
A concentração dos cabos submarinos brasileiros em poucos pontos de aterragem, como Fortaleza, Rio de Janeiro, Santos e Praia Grande, entrou oficialmente na agenda regulatória da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). A agência abriu, no último dia 26 de maio, uma tomada de subsídios para discutir a atualização das regras que disciplinam essa infraestrutura estratégica, considerada responsável por cerca de 99% do tráfego internacional de dados do país. A consulta pública permanecerá aberta até 10 de julho.
Segundo a Anatel, a elevada concentração geográfica dos pontos de aterragem pode representar vulnerabilidades sistêmicas para a conectividade brasileira, especialmente diante da crescente dependência da economia digital e da importância dos cabos submarinos para a soberania digital e para a integração do Brasil às redes globais de dados.
O tema ganhou relevância à medida que a transformação digital passou a depender cada vez mais de infraestruturas críticas. Os cabos submarinos sustentam serviços essenciais como telecomunicações, computação em nuvem, operações financeiras, plataformas digitais, sistemas governamentais e aplicações de inteligência artificial. Qualquer interrupção relevante nesses sistemas pode provocar impactos em diversos setores da economia.
Por essa razão, a Anatel pretende promover uma ampla discussão sobre segurança e resiliência das redes, diversificação geográfica dos pontos de aterragem, governança institucional, monitoramento de incidentes, cooperação internacional e incentivos à expansão da infraestrutura digital. Também estarão em debate mecanismos para ampliar a proteção física e cibernética desses ativos e aumentar a previsibilidade regulatória necessária para atrair novos investimentos.
A discussão possui especial relevância para o Nordeste. Hoje, Fortaleza concentra a maior parte dos cabos submarinos instalados na região e se consolidou como um dos principais hubs de conectividade da América Latina. Essa condição ajudou a atrair data centers, provedores globais de nuvem e empresas de tecnologia, transformando a infraestrutura digital em uma importante vantagem competitiva para o Ceará.
A própria consulta da Anatel abre espaço para uma reflexão sobre a necessidade de diversificação dessa infraestrutura crítica. Em um cenário de expansão acelerada da inteligência artificial, da computação em nuvem e da economia baseada em dados, ampliar a distribuição geográfica dos pontos de aterragem deixou de ser apenas uma questão técnica para se tornar um tema ligado à segurança nacional, à competitividade econômica e à soberania digital brasileira.
Cabos atraem data center
Daniel Gomes, CEO da Atlantic Data Center, que está em implantação em Pernambuco, chamou atenção para a concentração do setor no Sudeste no evento Análise Ceplan 2026, realizado na última quinta-feira no Recife.
“O Brasil possui cerca de 95% dos data centers concentrados no eixo Rio-São Paulo, o que abre uma oportunidade relevante de descentralização para o Nordeste”, disse Daniel Gomes.
A infraestrutura dos cabos é importante para atração de data center. O Ceará tem concentrado vultosos investimentos em data center justamente por receber os cabos cabos submarinos que chegam ao Brasil vindo de diversos países. O crescimento dos data centers é impulsionado pela inteligência artificial e pode representar investimentos da ordem de R$ 200 bilhões para Pernambuco, desde que sejam superados os gargalos atuais.
“O tripé dos data centers é demanda, energia e conectividade. O Nordeste já possui uma vantagem importante em energia, mas ainda enfrenta limitações na conectividade”, alertou Daniel Gomes.
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