
Por Mariana Araújo e Vanessa Siqueira
Depois de três anos guardando parte da mesada, Rodrigo Medeiros, de 13 anos, finalmente comprou o videogame que queria. O dinheiro, porém, não acabou ali. O estudante do 8º ano da Escola Vila Aprendiz, no Recife, manteve as aplicações financeiras e investimentos em ações iniciados com ajuda dos pais. Na escola, ele aprende em aulas de educação financeira que a taxa de juros interfere na inflação e nos investimentos.
A história do adolescente está longe de ser um caso isolado. Em escolas públicas e privadas de Pernambuco e Alagoas, crianças e adolescentes estão aprendendo desde cedo a organizar o orçamento, diferenciar necessidades de desejos e até orientar os próprios pais sobre consumo consciente. O aprendizado que ganha importância no Brasil, país onde mais de 70% das famílias convivem com algum tipo de endividamento.
Dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostram que mais de sete em cada dez famílias do País possuem algum tipo de dívida, seja cartão de crédito, financiamento, empréstimos ou carnês. O índice de endividamento permanece acima de 70%, reforçando a necessidade de desenvolver hábitos financeiros desde cedo.
Colega de sala de Rodrigo, Maria Carolina Corrêa, de 13 anos, alcançou o objetivo de comprar um iPad depois de meses economizando a mesada. “Teve várias coisas que eu queria comprar antes, mas eu foquei para conseguir comprar e aí tudo deu certo”, relata a adolescente.
Na rede pública, as experiências seguem o mesmo caminho, porém as iniciativas mais concretas dependem dos professores. Na Escola Municipal de Tempo Integral (EMTI) Nadir Colaço, da rede municipal do Recife, o estudante Davi Eduardo, de 12 anos, do 6º ano, levou para casa uma atividade simples, proposta pela professora, de separar compras entre necessidades e desejos.
A tarefa acabou influenciando o comportamento da própria família. “Quando minha mãe vai ao supermercado, separamos na lista o que é necessidade, para ela comprar, e o que é desejo, para o que sobrar”, explica.
Já Ester Araújo, aluna do 7º ano na mesma escola que Davi, recebeu R$ 255 de aniversário e transformou o presente em um pequeno plano de empreendedorismo. “Pretendo comprar um kit de chaveiros para revendê-los na escola e com meus amigos, reinvestindo o lucro para que o dinheiro continue sempre rendendo”, diz.
Educação financeira além da matemática
Na Escola Vila Aprendiz, a educação financeira tornou-se disciplina específica para estudantes do 6º ao 8º ano. O professor de Finanças 360, Renato Kattah explica que o objetivo vai muito além de ensinar crianças a investir.
As primeiras aulas abordam a história do dinheiro, orçamento doméstico, diferença entre preço e valor, planejamento financeiro e consumo consciente. À medida que avançam de série, os estudantes passam a discutir inflação, taxa Selic, juros simples e compostos, renda fixa, renda variável e impactos de acontecimentos internacionais sobre a economia.
“Não estamos formando investidores mirins. Estamos formando adultos financeiramente mais conscientes”, resume.
Segundo o professor, a adolescência representa um momento estratégico para esse aprendizado. É nessa fase que muitos jovens começam a receber mesada, administrar contas digitais, fazer compras pela internet e sofrer influência das redes sociais e da publicidade.
Além disso, ele chama atenção para um fenômeno que preocupa educadores e economistas, com o crescimento das apostas esportivas entre adolescentes. “O aluno começa a perguntar sobre criptomoedas, apostas, investimentos. Nosso papel é mostrar que dinheiro não se multiplica por sorte, depende da organização do orçamento”, afirma.
Outro aspecto considerado essencial é a participação das famílias. Segundo Kattah, quando os pais adotam hábitos financeiros mais conscientes, os resultados aparecem rapidamente dentro de casa.

