
Depois de consolidar-se como o segundo maior centro produtor de vestuário do país, o Polo de Confecções de Pernambuco, no Agreste do estado, enfrenta um novo desafio. Várias empresas estão com dificuldade de encontrar trabalhadores para sustentar o crescimento de uma cadeia produtiva que emprega cerca de 200 mil pessoas.
A dificuldade de renovação de mão de obra se dá, principalmente, entre os jovens, que demonstram cada vez menos interesse pelas atividades ligadas à indústria da moda. Entre os problemas apontados, está a mudança no comportamento das novas gerações, à busca por trabalhos mais flexíveis e ao avanço de outras oportunidades profissionais. O desafio é convencer os mais jovens de que a confecção pode representar não apenas uma fonte de renda, mas também uma carreira.
O presidente do Sindicato da Indústria do Vestuário de Pernambuco (Sindivest-PE), João Darru, avalia que a mudança cultural pesa diretamente sobre a capacidade de renovação do polo. Segundo ele, os jovens têm priorizado ocupações que oferecem maior autonomia e flexibilidade de horários.
“Hoje o jovem valoriza muito mais a autonomia, fazer os próprios horários. Ele não quer se submeter ao regime de turno de uma fábrica. Muitas vezes prefere trabalhar como motorista, entregador ou em outras atividades que permitem essa flexibilidade”, afirma.
Para Darru, a transformação não é exclusiva da indústria têxtil. “Esse é um problema transversal. Acontece em vários setores da economia e tem relação com a mudança de cultura e com a atração exercida pelo universo digital”, diz.
O dirigente lembra ainda que os salários historicamente próximos ao mínimo acabaram reduzindo a atratividade do segmento. “As costureiras estavam pedindo para sair das fábricas porque o salário deixou de ser competitivo. Muita gente preferiu migrar para o comércio, para o telemarketing ou para o trabalho autônomo”, explica.
Segundo ele, o desafio exige uma revisão das estratégias de formação profissional. “O jovem quer resultados rápidos. A confecção tem uma vantagem importante porque, em 60 ou 90 dias, é possível formar uma pessoa apta a costurar. Precisamos pensar em trilhas de capacitação mais dinâmicas”, acrescenta.
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Exceções em meio à escassez de trabalhadores
Nesse cenário, histórias como as de Pedro Lucas, de 19 anos, e Millena Silva, de 21, tornaram-se exceções. Filho de costureira, Pedro terminou o ensino médio e ingressou diretamente em uma fábrica de confecções em Caruaru, onde trabalha há quase um ano, ao lado da mãe, que está há 19 anos no setor.
“Foi a partir da minha mãe que eu vim para cá, que tive uma oportunidade. Terminei o ensino médio e vim direto para a fábrica. Esse é o meu primeiro emprego”, conta.
Apesar do pouco tempo de trabalho, ele já enxerga possibilidades de crescimento na cadeia produtiva. “Quero me especializar mais, procurar melhorar e crescer cada dia mais”, afirma.
Millena seguiu um caminho semelhante. Depois de aprender a costurar com a mãe, decidiu cursar Design de Moda na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em Caruaru, enquanto atua em uma confecção formal. Antes do emprego com carteira assinada, ajudava a mãe em uma pequena produção doméstica.
“Como já conhecia essa área desde pequena e passei no curso de Design de Moda, foi mais fácil continuar nesse caminho”, conta.
O objetivo é seguir na indústria, mas em novas funções. “Pretendo trabalhar como modelista ou pilotista. A faculdade amplia muito as possibilidades e o trabalho na fábrica ajuda a entender como funciona o mercado”, explica.
A experiência de Pedro não surgiu por acaso. A mãe dele, Maria José da Silva Souza, de 41 anos, trabalha há quase duas décadas no polo de confecções e acompanhou de perto a atividade se tornar uma tradição familiar.
