
O eixo do mundo empresarial mudou e a velocidade das transformações tecnológicas está atropelando as estruturas tradicionais de gestão. Este foi o alerta feito pelo consultor Cícero Rocha, fundador do Instituto Empresariar, durante o evento “Empresa Familiar em Movimento”, realizado nesta terça-feira (7), no Complexo JBS, no Recife. Diante de uma plateia de 70 líderes empresariais de Pernambuco, Rocha detalhou como a mentoria especializada tem sido determinante para grupos que precisam profissionalizar a sucessão sem perder a essência.
Durante a palestra, o especialista explicou que o fenômeno da pandemia acelerou processos que levariam décadas. “É preciso entender que está a Terra está sob efeito de uma mudança onde o que ia acontecer em 50 anos, está acontecendo em 15. E aí eu pergunto a vocês: sua empresa familiar tem acompanhado essa mudança?”, questionou o especialista.
Segundo ele, muitas empresas estão “morrendo” por insistirem em decisões baseadas em sucessos do passado que não cabem mais no cenário atual.
O perigo do sucesso e a solidão do fundador
Um dos pontos centrais da mentoria de Cícero Rocha é a desconstrução da ideia de que a crise é o maior risco para o negócio. Para ele, o verdadeiro perigo mora na prosperidade. “A pior fase da empresa familiar é a do sucesso. É quando ela começa a não se autocontestar, o fundador vira Deus, os filhos os futuro deusezinhos, e ali começa a contaminação porque a empresa perde a sensibilidade”, afirmou.
Rocha destaca que essa fase costuma gerar o que ele chama de “desorganização invisível”. São problemas que não aparecem no balanço financeiro, como decisões travadas, conflitos silenciosos e poder mal distribuído, mas que geram um colapso quando ocorre um imprevisto, como o afastamento de um líder.
“Essa solidão do empresário está levando muita gente a quebrar. Ele precisa de aconselhamento externo com experiência, que fale a linguagem dele”, reforçou o consultor.

Case JBS Motors: a sucessão na prática
O encontro também serviu para apresentar o case real da JBS Motors, empresa que há 35 anos atua no mercado automotivo de Pernambuco e que buscou o Instituto Empresariar para organizar sua governança. O processo envolveu a família JBS Galvão — Solon Galvão (Presidente), seus filhos Saulo e Solon Filho, e a neta Júlia Galvão, representando a terceira geração.
A mentoria na JBS focou em quatro pilares fundamentais como a estrutura de poder, com a organização do organograma para definir claramente os papéis de cada membro da família e dos executivos; um plano estratégico, que envolve a criação de uma capacidade mínima de previsibilidade em um mercado volátil; a performance comercial, que implementa modelos de acompanhamento de resultados; e RH estratégico, com profissionalização da seleção e gestão de pessoas, área crítica em empresas familiares.
“Não foi um projeto, foi uma decisão de amadurecimento”, resumiu Cícero Rocha sobre a trajetória da JBS. Ele ressaltou que a governança não deve ser vista como uma burocracia, mas como uma ferramenta para equilibrar as forças entre sócios, negócios, família e indivíduo, garantindo que a empresa sobreviva às próximas gerações.
Cuidado com a “solução simples”
O especialista encerrou alertando sobre soluções genéricas vendidas na internet que prometem milagres em 90 dias. Para Rocha, a longevidade exige profundidade e o entendimento de que excluir a família não é a resposta.
“Todo problema complexo tem uma solução simples que não funciona. Uma dessas é excluir a família. Isso cria um imbróglio por conta de uma solução rasa. O maior risco na empresa familiar não é o mercado, é a falta de estrutura interna”, concluiu.
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