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Quilombo dos Palmares leva saberes para ativar turismo e renda em cinco estados

Projeto vai circular por comunidades quilombolas com oficinas, realidade virtual e contratação de moradores para hospedagem, alimentação e guiamento
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  1. Projeto Encontro com Palmares leva experiência de resistência negra para cinco estados brasileiros até março de 2027.
  2. Hub imersivo "Sala de Saberes Petrobras" usa realidade virtual 360° para mostrar história de Zumbi e Dandara.
  3. Caravana oferece oficinas de dança afro, percussão, ervas medicinais e culinária quilombola nas comunidades visitadas.
  4. Mãe Neide Oyá D'Oxum coordena projeto conectando novas gerações às raízes ancestrais através de ferramentas digitais modernas.
  5. Gastronomia quilombola de Alagoas movimenta economia criativa e turismo local nas etapas do intercâmbio cultural.
Mãe Neide idealizadora do projeto Encontro Palmares
Mãe Neide é patrimônio vivo de Alagoas, chef de cozinha e Ialorixá e levará oficina de gastronomia para outros quilombos apresentando pratos inspirados na alimentação quilombola do estado. Foto: Matheus Monstro

Considerado berço da resistência negra no país, o Quilombo dos Palmares, em Alagoas, volta a mostrar que pode se colocar na vanguarda e movimentar a economia criativa e promover intercâmbio cultural com outros quilombos do país. O projeto Encontro com Palmares, lançado nesta sexta-feira (26) em União dos Palmares, vai percorrer cinco estados promovendo um circuito com um hub imersivo unindo tecnologia e ancestralidade em outras comunidades quilombolas.

O projeto passará pelos estados do Pará, Maranhão, Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul até março de 2027 e vai levar um pouco da experiência vivida em Palmares para outras comunidades por meio de apresentações artísticas, oficinas técnicas, peças teatrais e uma experiência de realidade virtual. A realização é do Centro de Formação e Inclusão Social INAÊ, viabilizada pelo patrocínio da Petrobras.

O coração da experiência é a “Sala de Saberes Petrobras“, um hub imersivo equipado com óculos de realidade virtual (VR) 360°. A tecnologia permitirá que os moradores dos quilombos visitados façam um tour digital imersivo pelo solo sagrado de Zumbi e Dandara, na Serra da Barriga, conhecendo um pouco da história e de personalidades locais importantes para a manutenção do equipamento cultural. O desenvolvimento tecnológico conta com a parceria do projeto Vamos Subir a Serra e apoio do TikTok.

“Estamos colocando as ferramentas digitais mais modernas a serviço da nossa ancestralidade. É uma forma potente de combater o apagamento histórico e conectar as novas gerações às suas raízes”, destaca Mãe Neide Oyá D’Oxum, coordenadora do projeto.

Entre as atividades programadas na caravana, haverá rodas de conversa com lideranças locais, e oficinas transversais de dança afro, percussão, ervas medicinais e culinária quilombola — esta última ministrada pela gastrônoma e Patrimônio Vivo de Alagoas, Mãe Neide Oyá D’Oxum.

Para Mãe Neide, a proposta passa por reconhecer a riqueza existente nesses territórios e transformar esse patrimônio em oportunidades. “Quilombo é casa cheia, quilombo é fartura na mesa. É saber utilizar os seus insumos, é saber colher, ter orgulho de você”, afirmou.

Mãe Neide oficina gastronômica sobre culinária quilombola
Mãe Neide comanda o restaurante Baobá e vai ministrar oficina de gastronomia sobre culinária quilombola durante etapas do projeto pelo Brasil. Foto: Vanessa Siqueira

Etapa gastronômica une tradição e economia criativa

Nas atividades gastronômicas, o Encontro com Palmares vai levar uma proposta de referências culinárias quilombolas de Alagoas e promover um intercâmbio e mostrar que é possível movimentar a economia e o turismo local por meio dos saberes ancestrais.

Em União dos Palmares, Mãe Neide, que além de ser patrimônio vivo do estado e chef de cozinha é Ialorixá e comanda o restaurante Baobá, que fica no início da estrada que leva até o Quilombo dos Palmares. O local recebe grupos de turistas que visitam a região e pessoas que querem experimentar a culinária inspirada na tradição quilombola.

Durante a abertura do evento, a Ialorixá apresentou um prato inspirado na cultura local, denominado Favada, à base de carne de sol e fava e outros ingredientes locais. Nas oficinas que ocorrerão nas etapas estaduais, a proposta é levar o prato, mas criar trocas entre os ingredientes, modos de fazer e memórias de cada comunidade. As oficinas devem combinar referências da Serra da Barriga com a produção local dos quilombos visitados.

“Quando a gente vai levando o prato aqui no Quilombo dos Palmares, esse prato não vai pronto. Nós trabalhamos os insumos do Quilombo dos Palmares com os insumos de cada quilombo que a gente faz”, explicou Mãe Neide.

Para ela, o intercâmbio também pode estimular novas formas de geração de renda. “É uma forma de acordar, despertar que nós temos o nosso valor e saber gerar renda em cada quilombo é o mais importante”, disse.

Serra da Barriga, Alagoas
Considerado o maior quilombo das Américas, Palmares hoje possui estrutura para receber turistas e representações artísticas ao longo do ano. Foto: Matheus Monstro

Intercâmbio entre quilombos é chance para fomentar o turismo

O Parque Memorial Quilombo dos Palmares recebe anualmente uma média de visitantes que varia entre 15 mil e 30 mil pessoas, em especial no mês de novembro, quando ocorrem celebrações em alusão à Consciência Negra.

O espaço possui réplicas de casas e outras estruturas utilizadas pelos quilombolas na época de Zumbi dos Palmares, oferecendo recursos em áudio e experiências imersivas, como os óculos de realidade virtual.

O projeto também busca trocar experiências e mostrar que esses pontos de resistência podem ser estruturados para atrair o turismo cultural. A caravana também vai movimentar recursos diretamente nos territórios visitados. A equipe pretende contratar moradores para serviços de hospedagem, alimentação e guiamento, incorporando fornecedores locais à realização das atividades.

Quilombo dos Palmares, Alagoas
Considerado o maior quilombo das Américas, Palmares hoje possui estrutura para receber turistas e representações artísticas ao longo do ano. Foto: Matheus Monstro

“A gente não está só levando uma ação, a gente está também levando uma economia. A gente está contratando os quilombolas, ficando hospedados dentro dos quilombos, contratando-os para nos fornecerem a alimentação, para serem nossos guias dentro dos próprios quilombos”, afirmou Simone Benchimol, gestora do projeto.

Segundo ela, a proposta também parte das vocações de cada local. Em Cachoeira Porteira, no Pará, por exemplo, a comunidade tem na coleta da castanha-do-Pará e no turismo de pesca duas atividades importantes para a economia local.

“Cachoeira Porteira vive da extração e da coleta da castanha-do-Pará. A segunda economia é o turismo de pesca, muito forte na região, que também tem cachoeiras belíssimas e um território de ancestralidade compartilhado com povos indígenas”, explicou.

Leia mais: Árvore, pasto e renda: eucalipto ganha espaço e fortalece a pecuária em AL

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