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Dependência externa trava avanço do polo de confecções de Pernambuco

Apesar do faturamento bilionário e da força econômica, polo de confecções segue sem grandes fornecedores locais de tecidos, poliéster e aviamentos
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~10:08
  1. Polo de Confecções do Agreste faturou R$ 15 bilhões em 2025.
  2. Setor depende de insumos comprados fora de Pernambuco.
  3. Cadeia produtiva é vulnerável a oscilações logísticas.
  4. Dependência externa é total em segmentos como poliéster.
  5. Setor gera cerca de 200 mil empregos diretos e indiretos.
Polo de confecções do Agreste faturou R$ 15 bilhões em 2025, mas segue com o entrave de comprar insumos fora de Pernambuco. Foto: TripAdivisor/Reprodução

Há pelo menos três décadas, o Polo de Confecções do Agreste pernambucano consolida sua posição como uma das principais forças industriais do Nordeste. Espalhado por mais de 60 municípios, com destaque para Santa Cruz do Capibaribe, Toritama e Caruaru, o arranjo produtivo transformou a economia regional, tornou-se o maior produtor de jeans do Brasil e o segundo maior polo de confecções do país. Apesar da pujança, um problema histórico permanece sem solução: a cadeia produtiva segue incompleta.

Enquanto milhares de pequenas e médias empresas produzem roupas em escala industrial, boa parte dos tecidos, linhas, aviamentos e insumos utilizados nas fábricas vem de outros estados ou do exterior. Em alguns segmentos, como o poliéster, a dependência externa é praticamente total. O resultado é uma cadeia que movimentou em 2025 R$ 15 bilhões, com R$ 1,2 bilhão de arrecadação de ICMS e gerando cerca de 200 mil empregos diretos e indiretos, mas continua vulnerável a oscilações logísticas, cambiais e tributárias.

O presidente do Sindicato das Indústrias do Vestuário de Pernambuco (Sindivest-PE), João Darru, destaca que, apesar dos números expressivos, a estrutura industrial ainda apresenta lacunas importantes. “Quando você fala de tecido, principalmente aqueles com composição 100% poliéster, praticamente tudo é importado. O Brasil é forte na produção de tecidos de algodão, mas outros materiais dependem muito do mercado externo”, explica.

A dependência não é apenas dos insumos. Representantes do setor estimam que cerca de 35% das peças comercializadas atualmente no mercado brasileiro já são importadas, percentual que cresce continuamente com o avanço das plataformas internacionais de comércio eletrônico.

Para o presidente do Sindicato das Indústrias Têxteis de Pernambuco (Sindtêxtil-PE), João Bezerra, a ausência de uma cadeia integrada não é um problema recente. “Essa luta não é de hoje. Há 30 anos participo desse movimento. O polo evoluiu bastante, mas os desafios mudaram. Hoje precisamos ser mais estratégicos para superar os obstáculos”, afirma.

Segundo ele, o esvaziamento da indústria têxtil brasileira ao longo das últimas décadas contribuiu diretamente para esse cenário. Pernambuco chegou a possuir importantes tecelagens e fábricas de tecidos na Região Metropolitana do Recife, mas muitas delas perderam competitividade diante da concorrência internacional, da defasagem tecnológica e de problemas sucessórios.

“Pernambuco já teve uma tradição têxtil muito grande. Grandes tecelagens produziram aqui durante décadas. Mas essas empresas foram declinando e o mercado importado cresceu muito”, observa Bezerra.

Em 2006, placa anunciava investimento do polo petroquímico de Suape, que iria abastecer todo o Brasil – Foto: Alpek/Divulgação

A oportunidade perdida de Suape

O caso mais emblemático dessa dificuldade de adensar a cadeia produtiva talvez esteja em Suape. No início dos anos 2000, durante a implantação da Refinaria Abreu e Lima, surgiu a perspectiva de transformar Pernambuco em um dos principais polos petroquímicos voltados para a indústria têxtil do país. O projeto previa a produção local de PTA e POY, matérias-primas fundamentais para a fabricação de fios de poliéster.

A principal aposta era a Companhia Integrada Têxtil do Nordeste (Citene), unidade industrial instalada próxima à refinaria, concebida para produzir fios sintéticos a partir de derivados petroquímicos.

A expectativa era que o empreendimento impulsionasse a instalação de novas tecelagens e indústrias de beneficiamento, criando um ecossistema integrado capaz de abastecer não apenas o Polo de Confecções do Agreste, mas todo o país. O projeto iria reduzir a dependência dos importados, principalmente da China.

“O Brasil poderia ter se tornado autossuficiente em POY, que é a matéria-prima do fio de poliéster. A planta foi construída, recebeu investimentos bilionários, mas o projeto não se consolidou”, relembra João Bezerra.

Segundo ele, mesmo quando a unidade operava, ainda faltava uma etapa fundamental para fechar a cadeia, com a instalação de empresas especializadas em beneficiamento, transformação e produção de tecidos acabados. “Na época se criou uma expectativa enorme de que Pernambuco iria estourar na produção têxtil. Mas isso não se confirmou”, afirma.

A operação da Citene acabou sendo reduzida progressivamente até sua paralisação. A unidade hoje pertence à Alpek. Atualmente, o Brasil continua dependente da importação da matéria-prima utilizada na fabricação de poliéster, principalmente dos países asiáticos.

O tema voltou à pauta recentemente devido à discussão nacional sobre aumento da tributação de insumos importados. Durante agenda com representantes do setor, no último dia 25, no Palácio do Campo das Princesas, a governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), destacou que cerca de 90% do poliéster utilizado pelo Polo de Confecções pernambucano é importado e alertou para os riscos de um eventual aumento da tributação sobre esse insumo.