“É uma área que abraça muito a população daqui. Já é uma tradição de família, porque minha mãe, minhas irmãs e outras pessoas próximas também trabalhavam com isso. Além disso, temos emprego o ano inteiro”, afirma.
Além de Pedro, Maria também trabalha ao lado de Millena, sua sobrinha, na mesma fábrica. Ela conta que o interesse dos dois surgiu ainda na adolescência, quando passaram a acompanhar a rotina da família.
“A partir dos 13 ou 14 anos eles começaram a observar o nosso trabalho e a ajudar. Foi assim que aprenderam e acabaram vindo para cá”, relata.

Renovação e modernização de mão de obra
Embora histórias como essa ainda existam, empresários afirmam que elas têm se tornado cada vez mais raras. Diretor das marcas Distinto e Adizza, Paulo César Valeriano afirma que a sucessão familiar, antes comum nas pequenas fábricas e confecções do Agreste, perdeu força nos últimos anos.
“A renovação da mão de obra é algo complexo. Não é um problema só da confecção, mas de toda a indústria. É natural que os filhos das costureiras acabem seguindo outros caminhos, seja pela busca por estudos ou por novas oportunidades”, afirma.
Filho de costureira, Valeriano cresceu dentro do ambiente fabril. Formado em Administração, decidiu retornar ao negócio da família com foco na gestão e no empreendedorismo. Para ele, o principal desafio é mudar a percepção que os jovens têm sobre o setor.
“Quando a pessoa imagina que vai entrar como costureira e permanecer na mesma função a vida inteira, ela não se interessa. Mas, quando entende que está ingressando na indústria da moda, onde pode crescer, se tornar modelista, designer, gestor ou até empreendedor, a visão muda completamente”, explica.
Para Valeriano, profissionais como Millena mostram que o conhecimento técnico da costura pode se transformar em diferencial competitivo. “Um designer que sabe costurar tem outro valor de mercado. Conhecer o chão de fábrica faz diferença e amplia muito as possibilidades de crescimento”, afirma.
Capacitação como estratégia
Enquanto as empresas tentam tornar o setor mais atrativo, entidades ligadas à cadeia produtiva trabalham para ampliar a qualificação profissional. O diretor de Projetos Estratégicos do Núcleo Gestor da Cadeia Têxtil e de Confecções em Pernambuco (NTCPE), Wanberto Barbosa, avalia que o problema já se tornou estrutural na indústria de transformação.
“A atividade manufatureira enfrenta dificuldades para atrair jovens porque exige presença física, regularidade e uma rotina diferente daquela encontrada em outros segmentos. Mas estamos falando de uma atividade que movimenta cerca de 200 mil pessoas em Pernambuco e que é fundamental para a economia do interior”, afirma.
Segundo Barbosa, o aumento da produtividade passa necessariamente pela capacitação dos trabalhadores e pela atualização tecnológica das empresas. Nos últimos 12 meses, o NTCPE promoveu cerca de 7,4 mil horas de cursos em áreas como corte, costura, modelagem, modelagem digital e gestão industrial.
“O objetivo não é apenas formar novos profissionais, mas reciclar quem já trabalha no setor, preparando essa mão de obra para novos processos produtivos”, explica.

Hub de qualificação e expansão para novas regiões
Em maio, o Governo de Pernambuco criou um grupo de trabalho para discutir os principais gargalos do polo de confecções. Uma das propostas em estudo é a criação de um hub estadual de capacitação, reunindo em uma única plataforma os cursos oferecidos pelo Governo do Estado, pelo Sistema S, por prefeituras e pelo próprio NTCPE.
“A ideia é reunir tudo em uma espécie de prateleira digital para que os empresários encontrem facilmente os cursos mais adequados às necessidades de suas empresas”, explica Barbosa.
Outra frente defendida por empresários e entidades é a interiorização da cadeia produtiva, com a expansão para regiões como a Zona da Mata e o Sertão pernambucano.
“Não basta apenas instalar máquinas. É preciso criar um ecossistema que envolva qualificação, infraestrutura, empreendedorismo e empresas âncoras que sustentem a atividade”, afirma João Darru.
