
Considerado berço da resistência negra no país, o Quilombo dos Palmares, em Alagoas, volta a mostrar que pode se colocar na vanguarda e movimentar a economia criativa e promover intercâmbio cultural com outros quilombos do país. O projeto Encontro com Palmares, lançado nesta sexta-feira (26) em União dos Palmares, vai percorrer cinco estados promovendo um circuito com um hub imersivo unindo tecnologia e ancestralidade em outras comunidades quilombolas.
O projeto passará pelos estados do Pará, Maranhão, Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul até março de 2027 e vai levar um pouco da experiência vivida em Palmares para outras comunidades por meio de apresentações artísticas, oficinas técnicas, peças teatrais e uma experiência de realidade virtual. A realização é do Centro de Formação e Inclusão Social INAÊ, viabilizada pelo patrocínio da Petrobras.
O coração da experiência é a “Sala de Saberes Petrobras“, um hub imersivo equipado com óculos de realidade virtual (VR) 360°. A tecnologia permitirá que os moradores dos quilombos visitados façam um tour digital imersivo pelo solo sagrado de Zumbi e Dandara, na Serra da Barriga, conhecendo um pouco da história e de personalidades locais importantes para a manutenção do equipamento cultural. O desenvolvimento tecnológico conta com a parceria do projeto Vamos Subir a Serra e apoio do TikTok.
“Estamos colocando as ferramentas digitais mais modernas a serviço da nossa ancestralidade. É uma forma potente de combater o apagamento histórico e conectar as novas gerações às suas raízes”, destaca Mãe Neide Oyá D’Oxum, coordenadora do projeto.
Entre as atividades programadas na caravana, haverá rodas de conversa com lideranças locais, e oficinas transversais de dança afro, percussão, ervas medicinais e culinária quilombola — esta última ministrada pela gastrônoma e Patrimônio Vivo de Alagoas, Mãe Neide Oyá D’Oxum.
Para Mãe Neide, a proposta passa por reconhecer a riqueza existente nesses territórios e transformar esse patrimônio em oportunidades. “Quilombo é casa cheia, quilombo é fartura na mesa. É saber utilizar os seus insumos, é saber colher, ter orgulho de você”, afirmou.

Etapa gastronômica une tradição e economia criativa
Nas atividades gastronômicas, o Encontro com Palmares vai levar uma proposta de referências culinárias quilombolas de Alagoas e promover um intercâmbio e mostrar que é possível movimentar a economia e o turismo local por meio dos saberes ancestrais.
Em União dos Palmares, Mãe Neide, que além de ser patrimônio vivo do estado e chef de cozinha é Ialorixá e comanda o restaurante Baobá, que fica no início da estrada que leva até o Quilombo dos Palmares. O local recebe grupos de turistas que visitam a região e pessoas que querem experimentar a culinária inspirada na tradição quilombola.
Durante a abertura do evento, a Ialorixá apresentou um prato inspirado na cultura local, denominado Favada, à base de carne de sol e fava e outros ingredientes locais. Nas oficinas que ocorrerão nas etapas estaduais, a proposta é levar o prato, mas criar trocas entre os ingredientes, modos de fazer e memórias de cada comunidade. As oficinas devem combinar referências da Serra da Barriga com a produção local dos quilombos visitados.
“Quando a gente vai levando o prato aqui no Quilombo dos Palmares, esse prato não vai pronto. Nós trabalhamos os insumos do Quilombo dos Palmares com os insumos de cada quilombo que a gente faz”, explicou Mãe Neide.
Para ela, o intercâmbio também pode estimular novas formas de geração de renda. “É uma forma de acordar, despertar que nós temos o nosso valor e saber gerar renda em cada quilombo é o mais importante”, disse.

Intercâmbio entre quilombos é chance para fomentar o turismo
O Parque Memorial Quilombo dos Palmares recebe anualmente uma média de visitantes que varia entre 15 mil e 30 mil pessoas, em especial no mês de novembro, quando ocorrem celebrações em alusão à Consciência Negra.
O espaço possui réplicas de casas e outras estruturas utilizadas pelos quilombolas na época de Zumbi dos Palmares, oferecendo recursos em áudio e experiências imersivas, como os óculos de realidade virtual.
O projeto também busca trocar experiências e mostrar que esses pontos de resistência podem ser estruturados para atrair o turismo cultural. A caravana também vai movimentar recursos diretamente nos territórios visitados. A equipe pretende contratar moradores para serviços de hospedagem, alimentação e guiamento, incorporando fornecedores locais à realização das atividades.

“A gente não está só levando uma ação, a gente está também levando uma economia. A gente está contratando os quilombolas, ficando hospedados dentro dos quilombos, contratando-os para nos fornecerem a alimentação, para serem nossos guias dentro dos próprios quilombos”, afirmou Simone Benchimol, gestora do projeto.
Segundo ela, a proposta também parte das vocações de cada local. Em Cachoeira Porteira, no Pará, por exemplo, a comunidade tem na coleta da castanha-do-Pará e no turismo de pesca duas atividades importantes para a economia local.
“Cachoeira Porteira vive da extração e da coleta da castanha-do-Pará. A segunda economia é o turismo de pesca, muito forte na região, que também tem cachoeiras belíssimas e um território de ancestralidade compartilhado com povos indígenas”, explicou.
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