Aprender antes da vida adulta
Na rede municipal do Recife, a professora de Matemática e Raciocínio Lógico Aline Barbosa decidiu transformar a educação financeira em um projeto permanente na EMTI Nadir Colaço, onde leciona. Batizado de “Educação Financeira: Primeiros Passos para uma Vida Equilibrada”, o trabalho acompanha alunos do 6º e 7º anos durante o ano letivo.
O tema aparece integrado às aulas de matemática, mas também envolve leitura, jogos educativos, planejamento financeiro e atividades práticas. Os estudantes aprendem a elaborar planilhas de receitas e despesas, organizar listas de necessidades e desejos, analisar hábitos de consumo e compreender conceitos como inflação, CDI, reserva de emergência e investimentos.
Uma das ferramentas utilizadas é o programa Aprender Valor, desenvolvido pelo Banco Central em parceria com o Ministério da Educação. A iniciativa oferece gratuitamente formação para professores e materiais pedagógicos voltados à educação financeira, fiscal, previdenciária e securitária de estudantes do ensino fundamental, buscando integrar esses conteúdos às disciplinas já existentes, especialmente Matemática e Língua Portuguesa.
Para Aline Barbosa, criar hábitos financeiros ainda na infância aumenta as chances de formar adultos menos vulneráveis ao endividamento.
“A vida financeira equilibrada começa nos hábitos que construímos desde cedo. Quanto antes a criança aprender a refletir sobre escolhas financeiras, maiores serão as possibilidades de tomar decisões conscientes no futuro”, afirma.
A professora lembra que a educação financeira já integra a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) como tema transversal, embora sua aplicação ainda dependa, em muitos casos, da iniciativa de cada escola ou docente.
Segundo o Ministério da Educação, a proposta é que o assunto seja trabalhado de forma interdisciplinar, permitindo que conteúdos relacionados ao consumo, planejamento e sustentabilidade financeira sejam desenvolvidos ao longo da educação básica.
A Secretaria de Educação de Pernambuco informou que o tema integra o currículo estadual de forma transversal, alinhado às diretrizes da BNCC, e pode ser desenvolvido em diferentes componentes curriculares e projetos pedagógicos das escolas. Questionada pela reportagem sobre a constância e aplicação da educação financeira em escolas municipais, a Prefeitura do Recife não enviou informações a tempo do fechamento desta reportagem.

Um aprendizado que chega às famílias
Para o economista Danilo Miranda, vice-embaixador da ONG Planejar em Pernambuco e voluntário em projetos de educação financeira, ensinar crianças a lidar com dinheiro representa uma estratégia de longo prazo para enfrentar o elevado nível de endividamento das famílias brasileiras.
“O objetivo não é formar investidores mirins. É desenvolver consciência financeira. A criança precisa entender que o dinheiro exige escolhas, planejamento e paciência”, afirma.
Segundo ele, esse aprendizado pode começar dentro de casa, independentemente da renda familiar. A mesada, por exemplo, não precisa ser alta para cumprir sua função educativa. O mais importante é permitir que a criança faça escolhas, aprenda com os próprios erros e compreenda que gastar tudo imediatamente pode impedir a realização de objetivos futuros.
Danilo também defende que os pais conversem mais sobre dinheiro com os filhos. Para ele, um dos principais desafios da cultura financeira brasileira é deixar de tratar as finanças como um tabu dentro de casa.
“Muitas famílias nunca sentaram juntas para colocar no papel quanto recebem e quanto gastam. A educação financeira começa justamente nessa conversa”, explica.
Na avaliação do economista, seja por meio do tradicional cofrinho ou das contas digitais voltadas ao público infantil, o essencial é ensinar que poupar não significa deixar de sonhar, mas construir caminhos para realizar esses sonhos de forma planejada. É uma aprendizagem que começa na infância, acompanha a vida adulta e pode contribuir para formar consumidores mais conscientes e famílias financeiramente mais equilibradas.
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