Segundo ele, Pernambuco já começa a enfrentar a concorrência de estados vizinhos pela mão de obra. “Hoje existem empresas produzindo na Paraíba por falta de trabalhadores aqui. O ideal é criar novos polos industriais dentro do próprio Estado”, cita.
Para o presidente do Sindivest-PE, a consolidação desses novos núcleos depende de uma atuação conjunta entre empresários, prefeituras, instituições de ensino e entidades como Sebrae e Senai.
Tecnologia e gestão para reter profissionais
Nas fábricas, as mudanças passam também pela modernização da gestão e dos processos produtivos. Com mais de 40 funcionários, Paulo César Valeriano afirma que oferecer um ambiente de trabalho mais atrativo tornou-se tão importante quanto investir em equipamentos.
“A maior parte da vida dessas pessoas acontece dentro da fábrica. Então, é preciso construir um ambiente agradável, investir nos relacionamentos e estimular a produtividade”, diz.
As empresas comandadas por ele adotaram programas de bonificação por desempenho, além de consultorias voltadas para gestão de pessoas e clima organizacional. “Quanto mais eficiente o operador se torna, maior é sua faixa de ganhos. Isso ajuda tanto a aumentar a renda do trabalhador quanto a reduzir a necessidade de novas contratações”, cita.
Para João Darru, o avanço da tecnologia também será decisivo para o futuro do setor. Segundo ele, máquinas mais modernas permitem ampliar a produtividade, melhorar a precisão e reduzir a dependência de mão de obra intensiva.
“Precisamos pensar em jornadas mais flexíveis, benefícios, tecnologia e ambientes mais modernos. Temos que formar operadores de tecnologia do vestuário e desmistificar a ideia de que a fábrica é necessariamente um ambiente pesado e exaustivo”, explica.
O dirigente defende ainda mudanças na cultura empresarial. “Muitas vezes, pequenas melhorias no ambiente, na climatização e na organização da produção já aumentam a produtividade e ajudam a reter trabalhadores”, complementa.

Salários e benefícios entram no debate
Para representantes dos trabalhadores, a dificuldade de renovação da mão de obra não está relacionada apenas às mudanças de comportamento das novas gerações. A presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Costura e Vestuário de Pernambuco (Sindicostura-PE), Aurora Flora Buarque, afirma que a baixa remuneração e a falta de benefícios também contribuem para afastar profissionais das fábricas.
“Uma costureira passa oito ou nove horas sentada em uma máquina para receber um salário-base de R$ 1.830. É muito pouco. Não tem vale-alimentação, cesta básica nem assistência à saúde. Quando uma empresa oferece um benefício desse tipo, mesmo que pequeno, ela consegue reter mais trabalhadores”, afirma.
Segundo ela, a questão não pode ser atribuída exclusivamente aos empresários, que também enfrentam dificuldades econômicas e operam, em sua maioria, em pequenas empresas. “A gente senta para negociar e sabe que o pequeno empresário também está sufocado. O problema envolve toda a conjuntura econômica”, diz.
Aurora Flora afirma que algumas entidades já investem na formação, mas considera que as iniciativas ainda são insuficientes para atender à demanda do setor. Embora reconheça o papel do Sistema S e das iniciativas de qualificação profissional, a dirigente sindical avalia que a oferta de cursos ainda está aquém das necessidades do polo.
A presidente do Sindicostura chama atenção ainda para uma mudança no perfil dos trabalhadores. “Antigamente, eram as costureiras que procuravam o banco de empregos do sindicato. Hoje, são as empresas que nos procuram, e a gente fica quebrando a cabeça porque não encontra mais profissionais”, conta.
Parte dessa mão de obra, segundo ela, tem migrado para modelos alternativos de trabalho, como a produção doméstica. “Muitas preferem trabalhar em casa, fazendo facção, porque conseguem manter uma renda e ter mais autonomia”, explica.
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