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Japão testa no Piauí tecnologia 30% mais eficiente para hidrogênio verde

Empresa japonesa escolhe ZPE Parnaíba para testar eletrolisador SOEC de 100 kW em parceria com a Green Energy Park. Início das operações de hidrogênio verde no Piauí está previsto para 2027
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  1. Empresa japonesa Niterra instala projeto de hidrogênio verde no Piauí com investimento de R$ 70 milhões.
  2. Tecnologia SOEC opera em altas temperaturas, reduzindo consumo elétrico em até 30% comparado aos métodos convencionais.
  3. Sistema reversível funciona como armazenamento energético, gerando eletricidade quando há escassez de energia renovável.
  4. Niterra possui expertise em cerâmica de óxido de zircônio, material essencial para a tecnologia SOEC.
  5. Projeto de demonstração com 100 kW total começa operações no segundo trimestre de 2027 em Parnaíba.
Niterra, antiga NGK Spark Plug, aposta na tecnologia de eletrólise de óxido sólido (SOEC) como vetor de descarbonização industrial e produção de hidrogênio verde. Foto: Niterra/Divulgação
Niterra, antiga NGK Spark Plug, aposta na tecnologia de eletrólise de óxido sólido (SOEC) como vetor de descarbonização industrial e produção de hidrogênio verde. Foto: Niterra/Divulgação

O Piauí será sede de um dos primeiros projetos no Brasil com a tecnologia SOEC (Solid Oxide Electrolysis Cell), considerada de última geração para a produção de hidrogênio verde de baixo carbono. A empresa japonesa Niterra, antiga NGK Spark Plug, escolheu a Zona de Processamento de Exportação (ZPE) Piauí, em Parnaíba, para instalar um projeto de demonstração do sistema, com investimento previsto de R$ 70 milhões e operações a partir do segundo trimestre de 2027, segundo informações do Piauí Negócios.

A tecnologia SOEC difere dos modelos convencionais de eletrólise alcalina e PEM (membrana de troca de prótons) por operar em altas temperaturas, o que reduz o consumo de eletricidade no processo de separação do hidrogênio da água. A Niterra afirma que o sistema pode alcançar eficiência até 30% superior às tecnologias tradicionais, dado relevante num setor em que 70% dos custos de produção estão atrelados ao consumo energético.

O sistema é reversível: quando há excesso de energia renovável, opera no modo SOEC e gera hidrogênio verde; quando há escassez, opera no modo SOFC (Solid Oxide Fuel Cell) e gera eletricidade, funcionando como sistema de armazenamento energético. A vantagem técnica da Niterra nesse campo não é acidental, pois a empresa tem décadas de experiência em componentes cerâmicos industriais, e a SOEC utiliza cerâmica de óxido de zircônio como eletrólito sólido, material no qual a companhia possui expertise consolidada.

O projeto de demonstração terá capacidade total de 100 kW, com unidade inicial de 12 kW e expansão subsequente de 96 kW. Em comunicado publicado no Instagram @niterradobrasil em 8 de maio, a empresa confirmou a seleção pelo METI e descreveu o projeto como parte de sua Visão 2040 para a descarbonização global.

Tecnologia em transição para o mercado

O projeto de Parnaíba se insere numa janela crítica de maturidade da tecnologia SOEC. As únicas unidades em operação no mundo estão em escala de demonstração industrial: a Bloom Energy opera desde maio de 2023 a maior instalação SOEC do mundo no Centro de Pesquisa Ames da NASA, em Moffett Field (Califórnia), com produção de hidrogênio 20% a 25% mais eficiente por MW que os modelos convencionais.

A empresa Sunfire instalou em julho de 2022 o primeiro eletrolisador SOEC multi-megawatt do mundo na refinaria de renováveis da Neste, em Rotterdam, como parte do projeto MultiPLHY. A Mitsubishi Heavy Industries projeta a comercialização em escala da SOEC para o final dos anos 2020, coincidindo com o início da demanda por hidrogênio verde em escala industrial por volta de 2030. O projeto da Niterra em Parnaíba, com operações previstas para 2027, posiciona o Piauí nessa janela de transição entre demonstração e comercialização.