Segundo ela, como a indústria nacional é capaz de suprir apenas uma pequena parcela da demanda, elevar os impostos de importação encareceria a produção local e reduziria ainda mais a competitividade das empresas do Agreste frente aos produtos estrangeiros.

“Quando se trata de insumo básico para a nossa produção, especialmente considerando que a indústria nacional produz apenas cerca de 10% do que precisamos, taxar o produto importado significa tornar o nosso produto menos competitivo”, afirmou a governadora, ressaltando que o tema vem sendo discutido junto ao Congresso Nacional e ao governo federal.

Governadora Raquel Lyra se reuniu com representantes do polo de confecções – Foto: Hesíodo Góes/Secom

Água, infraestrutura e informação

Além da ausência de fornecedores locais, existem outros fatores que dificultam a atração de grandes investimentos para a cadeia têxtil. Para Vanberto Barbosa, diretor de Gestão Estratégica do Núcleo Gestor da Cadeia Têxtil e de Confecções de Pernambuco (NTCPE), uma das principais barreiras está relacionada à disponibilidade hídrica.

“A indústria têxtil exige grande volume e qualidade de água, especialmente nos processos de tingimento e beneficiamento. E o Agreste ainda convive com limitações importantes nesse aspecto”, explica. Segundo ele, embora os investimentos recentes em abastecimento estejam melhorando a situação regional, a infraestrutura hídrica ainda é um fator observado por investidores.

Outro problema é a falta de dados atualizados sobre o próprio polo. “O último grande levantamento que posicionou Pernambuco dentro desse cenário foi realizado em 2017. Muita coisa mudou desde então. Precisamos de um diagnóstico mais profundo para conhecer exatamente o tamanho dessa cadeia e atrair novos investimentos”, afirma.

A avaliação é compartilhada por lideranças empresariais. Embora o polo seja amplamente conhecido em Pernambuco, ainda existe desconhecimento sobre sua dimensão em outras regiões do país. “Empresários que participaram recentemente de uma feira nacional de moda infantil relataram que muitos compradores sequer conheciam o Polo de Confecções de Pernambuco”, relata Barbosa.

Competitividade global do polo de confecções

A ausência de uma cadeia completa também está diretamente ligada à competitividade internacional. Segundo João Darru, representantes da gigante chinesa Shein chegaram a visitar Pernambuco em busca de potenciais fornecedores. O interesse, porém, não avançou devido às condições comerciais propostas.

“A produção em Pernambuco é muito eficiente em escala, mas precisamos trabalhar mais o valor agregado dos produtos. Esse é um dos nossos grandes desafios”, afirma.

O tema também aparece nas análises da indústria nacional. Para o superintendente de Política Industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Fabrício Silveira, o futuro do setor passa pela incorporação de novos modelos de negócio, digitalização e integração logística.

Ele cita o modelo da Shein, baseado em plataformas digitais e cadeias produtivas altamente conectadas, como exemplo de transformação que pode inspirar novos caminhos para o polo pernambucano. “Precisamos reorganizar os pequenos produtores dentro de sistemas mais integrados, garantindo qualidade, padronização e eficiência logística”, defende.

Polo de confecções do Agreste pernambucano ainda sofre com a escassez de mão-de-obra – Foto: Agência de Notícias da Indústria

O desafio da próxima década

Enquanto discute a defesa comercial contra a concorrência asiática, o Polo de Confecções também enfrenta desafios internos importantes. A escassez de mão de obra qualificada, a informalidade e a necessidade de ampliar mercados são temas recorrentes nas discussões do setor.

Para João Bezerra, o futuro passa por uma estratégia mais coordenada entre governo, entidades empresariais e indústria. “Precisamos criar uma estratégia para o polo, e não apenas ações isoladas. Conhecer melhor nossos números, buscar mercados externos e pensar o futuro da cadeia de forma integrada”, afirma.

Na avaliação do governo estadual, o fortalecimento da cadeia têxtil passa por uma estratégia de longo prazo que combine melhoria da infraestrutura, atração de investidores e diálogo permanente com o setor produtivo. Segundo a secretária de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco, Danielle Jar Souto, o Estado está realizando um amplo levantamento junto aos empresários e trabalhadores para identificar gargalos e direcionar políticas públicas mais assertivas.

“O objetivo é escutar quem está na ponta, entender quais são as necessidades reais da cadeia e, a partir daí, construir soluções. Temos instrumentos como o Fundo Têxtil e programas de incentivo que podem ser aprimorados para fortalecer ainda mais o setor”, afirma.

Segundo ela, o governo também tem intensificado contatos com potenciais investidores nacionais e internacionais interessados em ampliar suas operações ou instalar novas unidades produtivas em Pernambuco.

A busca por fornecedores capazes de adensar a cadeia local também está no radar. De acordo com o secretário da Assessoria Especial à Governadora e Relações Internacionais do Estado de Pernambuco, João Salles, o mercado asiático, especialmente a China, aparece como um dos principais focos das negociações em andamento.

“A gente tem estudado como atrair fornecedores internacionais para produzir aqui ou estabelecer parcerias com empresas locais. O principal desafio apontado pelo setor é justamente reduzir o custo dos tecidos de poliéster, que hoje representam uma parcela importante da produção do polo”, destaca.

Segundo Salles, a estratégia não se limita à atração de novas fábricas. O objetivo é construir um ambiente capaz de integrar fornecedores globais às empresas pernambucanas já estabelecidas.

“Quando falamos em adensar a cadeia produtiva, estamos falando de criar conexões entre quem produz a matéria-prima e quem confecciona. Isso gera competitividade, reduz custos logísticos e fortalece todo o ecossistema industrial”, afirma.

Leia também: Grupo de trabalho busca salvar polo têxtil da “taxa da blusinha”

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