
Com quatro votos a zero, a Diretoria Colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) manteve nesta sexta-feira (15) a suspensão de fabricação, comercialização, distribuição e uso das linhas de detergentes lava-louças, sabões líquidos para roupas e desinfetantes da marca Ypê, da Química Amparo, para todos os lotes com numeração final 1. A decisão encerra o recurso administrativo com efeito suspensivo apresentado pela empresa contra a Resolução RE 1.834/2026. Os diretores afirmaram que as medidas adotadas pela Química Amparo foram insuficientes, citaram “histórico recorrente de contaminação microbiológica” e classificaram o risco sanitário como alto.
A Diretoria suspendeu a obrigação de recolhimento imediato dos lotes. A empresa deverá apresentar plano de ação baseado em análise de risco, com possibilidade de liberação gradual lote a lote sob acompanhamento técnico da Anvisa.
A bactéria Pseudomonas aeruginosa foi identificada em mais de 100 lotes de produtos acabados da marca, segundo inspeções realizadas em conjunto com o Centro de Vigilância Sanitária do Estado de São Paulo (CVS-SP) e a Vigilância Sanitária Municipal de Amparo, onde fica a unidade da Química Amparo. As fiscalizações apontaram 76 irregularidades com descumprimentos em etapas críticas do processo produtivo, incluindo falhas nos sistemas de garantia da qualidade, produção e controle de qualidade, comprometendo as Boas Práticas de Fabricação (BPF) de saneantes exigidas pela Anvisa.
Votos e fundamentação
O diretor-presidente Leandro Pinheiro Safatle afirmou que as medidas implementadas pela empresa foram insuficientes e citou o histórico recorrente de contaminação. “Não se trata de um problema isolado, mas de um conjunto de evidências técnicas que indicam falhas no controle do processo de fabricação”, disse.
O diretor Thiago Campos defendeu que, em matéria sanitária, “aguardar certeza absoluta do dano significa agir tardiamente”. A diretora Daniela Marreco classificou o risco como alto e afirmou que a repercussão do caso gerou “discussão polarizada” que não reflete as motivações técnico-científicas da agência.
O diretor Daniel Pereira, último a votar, reconheceu a relevância econômica da empresa, mas afirmou que isso “não pode se sobrepor ao dever institucional da agência na proteção da saúde pública”, e defendeu acompanhamento contínuo para possibilitar retomada das atividades o quanto antes.
Reembolso e troca: como solicitar
A Ypê iniciou o processo de reembolso e troca dos produtos afetados. Consumidores com lotes de numeração final 1 nos detergentes lava-louças, sabões líquidos para roupas e desinfetantes devem suspender o uso imediatamente e acionar o SAC da Ypê para solicitar orientação sobre troca ou ressarcimento.
A Anvisa reiterou que a responsabilidade pelo recolhimento, troca e devolução é da empresa, cujo SAC vem apresentando problemas de atendimento segundo registros da própria agência. A Ypê mantém paralisadas as linhas de produção da fábrica de líquidos desde 7 de maio e informou estar em colaboração com a Anvisa na busca por solução definitiva.
Unilever havia denunciado à Anvisa em 2025
Documentos obtidos pela CNN Brasil mostram que a Unilever, dona das marcas Omo, Comfort e Cif, protocolou petições junto à Anvisa e à Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) em 2025, apontando a presença de Pseudomonas aeruginosa em lotes da linha Tixan Ypê Express, com base em laudos do laboratório Charles River. Em manifestação protocolada em 9 de outubro de 2025, classificada como urgente, a multinacional apontou “desvio microbiológico relevante” em dez lotes e alertou para risco ampliado a consumidores imunodeprimidos. A Química Amparo negou as alegações à época.
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