
Capaz de render até 150 sacas por hectare sob irrigação no Cerrado, a cultivar BRS Cracker, primeiro trigo tropical brasileiro desenvolvido para a indústria de biscoitos, terá sementes disponíveis na safra 2026 e área de adaptação em sete estados, incluindo a Bahia, que integra a fronteira agrícola do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia).
A Embrapa Trigo desenvolveu a BRS Cracker (registro BRS TR 013) para produção em sistema irrigado na região quente e seca do Cerrado, classificada como RHACT 4. A região abrange São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Bahia, Minas Gerais, Goiás e Distrito Federal.
O pesquisador Eduardo Caierão, da Embrapa Trigo, afirma que a produção de grãos com perfil de biscoito no Cerrado atende a indústria localizada na região com vantagens econômicas quando comparada à compra de trigo da Região Sul.
A indústria que a cultivar pretende abastecer movimentou R$ 34 bilhões em 2025. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães & Bolos Industrializados (Abimapi), a produção nacional no período foi de 1,48 milhão de toneladas, com consumo per capita estimado em 7 quilos por ano e gasto médio de R$ 160 por pessoa em 2024. O Brasil ocupa a quarta posição mundial em volume de vendas no setor.
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Redução da dependência externa
A panificação absorve 52% da farinha de trigo consumida no país, segundo a Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo, 2026), e a indústria de biscoitos figura como segundo maior segmento de destino. Entre as categorias, biscoitos recheados lideram com 23% do mercado, seguidos por cracker e água e sal, com 12,4%, segundo a Abimapi. O país figura entre os 15 maiores exportadores mundiais de wafers, segmento com projeção de crescimento de cerca de 5% até 2031, segundo a Mordor Intelligence.
O Brasil importa a maior parte do trigo que consome, o que torna a adaptação de cultivares ao Cerrado uma via de redução da dependência externa. A BRS Cracker é a primeira cultivar tropical projetada especificamente para o segmento de biscoitos, com atributos de qualidade calibrados para a demanda industrial da região produtora.

Testes industriais superam trigo “importado” do Sul
A Vilma Alimentos, com sede em Contagem (MG), submeteu a BRS Cracker a avaliação do controle de qualidade em 2025. Os testes indicaram resultados positivos para aplicação em biscoitos do tipo wafer e doces, tanto nos indicadores de qualidade quanto nos processos industriais. A farinha da cultivar apresentou menor absorção de água durante o processamento, o que reduz o consumo de energia no forno.
A gerente de controle de qualidade da empresa, Cristina Rocha Vieira Abucater, afirma que o desempenho da BRS Cracker superou o do trigo para biscoito que a Vilma adquire na Região Sul. A empresa calibra os equipamentos para receber os primeiros grãos entre setembro e outubro de 2026, quando se encerra a colheita no Cerrado.
O moinho da Vilma opera no segmento de biscoitos desde 2014 e importa toda a matéria-prima da Região Sul, armazenada na central de grãos da empresa em Cambé (PR). A demanda pode chegar a 20 mil toneladas, volume que a produção no Cerrado Mineiro pretende suprir. A empresa mantém centro de distribuição em Feira de Santana (BA), estrutura que conecta a cadeia de abastecimento ao mercado do Nordeste. A cultivar foi desenvolvida com atributos específicos para o setor: força de glúten de 132, grão semi-mole (índice de dureza IDG 20), coloração branca da farinha e estabilidade média de farinografia de 5,9 minutos.
Ciclo precoce do trigo tropical e resistência à brusone no Cerrado
No campo, a BRS Cracker completa o espigamento em 55 dias e atinge a maturação em 110 dias. O ciclo precoce diminui a exposição a pragas e doenças e limita o consumo de água e energia na irrigação. O rendimento de grãos varia entre 133 e 150 sacas por hectare sob irrigação.
A principal ameaça ao trigo no Cerrado, a brusone, causada pelo fungo Pyricularia oryzae, não compromete a BRS Cracker. O pesquisador João Leodato Maciel, da Embrapa Trigo, afirma que a cultivar se destacou entre as mais resistentes em uso nas lavouras da região, com tolerância mantida mesmo sob alta pressão do fungo ao longo de cinco anos de avaliações em campo e em câmara de inoculação controlada.
A fase de multiplicação de sementes já está em curso na Valiosa Sementes, em Nazareno (MG), onde a cultivar foi semeada em talhão de alto potencial produtivo. O engenheiro agrônomo Rafael Marçal afirma que a BRS Cracker abre nova oportunidade de comercialização para o produtor da região. O analista Bruno Lemos, da Embrapa Trigo, informa que a multiplicação deve suprir parte da demanda de trigo para biscoito no Cerrado a partir da safra 2026.
*Com informações da Embrapa
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