
Financiado pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), com investimento de R$ 399 mil, um projeto desenvolvido por quatro professores de instituições públicas brasileiras após 18 meses de pesquisas deu origem ao Sistema Brasileiro de Manejo de Irrigação para Pequenas e Médias Propriedades (SBMI-PMP). O aplicativo gratuito promete tornar a irrigação mais eficiente, reduzir o consumo de água e energia e aumentar a produtividade de pequenas e médias propriedades rurais em todo o país. A ferramenta será disponibilizada até o final deste mês para celulares Android e iOS, com expectativa de beneficiar mais de um milhão de produtores.
Segundo os pesquisadores, o uso correto do manejo da irrigação pode proporcionar economia de aproximadamente 30% de água e elevar a produtividade das lavouras entre 20% e 25%, reduzindo custos de produção e aumentando a rentabilidade no campo.
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A tecnologia foi coordenada pelo professor Gregório Faccioli, do Departamento de Engenharia Agrícola da Universidade Federal de Sergipe (UFS), e desenvolvida em parceria com os professores Everardo Mantovani (já aposentado), da Universidade Federal de Viçosa, coordenador sênior do projeto e uma das maiores referências brasileiras em agricultura irrigada; Gustavo Haddad, do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES), campus Santa Teresa; e Marcelo Vicente, do IFES de Salinas (MG).
O trabalho contou ainda com a participação de estudantes e foi executado em parceria com o MIDR e a Fundação de Apoio à Pesquisa e Extensão de Sergipe (Fapese), responsável pela gestão financeira do projeto.

Da pesquisa científica na UFS para o campo
Segundo Gregório Faccioli, a ideia surgiu a partir da experiência acumulada por Everardo Mantovani, que pesquisa agricultura irrigada desde 1995. O objetivo era transformar décadas de estudos científicos, já validados por dissertações de mestrado e teses de doutorado, em uma ferramenta gratuita, simples e acessível aos produtores rurais.
“O professor Mantovani queria deixar um legado para a comunidade científica e para os produtores, disponibilizando uma solução que qualquer pessoa pudesse utilizar”, afirma Gregório.
Durante o período de desenvolvimento do projeto, a equipe incorporou ao aplicativo os avanços mais recentes da ciência da irrigação, reunindo modelos matemáticos, estudos sobre evapotranspiração, crescimento do sistema radicular, consumo de água pelas plantas e outras tecnologias desenvolvidas ao longo de décadas de pesquisas.
Para Gregório Faccioli, o projeto também demonstra a capacidade da UFS de desenvolver soluções tecnológicas com alcance nacional em parceria com o Governo Federal, fortalecendo as pesquisas desenvolvidas pela instituição.
Irrigação baseada em ciência
O Sistema Brasileiro de Manejo de Irrigação para Pequenas e Médias Propriedades foi criado para democratizar o acesso ao manejo tecnificado da irrigação, principalmente entre pequenos e médios produtores, que historicamente encontram dificuldades para utilizar tecnologias desse tipo.
O aplicativo poderá ser baixado gratuitamente na loja de aplicativos do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, com versões para Android e iOS. Após instalar o sistema, o agricultor cadastra sua propriedade e informa alguns dados básicos, como a cultura cultivada, o sistema de irrigação utilizado, o tipo de solo e a fonte de água.
Segundo Gregório Faccioli, cerca de 95% das informações técnicas já estarão previamente cadastradas, facilitando o uso mesmo para produtores que possuem pouca familiaridade com ferramentas digitais.
O sistema reúne informações sobre mais de 100 culturas agrícolas e diferentes variedades, além de parâmetros agronômicos e climáticos atualizados. A ferramenta pode funcionar tanto com dados fornecidos pelo próprio produtor quanto utilizando uma base climática histórica integrada, contendo informações sobre solo e clima.
Com base nesses dados, o aplicativo calcula automaticamente a lâmina de irrigação recomendada e informa o tempo exato que cada área deverá permanecer irrigada.
Na prática, o produtor deixa de tomar decisões baseadas apenas na experiência e passa a irrigar utilizando critérios científicos.
Menos água, mais produtividade
Gregório Faccioli explica que muitos agricultores ainda acreditam que irrigar mais significa produzir mais. Segundo ele, esse é um dos erros mais comuns no campo.
O excesso de água aumenta o consumo de energia, provoca desperdícios, favorece a lixiviação de nutrientes, pode contaminar o lençol freático e estimular doenças nas raízes das plantas. Já a irrigação insuficiente reduz a produtividade e compromete a rentabilidade da propriedade.

“O manejo da irrigação consiste em repor exatamente a quantidade de água consumida pela planta, no momento correto. É isso que o aplicativo faz”, resume o pesquisador.
Além da recomendação diária do tempo de irrigação, a equipe já trabalha em novas funcionalidades para facilitar ainda mais o uso da ferramenta. Entre elas estão comandos de voz para agricultores com pouca familiaridade com smartphones e o envio automático das recomendações por SMS ou WhatsApp.
Implantação começa por Sergipe
O primeiro treinamento para utilização do SBMI-PMP será realizado no Projeto Público de Irrigação Jacaré-Curituba, localizado entre os municípios de Poço Redondo e Canindé de São Francisco, no Alto Sertão sergipano.
Criado originalmente pelo Governo de Sergipe com o nome de Nova Califórnia, o empreendimento teve sua finalidade alterada em 1997 para atender famílias da reforma agrária e, posteriormente, passou a ser administrado pela Codevasf, que concluiu sua infraestrutura em 2014.
Atualmente, o projeto conta com 1.857 hectares irrigáveis e beneficia 643 famílias de agricultores, sendo um dos principais polos de agricultura irrigada do estado. A escolha do Jacaré-Curituba para iniciar as capacitações reforça sua importância estratégica para a agricultura sergipana. Em 2024, os quatro perímetros irrigados administrados pela Codevasf no estado responderam por um Valor Bruto de Produção de R$ 110 milhões, demonstrando a força econômica da agricultura irrigada em Sergipe.
Após essa etapa, o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional promoverá capacitações em perímetros irrigados públicos e polos de irrigação distribuídos por diversas regiões do país.
A expectativa é que mais de um milhão de pequenos e médios produtores utilizem o aplicativo. O próprio ministério acompanhará, em tempo real, o número de usuários, propriedades cadastradas e culturas inseridas no sistema.
Desenvolvido por meio do Projeto de Cooperação Técnica BRA/IICA/13/001, vinculado ao Programa Interáguas, o SBMI-PMP reforça a parceria entre a UFS e o MIDR para ampliar o acesso dos produtores às tecnologias de irrigação.
Para a coordenadora-geral de Instrumentos da Política Nacional de Irrigação do MIDR, Rose Pondé, a principal contribuição da ferramenta é oferecer previsibilidade ao produtor, permitindo planejar melhor o cultivo, aumentar a produtividade e ampliar a renda no campo.
A vice-reitora da UFS, Silvana Bretas, destacou que o desenvolvimento do aplicativo reforça o compromisso da universidade com a criação de tecnologias voltadas para o fortalecimento da agricultura brasileira, contribuindo para o uso racional da água, a produção de alimentos e o desenvolvimento dos pequenos produtores rurais.
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