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Selic cai para 14,25%, mas ciclo de cortes pode perder força

Com a Selic ainda em patamar elevado, a renda fixa segue oferecendo retorno atrativo
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  1. Selic cai para 14,25% ao ano
  2. Taxa básica de juros reduzida em 0,25%
  3. Expectativa para IPCA subiu para 5,3%
  4. Ciclo de cortes pode perder força
  5. Incertezas fiscais e geopolíticas influenciam
Diogo Almeida, economista-chefe da Pequod Investimentos/Foto: divulgação

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu, nesta quarta-feira (17), a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, levando a Selic para 14,25% ao ano. Foi o terceiro corte consecutivo promovido pela autoridade monetária, mantendo o ritmo gradual iniciado em março, quando a taxa saiu de 15% para 14,75% ao ano.

A decisão veio em linha com parte relevante das expectativas do mercado, mas não eliminou a cautela em relação aos próximos passos. A combinação de inflação ainda pressionada, incertezas fiscais no Brasil e tensões geopolíticas no Oriente Médio deve manter o Banco Central em postura conservadora nas próximas reuniões.

Às vésperas da decisão, o mercado financeiro já havia elevado a projeção para a Selic no fim de 2026, de 13,5% para 13,75% ao ano, segundo o Boletim Focus. A expectativa para o IPCA também subiu para 5,3%, acima do teto da meta de inflação, de 4,5%.

Para o economista-chefe da Pequod Investimentos, Diogo Almeida, o Copom confirmou as expectativas dos analistas, mas preservou um tom prudente. “A continuidade da queda da Selic está condicionada à evolução da inflação, da atividade econômica e do panorama internacional, o que aumenta a probabilidade de uma interrupção do ciclo no segundo semestre”, afirma.

O cenário externo também entrou no radar da decisão. A acomodação recente das cotações internacionais do petróleo, após sinalizações de acordo envolvendo Estados Unidos e Irã e reabertura do Estreito de Ormuz, trouxe algum alívio aos investidores. Ainda assim, a falta de clareza sobre a efetividade do entendimento e os riscos de novas pressões sobre energia mantêm a cautela.

Segundo Diogo Almeida, mesmo com algum alívio vindo do mercado internacional de petróleo, as projeções de inflação seguem elevadas. “A isso se somam um mercado de trabalho resiliente, medidas de estímulo ao consumo e a instabilidade do contexto internacional, fatores que reduzem a possibilidade de uma aceleração na queda dos juros”, avalia.

O economista-chefe do Daycoval, Rafael Cardoso, faz outra leitura: a de um Copom cauteloso, mas ainda com espaço para seguir reduzindo os juros. Para Cardoso, o Banco Central fez um diagnóstico correto ao reconhecer a piora do cenário, com inflação corrente mais pressionada, atividade forte no primeiro trimestre e incertezas externas. “Apesar disso, o Copom entendeu que o grau de aperto monetário ainda é elevado, o que permite a continuidade da flexibilização”. Para o Daycoval, a comunicação do BC indica manutenção de cortes graduais de 0,25 ponto percentual nas próximas reuniões. O banco projeta a Selic em 13,25% ao fim do ano.

Juros nos EUA

Nos Estados Unidos, o Federal Reserve também manteve postura cautelosa nesta quarta-feira. O banco central norte-americano deixou os juros inalterados na faixa entre 3,50% e 3,75%, na primeira reunião sob comando de Kevin Warsh, e indicou que parte dos dirigentes vê possibilidade de alta de juros ainda este ano, diante da inflação persistente.

Para países emergentes como o Brasil, juros altos nos Estados Unidos reduzem a margem para cortes mais agressivos, porque aumentam a pressão sobre o câmbio e sobre o fluxo de capitais. Na prática, mesmo com o início do ciclo de queda da Selic, o Banco Central brasileiro tende a calibrar os próximos movimentos com mais cuidado.

Selic e investiementos

Com a Selic ainda em patamar elevado, a renda fixa segue oferecendo retorno atrativo. Ao mesmo tempo, a perspectiva de queda gradual dos juros pode abrir oportunidades em outros ativos, especialmente se a inflação der sinais mais consistentes de desaceleração e o cenário fiscal permitir maior confiança dos investidores.

A decisão do Copom foi unanime. Confira a íntegra do comunicado:

​O ambiente externo permanece incerto em função da indefinição sobre os termos do acordo para cessar os conflitos armados no Oriente Médio e as consequências dos efeitos já materializados desses conflitos até o momento, com reflexos nas condições financeiras globais. Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities.

