
*Com colaboração de Paulo Goethe
Redução das chuvas, calor extremo e risco de apagões por impacto nas usinas hidrelétricas. Esse é o cenário previsto para o Nordeste brasileiro se o fenômeno do El Niño, o aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial que altera padrões de chuva e temperatura em todo o planeta, for realmente mais severo neste ano. O alerta mais recente foi da Organização Meteorológica Mundial (OMM), órgão oficial da Organização das Nações Unidas (ONU), feito no dia 2 de junho: há 80% de probabilidade de o fenômeno se consolidar entre junho e agosto de 2026, com mais de 90% de chance de permanecer ativo até o fim da primavera no Hemisfério Sul.
Para a agricultura nordestina, o alerta é direto. Alexandre Magno, meteorologista e consultor da Associação dos Fornecedores de Cana de Pernambuco (AFCP), projeta que o maior impacto recairá sobre a safra de cana 27/28, com atraso das chuvas previstas para janeiro, fevereiro e março de 2027. As áreas de sequeiro, sem irrigação, são as mais vulneráveis. “Os produtores podem fazer o manejo das suas propriedades, reduzindo riscos e minimizando prejuízos causados pelas irregularidades climáticas”, orienta o meteorologista. O fenômeno em formação é do tipo canônico, associado a bloqueios atmosféricos que inibem a formação de nuvens e favorecem períodos de seca no Nordeste, com ápice previsto para o final de 2026.
A formação do El Niño, segundo Alexandre, pode ter impacto no trimestre que vai de junho a agosto deste ano com uma pluviometria normal ou abaixo da médica com a ocorrência de veranicos – ausência de precipitação pluviométrica por mais de cinco dias – no litoral de Pernambuco e áreas adjacentes.
A meteorologista da Agência Pernambucana do Clima (Apac), Edivânia Santos, aponta que a probabilidade de um Super El Niño subiu de 25% em abril para 37% em maio. “Ainda não dá para dizer que vai ser um El Niño superforte. A solução é monitorar e se planejar porque pode ocorrer a diminuição das chuvas no Nordeste”, afirma. Edivânia lembra que em 2023-2024 ocorreu um El Niño de moderado a forte com recordes de temperatura, mas as chuvas foram normais porque as águas do Atlântico estavam muito quentes — o que indica que outros fenômenos climáticos podem moderar os impactos.

Histórico de devastação
Algumas das maiores secas do Nordeste Setentrional ocorreram em anos com El Niño superforte: 1982-1983, 1997-1998 e 2015-2016. O episódio de 1997-1998 provocou a maior estiagem registrada na Zona da Mata pernambucana nos últimos 100 anos, segundo Magno. A OMM ressalva, porém, que mesmo eventos moderados podem alterar significativamente os padrões de chuva e temperatura na região.
As condições físicas que alimentam o fenômeno são concretas: as temperaturas subsuperficiais no Oceano Pacífico tropical estão 6°C acima da média, fornecendo um reservatório de calor que impulsiona o aquecimento da superfície, segundo a OMM. O boletim climático da AFCP, divulgado em 20 de maio, classifica o fenômeno como “muito representativo e de longa duração” e aponta ainda o resfriamento do Oceano Atlântico tropical, que pode reduzir as instabilidades atmosféricas vindas do oceano e diminuir a regularidade das chuvas sobre o litoral nordestino. O Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo aponta tendência de chuvas irregulares em grande parte do Nordeste no trimestre de junho a agosto.

Energia na linha de fogo
Historicamente, o Brasil gera mais de 60% da eletricidade com hidrelétricas. Quando os reservatórios diminuem o armazenamento de água, o sistema elétrico aciona usinas termelétricas para compensar, elevando o preço da energia. O Operador Nacional do Sistema (ONS) avalia que Norte e Nordeste apresentam reservatórios em nível confortável no curto prazo, mas alerta que o desempenho das bacias do São Francisco e Tocantins-Araguaia será determinante para o equilíbrio do Sistema Interligado Nacional (SIN) no segundo semestre. Cientistas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) descrevem o cenário como um potencial “desastre térmico”: enquanto os reservatórios secam, ondas de calor extremo disparam o consumo de ar-condicionado, combinando queda de oferta com aumento de demanda de energia ao mesmo tempo.
A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, alertou para a necessidade de preparação para um El Niño potencialmente forte. “O El Niño de 2023-2024 foi um dos cinco mais fortes já registrados e contribuiu para as temperaturas globais recordes de 2024“, afirmou, acrescentando que o fenômeno em formação pode agravar secas, intensificar chuvas e aumentar o risco de ondas de calor. O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que o fenômeno pode intensificar os efeitos do aquecimento global, ampliando a frequência e a intensidade de eventos climáticos extremos no planeta. A recomendação é que governos, setores produtivos e órgãos de defesa civil reforcem os planos de preparação para seca prolongada, ondas de calor e chuvas intensas nos próximos meses.
Com informações da AFCP, Apac, OMM, ONS e Cemaden
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