Parnaíba sediará projeto de R$ 70 milhões voltado ao futuro do hidrogênio verde. Foto: Secom
ZPE Piauí, instalada em Parnaíba, sediará projeto de R$ 70 milhões voltado ao futuro do hidrogênio verde. Foto: Secom

ZPE como âncora estratégica

A escolha de Parnaíba não se explica apenas pelo potencial de geração eólica e solar. A localização dentro da ZPE Piauí oferece incentivos fiscais específicos e infraestrutura voltada à exportação industrial, fatores declarados pela própria Niterra como essenciais para a viabilidade de projetos de hidrogênio e derivados verdes. O mercado-alvo da produção já está definido: a Green Energy Park (GEP), parceira da Niterra no projeto, tem contrato de distribuição via Porto de Krk, na Croácia, e contratos fechados com compradores europeus. O hidrogênio produzido em Parnaíba tem destino estabelecido, não é produção especulativa.

O projeto envolve a parceria entre a Niterra e a GEP, multinacional holandesa que planeja instalar em Parnaíba uma das maiores usinas de hidrogênio verde do mundo, com capacidade inicial de 1,8 GW e produção de até 2,4 milhões de toneladas de hidrogênio renovável por ano. A articulação local conta com apoio do governo estadual por meio da Investe Piauí.

“A Niterra é uma parceira de tecnologia da Green Energy Park. A empresa precisava de um local para fazer testagem no Brasil e o local escolhido foi Parnaíba, na ZPE”, afirmou o diretor de Projetos da GEP Piauí, Dener Miranda. O projeto foi selecionado dentro de um programa estratégico do Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão (METI), voltado à cooperação tecnológica com países do Sul Global, com financiamento parcial do governo japonês.

Foco em capacitação técnica local

O projeto terá foco direto na formação de profissionais piauienses para operação dos eletrolisadores SOEC. “Serão geradas vagas voltadas à pesquisa científica e engenharia, mas o principal objetivo será o treinamento de operação de eletrolisadores SOEC. Todos os profissionais serão do Piauí”, afirmou Miranda.

A quantidade de vagas e os perfis ainda estão em definição. A expectativa é criar uma base técnica local capaz de operar equipamentos da própria Niterra em futuros projetos de hidrogênio no Brasil e adaptar a tecnologia às necessidades do mercado brasileiro. A tecnologia SOEC é especialmente adequada para setores de difícil descarbonização, como produção de fertilizantes, amônia verde e siderurgia.

UFPI entra na cadeia do H2V

Em 5 de maio, seis dias antes do anúncio da Niterra, a reitoria da Universidade Federal do Piauí (UFPI) recebeu o próprio Dener Miranda para discutir cooperação institucional entre a GEP e a universidade. O encontro reuniu professores de Química, Engenharia de Materiais, Engenharia de Produção e Ciência da Computação. Como encaminhamento, ficou definido o planejamento para submeter ao menos dois editais da Finep em parceria com o grupo.

A reitora Nadir Nogueira situou o movimento dentro de uma narrativa mais ampla de protagonismo piauiense em recursos naturais com valor agregado. “O estado vem assumindo o protagonismo nessa área, seja com a cera da carnaúba ou com o hidrogênio verde. Esse diálogo mostrou como a empresa atua e de que maneira a Universidade pode se inserir dentro desse escopo, gerando conhecimento, tecnologia e desenvolvimento para o Estado”, afirmou.

O pró-reitor de Pesquisa e Inovação, Rodrigo Veras, reforçou o alinhamento com a estratégia de atração de recursos empresariais para pesquisa. “Conseguimos investir mais em novas pesquisas, ampliar as que já estão em andamento, criar startups e ter produtos que saem da Universidade para o dia a dia da população”, disse.

Ecossistema piauiense de H2V

O projeto da Niterra se insere num ecossistema de hidrogênio verde em construção no Piauí. A GEP e a Solatio preveem investimentos combinados de R$ 200 bilhões na ZPE Parnaíba, com a primeira fase gerando 2,3 mil empregos diretos até 2031. A UFPI coordena o projeto H2V-PI, financiado com R$ 14,5 milhões pelo MCTI/Finep, com participação da UESPI e da Fapepi, voltado ao desenvolvimento local de insumos para eletrolisadores, sendo um dos apenas três projetos aprovados no Nordeste num total de 13 no país. A Eletrobras assinou memorando de entendimento para fornecer energia à GEP, e a Comissão Europeia anunciou apoio financeiro ao megaprojeto via iniciativa Global Gateway.

Fundada em 1936, a Niterra é reconhecida mundialmente pela produção de velas automotivas e componentes cerâmicos industriais. Nos últimos anos, a companhia ampliou investimentos nas áreas de energia, meio ambiente e semicondutores, buscando posicionamento no mercado global de descarbonização industrial. A escolha do Piauí como base de demonstração posiciona o estado dentro do movimento de desenvolvimento de soluções energéticas de baixo carbono que a Niterra pretende liderar globalmente ao longo da próxima década.

*Com informações do Piauí Negócios e da UFPI

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