
Alguns lugares do Nordeste e Minas Gerais terão um diferencial na contratação de baterias para armazenamento de energia, porque, dependendo da localização, vão receber uma pontuação maior nos leilões que vão contratar este tipo de serviço e serem realizados em 2026. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (ABSAE), Markus Vlasits, o mecanismo de bonificação locacional favorece empreendimentos instalados em pontos de conexão do Nordeste. Os 129 “pontos” foram listados pelo Ministério de Minas e Energia (MME) num levantamento que levou em consideração o excesso de geração de energia renovável, como a solar e eólica. A contratação das baterias vai diminuir os cortes de geração que trouxeram prejuízos bilionários às usinas eólicas e solares da região.
No Nordeste, os cortes geração ocorrem quando há excesso de geração ou falta de linha de transmissão para escoar a energia produzida, como ocorre, por exemplo, no final da manhã. Um levantamento da consultoria Volt Robotics estimou – com dados baseados em informações oficiais – que o Brasil desperdiçou 20% de toda a energia renovável que poderia produzir em 2025 por causa dos cortes que fazem as empresas produzirem menos do que inicialmente previsto. Quase a totalidade desse desperdício ocorreu no Nordeste.
Ainda de acordo com Markus, o quanto as baterias vão contribuir para reduzir os cortes de geração depende da quantidade de energia a ser contratada nos leilões. O executivo considerou as diretrizes dos leilões bem estruturadas, mas disse que a definição destas diretrizes ocorre “depois de meia década de debate”.
Dos 129 pontos de conexão listados, 111 estão no Nordeste e 18 em Minas Gerais. Os que estão no Nordeste têm a seguinte distribuição: 42 na Bahia, 39 no Ceará, 17 no Piauí, seis em Pernambuco, três em Alagoas e dois no Rio Grande do Norte.
A Bahia, Ceará e Piauí concentram 98 dos 111 barramentos nordestinos, representando 88% de todos os pontos bonificados da região, refletindo a elevada concentração de parques eólicos e solares e os maiores problemas de cortes de geração (curtailment) nesses estados.
Mais detalhes dos leilões das baterias
Serão realizados dois leilões. Um vai contratar sistemas de armazenamento com conteúdo nacional e a sua realização está prevista para o dia 2 de dezembro de 2026. O outro leilão será de armazenamento de sistemas com equipamentos que podem ser fabricados em qualquer lugar do mundo e deve ocorrer no dia 4 de dezembro deste ano. Geralmente no setor elétrico brasileiro, primeiro um empreendimento tem a contratação do seu serviço realizado via leilão para depois ser implantado.
A exigência do conteúdo nacional deve beneficiar a empresa pernambucana Baterias Moura que ja fabrica vários tipos de baterias, incluindo grandes sistemas tipo BESS. Em nota, a Baterias Moura informou que “acompanha de forma permanente as discussões sobre o avanço da transição energética no Brasil e acredita que o fortalecimento da cadeia produtiva nacional é um fator relevante para o desenvolvimento sustentável do país, a geração de empregos qualificados e o estímulo à inovação tecnológica. Como empresa brasileira com atuação histórica em sistemas de acumulação de energia, a Moura contribui com esse debate a partir de sua experiência industrial, técnica e de pesquisa, sempre de forma alinhada às diretrizes regulatórias e institucionais do setor”.

Os sistemas de baterias vão começar a funcionar em dois anos
Os projetos vencedores dos leilões deverão entrar em operação em agosto de 2028. Os sistemas de baterias devem ter autonomia de quatro horas e os contratos terão duração de 15 anos. “Isso foi positivo”, disse Markus. Eles devem apresentar uma potência mínima de 30 megawatts (MW) e um tempo máximo de recarga completa em seis horas.
Ao ser questionado sobre o volume de potência que deve ser contratado nos leilões, Markus afirmou que os números oficiais são mantidos sob sigilo pelo governo, mas lembrou que o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, já mencionou publicamente a possibilidade de contratação de 2 GW. “A expectativa da associação é superior, chegando à faixa de contratação entre 4 gigawatts (GW) e 5 GW. Nesse cenário, o investimento estimado pelo setor ficaria entre R$ 25 bilhões e R$ 30 bilhões, incluindo produtos nacionais e importados que compõem o sistema completo de armazenamento”, explicou Markus.
Em relação à regulamentação do armazenamento de energia, Markus afirmou que a avaliação definitiva sobre este assunto depende da publicação do texto final da resolução normativa, o que ainda não ocorreu.
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