
Por Fernando Baldin*
Quem viveu a revolução do software livre nos anos 90 talvez esteja experimentando uma sensação curiosa diante do atual entusiasmo em torno da inteligência artificial. Para muitos profissionais mais jovens, a possibilidade de criar aplicações, agentes e soluções em poucos dias parece algo absolutamente novo, mas para quem já viu outras ondas tecnológicas nascerem existe um certo déjà vu.
Naquela época, o movimento open source prometia democratizar o acesso à tecnologia e, de fato, cumpriu um papel transformador, onde desenvolvedores do mundo inteiro criavam softwares gratuitos, compartilhavam conhecimento e permitiam que empresas inovassem sem depender exclusivamente de grandes fornecedores.
Parecia o cenário perfeito, mas havia uma armadilha pouco discutida. Em muitos casos, não existia uma organização por trás do produto, existia uma pessoa, e quando o criador se cansava, mudava de emprego ou simplesmente deixava de ter tempo para se dedicar àquele projeto, o software desaparecia junto com ele. O código continuava lá, mas a sustentação, evolução e segurança desapareciam. Três décadas depois, a IA parece estar reproduzindo o mesmo roteiro, só que em velocidade exponencial.
Quando a pessoa vira o software
Nunca foi tão fácil construir uma solução tecnológica como hoje, qualquer profissional de qualquer área consegue criar aplicações funcionais com auxílio de modelos de linguagem e ferramentas de desenvolvimento baseadas em IA. Isso é extraordinário, mas também pode ser perigoso.
Tenho observado um fenômeno crescente dentro das empresas, em que um colaborador cria uma ferramenta para resolver um problema específico e a solução funciona tão bem que outros departamentos começam a utilizá-la. Logo surgem pedidos de melhorias, correções, integrações e suporte. Sem perceber, aquele profissional deixa de executar sua atividade principal e passa a ser o responsável informal por um software que, na prática, se tornou crítico para a operação. O problema é que pessoas não deveriam ser confundidas com plataformas.
Existe uma diferença enorme entre uma aplicação que resolve uma dor individual e uma solução preparada para atender uma organização inteira. Escalar exige arquitetura, documentação, monitoramento, governança, segurança, redundância e capacidade de evolução. Exige processos e não apenas genialidade.
Essa nova geração de aplicações desenvolvidas rapidamente, impulsionada pelo chamado “vibe coding”, traz ganhos impressionantes de produtividade, mas também cria uma falsa sensação de maturidade. Porque o fato de algo funcionar em um notebook ou para uma equipe não significa que esteja pronto para sustentar centenas de usuários, integrar sistemas críticos ou suportar milhares de transações simultâneas.
A próxima escassez será de governança
A inteligência artificial está tornando possível transformar qualquer colaborador em criador de tecnologia e isso é positivo, já que a inovação deixou de ser apenas dos departamentos de TI. Mas democratizar a criação não significa eliminar a necessidade de engenharia.
Talvez esse seja o maior equívoco do momento, acreditar que a IA substituirá arquitetos de software, engenheiros e especialistas em infraestrutura, minha percepção é exatamente a oposta. Quanto mais pessoas construírem soluções, maior será a necessidade de profissionais capazes de organizar esse ecossistema, garantir padrões, criar governança e assegurar que a inovação não se transforme em uma coleção de sistemas isolados e frágeis.
A grande discussão dos próximos anos será sobre quem consegue sustentar, governar e escalar. Porque, na prática, inovação não é apenas fazer algo funcionar, é fazer com que continue funcionando quando deixa de ser um experimento e passa a ser parte do negócio. Essa diferença, embora pareça técnica, é profundamente estratégica.
*Fernando Baldin é Country Manager LATAM na AutomationEdge
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