Em relação ao cenário doméstico, o conjunto dos indicadores mostra aceleração da atividade econômica no primeiro trimestre do ano, com setores mais cíclicos voltando a desempenhar papel significativo, e mercado de trabalho ainda com sinais de resiliência. Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes aceleraram, distanciando-se adicionalmente da meta para a inflação, superando seu limite superior na última leitura.

As expectativas de inflação para 2026 e 2027 apuradas pela pesquisa Focus permanecem em valores acima da meta, situando-se em 5,30% e 4,10%, respectivamente. A projeção de inflação do Copom para o quarto trimestre de 2027, atual horizonte relevante de política monetária, situa-se em 3,7% no cenário de referência (Tabela 1 abaixo).  

Índice de Preços20264º Tri 2027
🔹 IPCA Geral5,2%3,7%
🔸 IPCA Livres5,3%3,7%
🔸 IPCA Administrados4,7%3,9%
No cenário de referência, a trajetória para a taxa de juros é extraída da pesquisa Focus e a taxa de câmbio parte de R$5,10/US$, evoluindo segundo a paridade do poder de compra (PPC). O preço do petróleo segue aproximadamente a curva futura pelos próximos seis meses e passa a aumentar 2% ao ano posteriormente. Além disso, adota-se a hipótese de bandeira tarifária “amarela” em dezembro de 2026 e de 2027. O valor para o câmbio foi obtido pelo procedimento usual.

Os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, permanecem mais elevados que o usual. Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, destacam-se (i) uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado, com horizontes mais longos incorporando impactos potenciais de segunda ordem de choques de oferta, relacionados ao petróleo e seus derivados, e a efeitos climáticos sobre a produtividade agrícola e custos de energia; (ii) uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada em função de um hiato do produto mais positivo; (iii) uma conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário maior que o esperado, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada; e (iv) estímulos à demanda agregada, em particular ao componente de consumo, que tenham como resultado o crescimento da atividade econômica acima do produto potencial, enfraquecendo parte dos canais usuais de transmissão da política monetária. Entre os riscos de baixa, ressaltam-se (i) uma eventual desaceleração da atividade econômica doméstica mais acentuada do que a projetada, tendo impactos sobre o cenário de inflação; (ii) uma desaceleração global mais pronunciada decorrente dos choques de comércio e do petróleo, e de um cenário de maior incerteza; e (iii) uma redução nos preços das commodities com efeitos desinflacionários.

O Comitê segue acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza. Os indicadores correntes de atividade econômica mostram recuperação em relação ao último trimestre de 2025, mantendo-se consistentes com uma trajetória de desaceleração no acumulado de 2026. O cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, e pressões no mercado de trabalho.

Nesse momento, as projeções de inflação apresentam distanciamento adicional em relação à meta no horizonte relevante para a política monetária. Ao mesmo tempo, a incerteza acerca dessas projeções permanece mais elevada que o usual, em função da falta de clareza sobre a trajetória dos condicionantes dos modelos de projeção analisados.

O período prolongado de manutenção da taxa básica de juros em patamar contracionista propiciou evidências da transmissão da política monetária sobre a desaceleração da atividade econômica. Em decorrência da dinâmica dos riscos associados à evolução dos preços, o Comitê reafirma que a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações visando assegurar a convergência da inflação à meta.

Na avaliação do Comitê, o grau de restrição acumulado pela política monetária permite diferentes trajetórias de taxas de juros compatíveis com a convergência da inflação para a meta. Os modelos de projeção, utilizando essas trajetórias da taxa básica entre seus condicionantes, estão sujeitos a incertezas acima das usuais na conjuntura atual. Essas incertezas se somam ao cenário de choques de oferta, o que fundamenta a graduação, ao menos parcial, de seus efeitos sobre a dinâmica futura de preços.

Nas simulações atuais, a trajetória de política monetária necessária para assegurar a convergência da inflação à meta, no atual horizonte relevante, implicaria que as taxas de inflação projetadas a partir do horizonte relevante vigente na próxima reunião estariam situadas abaixo da meta. Nessas condições, o Comitê avalia que trajetórias alternativas garantindo a convergência da inflação à meta no primeiro trimestre de 2028, o horizonte relevante a partir de sua próxima decisão, são compatíveis com a suavização na variação dos agregados macroeconômicos.

O Comitê julgou apropriado, nesse momento, dar sequência ao ciclo de calibração da política monetária, reduzindo a taxa básica de juros para 14,25% a.a.

No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária. Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego.

Votaram por essa decisão os seguintes membros do Comitê: Gabriel Muricca Galípolo (presidente), Ailton de Aquino Santos, Gilneu Francisco Astolfi Vivan, Izabela Moreira Correa, Nilton José Schneider David, Paulo Picchetti, e Rodrigo Alves Teixeira.

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