pediu uma bolsa de madeira. Achei que ela estava doida, mas resolvi fazer”, relembra.
Com apoio de instituições como Sebrae, Adepe e ApexBrasil, o negócio cresceu rapidamente. “Mudou completamente a minha vida”, diz o artesão.
Produção artesanal valoriza exclusividade
Embora trabalhe com couro e não necessariamente com resíduos têxteis, a marca Madame Bidulê representa outra face da produção artesanal exposta na Fenearte: a valorização do trabalho manual e da exclusividade.
Participando da feira pela sétima vez, a artesã Suely Teixeira explica que todo o processo produtivo é conduzido pelas sócias, desde a escolha das matérias-primas até a finalização das peças.
“Todas as nossas peças são feitas totalmente por nós, desde a escolha do material até a busca dos forros e ferragens”, diz.
Segundo ela, o processo criativo depende da observação cuidadosa do couro utilizado. “A gente olha a pele e as ideias começam a surgir. Tem que ter inspiração, porque senão não flui.”
A empresária destaca ainda que nenhuma peça sai idêntica à outra. “Nosso objetivo é justamente esse. São peças para pessoas que valorizam a arte e a produção artesanal”, afirma.
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