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Transição verde: estudo prevê 350 mil empregos e impacto de 5% no PIB do NE

Novo relatório da LSE e do iCS quantifica efeitos econômicos da atração de indústrias de baixo carbono para a região e estima até US$ 60 bilhões em investimentos até 2035
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  1. Estudo prevê Nordeste atrair entre US$ 15 bilhões e US$ 60 bilhões em investimentos na próxima década
  2. Transição verde geraria entre 300 mil e 350 mil empregos diretos e indiretos até 2035 na região
  3. Impacto econômico total chegaria a 5% do PIB nordestino com efeitos indiretos e induzidos considerados
  4. Aço verde, química e combustíveis baixo carbono apresentam maior potencial multiplicador econômico para a região
  5. Nordeste possui ativos competitivos como potencial eólico solar, portos profundos e conexão com rede transmissão
Hub de H2V do Ceará ficará localizado no Porto do Pecém energia eólica transição verde
Estudo do ICs e CETEx aponta que o Nordeste reúne ativos conhecidos como elevado potencial eólico e solar para atração de indústrias – Foto: PEC Energia/Divulgação

O Nordeste ganhou novas estimativas para dimensionar o potencial econômico da transição verde energética. Estudo divulgado nesta terça-feira (23) pelo Centre for Economic Transition Expertise (CETEx), da London School of Economics and Political Science (LSE), e pelo Instituto de Clima e Sociedade (iCS), projeta que a região poderá atrair entre US$ 15 bilhões e US$ 60 bilhões em investimentos ao longo da próxima década caso consiga capturar parte da demanda global por produção industrial de baixo carbono. Os dados fazem parte do relatório Brazil’s Investment-led Growth in the Ecological Transition.

Mais do que reforçar o papel do Nordeste na agenda da transição energética, o estudo procura mensurar os efeitos econômicos dessa transformação. No cenário mais avançado modelado pelos pesquisadores, a região poderia adicionar US$ 10,5 bilhões por ano em valor agregado direto, equivalente a cerca de 3,6% do PIB nordestino. Quando considerados os efeitos indiretos e induzidos, o impacto total chegaria a aproximadamente 5% da economia regional.

As projeções também indicam aumento das exportações entre US$ 3 bilhões e US$ 7 bilhões anuais e ganhos fiscais de até US$ 3 bilhões por ano para os governos estaduais e federal.

Empregos além dos parques eólicos

Um dos destaques do estudo é a estimativa de geração de empregos. Os pesquisadores calculam que a instalação de cadeias produtivas associadas à indústria verde poderá criar entre 40 mil e 170 mil empregos permanentes diretos até 2035. Considerando fornecedores, logística, comércio e serviços, o total pode alcançar entre 300 mil e 350 mil postos de trabalho.

Segundo Jorge Arbache, professor da Universidade de Brasília, membro sênior do iCS e um dos autores do relatório, os números podem ser ainda maiores.

“É preciso ter em conta que as estimativas que fizemos são muito conservadoras. Se houver coordenação, articulação e preparação adequadas, esse número pode ser substancialmente maior”, afirma.

Para o economista, o impacto mais relevante não virá da geração de energia em si, mas da instalação de cadeias industriais completas.

“Os setores que têm maior condição de oferecer esses benefícios são aqueles que possuem cadeias de valor mais longas. O aço verde tem uma cadeia extensa, com muitos provedores. Outro setor importante é a indústria química. O SAF e os combustíveis de baixo carbono também têm enorme potencial de multiplicação econômica”, diz.

O desafio é capturar a indústria com transição verde

O estudo sustenta que o Nordeste já reúne ativos conhecidos pelo mercado, como elevado potencial eólico e solar, disponibilidade de áreas para instalação industrial, portos de águas profundas e conexão com a rede nacional de transmissão.

A novidade do relatório está na tentativa de medir os ganhos associados à atração das indústrias consumidoras dessa energia.

A avaliação dos pesquisadores é que a região pode deixar de ser apenas exportadora de eletricidade renovável, hidrogênio verde ou matérias-primas e passar a sediar fábricas de aço verde, fertilizantes de baixo carbono, combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) e produtos químicos verdes.

“O investidor não vem por acaso. Ele precisa conhecer as oportunidades e encontrar um ambiente coordenado. Só atraindo cadeias de valor longas, com fornecedores locais, é que vamos transformar potencial em desenvolvimento, empregos e arrecadação”, afirma Arbache.

Suape aparece como ativo estratégico

Entre os exemplos citados pelo estudo está o complexo portuário de Suape, apontado como uma infraestrutura capaz de conectar produção industrial, logística e exportação.

O relatório destaca que empreendimentos industriais intensivos em energia tendem a buscar locais onde possam operar próximos a portos, reduzindo custos logísticos e aumentando a competitividade internacional.

“O Nordeste tem alguns portos relativamente modernos, com acesso à energia e potencial para zonas de processamento de exportação. Esses fatores são extremamente atrativos para capitais estrangeiros que buscam aproveitar as vantagens do powershoring”, afirma o pesquisador.

A principal vantagem nordestina está na abundância de energia limpa. O relatório destaca que os fatores de capacidade dos parques eólicos da região frequentemente superam 50%, índice considerado elevado em padrões internacionais.

Janela de oportunidade tem prazo

Apesar das projeções otimistas, o estudo alerta que os resultados dependem de fatores como segurança regulatória, expansão da infraestrutura, qualificação de mão de obra e instrumentos de financiamento.

Os autores argumentam que existe uma disputa global em curso pelos investimentos relacionados à descarbonização e que outros países também estão se posicionando para receber esses projetos.

Para o Nordeste, a mensagem central do relatório é que a transição energética deixa de ser apenas uma agenda ambiental e passa a ser uma estratégia concreta de desenvolvimento econômico. Pela primeira vez, um estudo internacional apresenta projeções detalhadas indicando quanto essa oportunidade pode representar em investimentos, empregos, arrecadação e crescimento para a região.

Coordenação é o principal desafio

Apesar das vantagens competitivas, os pesquisadores alertam que o sucesso da estratégia dependerá da capacidade de coordenação institucional.

Para Arbache, o Nordeste já reúne condições favoráveis para atrair investimentos globais, mas precisa transformar esse potencial em uma agenda articulada de desenvolvimento.

“O ponto mais importante é a coordenação de políticas públicas e a coordenação dessas políticas com o setor privado. A região já oferece algumas das melhores condições do mundo em energia renovável, mas os investidores precisam conhecer essas oportunidades e ter segurança para investir”, afirma.

O economista destaca ainda a importância de iniciativas voltadas à atração de cadeias produtivas completas. “Só atraindo cadeias de valor longas, com provedores na região e no país, é que vamos converter potencial em desenvolvimento, empregos, arrecadação e impacto econômico local”, explica.

Leia também: Powershoring: a estratégia para atrair indústria intensiva em energia

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