
Por Hilda Gomes*
O Brasil vive uma transformação silenciosa no perfil dos profissionais da engenharia, da agronomia e das geociências. Os dados do Censo Confea 2024, levantamento realizado pelo Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) em parceria com a Quaest e divulgado em 2025, revelam uma categoria cada vez mais diversa, dinâmica e conectada aos desafios do desenvolvimento econômico e tecnológico do país.
O estudo mostra, por exemplo, que cerca de 20% dos profissionais registrados já atuam como empresários ou empreendedores, enquanto milhões transitam entre vínculos formais, consultorias, atividades autônomas e prestação de serviços especializados. Mais do que uma mudança estatística, os números revelam uma transformação profunda na própria natureza da profissão.
A engenharia do futuro tende a ser menos verticalizada e mais flexível. O profissional que antes buscava exclusivamente estabilidade em grandes empresas ou no setor público agora também empreende, cria negócios, presta serviços especializados, atua com inovação, tecnologia, sustentabilidade, infraestrutura e transformação digital.
Essa realidade me chama atenção de forma muito particular porque faz parte da minha própria trajetória profissional. Ao longo da carreira, atuei tanto no serviço público quanto na iniciativa privada e no empreendedorismo. Vivi os desafios da gestão pública, acompanhei as dificuldades enfrentadas pelos profissionais que dependem de contratos, obras e planejamento estatal, mas também conheço a realidade de quem empreende, gera empregos, assume riscos e enfrenta diariamente as dificuldades do mercado.
Talvez por isso eu tenha convicção de que os Conselhos profissionais precisam ampliar sua capacidade de escuta e conexão com a realidade atual da categoria.
Os Creas seguem exercendo uma função essencial de fiscalização e proteção da sociedade, garantindo que obras, projetos e serviços técnicos sejam executados por profissionais habilitados. Essa missão permanece indispensável. Afinal, engenharia também significa segurança, responsabilidade técnica e compromisso com a vida das pessoas.
Mas os desafios atuais exigem uma atuação mais ampla e contemporânea.
CREA do futuro
O CREA do futuro precisa ser também um espaço de valorização profissional, articulação institucional, incentivo à inovação e aproximação com os jovens profissionais. Precisa dialogar mais com universidades, setor produtivo, poder público e ambientes de inovação. Precisa compreender que uma parcela crescente da categoria hoje empreende, desenvolve soluções, movimenta a economia e ajuda a transformar cidades e regiões inteiras.
Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com a redução do interesse dos jovens pelos cursos de engenharia e com a futura escassez de mão de obra qualificada. Em um país que ainda precisa enfrentar enormes desafios em infraestrutura, mobilidade, saneamento, habitação, energia e desenvolvimento urbano, esse é um tema estratégico.
A engenharia continua sendo uma das principais ferramentas de desenvolvimento de qualquer nação. Não existe futuro sustentável sem engenharia forte, valorizada e socialmente reconhecida.
É justamente por ter vivido diferentes realidades da profissão — no serviço público, na iniciativa privada e no empreendedorismo — que me sinto preparada para contribuir com esse novo momento do CREA Pernambuco. Tenho convicção de que o Conselho precisa olhar para o futuro sem perder de vista sua missão histórica de defesa da sociedade e valorização profissional.
O futuro da engenharia pernambucana exigirá diálogo, modernização, capacidade de escuta e conexão com as transformações do mercado e da sociedade. E acredito que o CREA-PE também precisará evoluir junto com esse novo tempo.
*Hilda Gomes é engenheira civil, empresária e candidata à presidência do CREA Pernambuco
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