
A alta do querosene de aviação anunciado pela Petrobras esta semana por conta da escalada do conflito no Oriente Médio ainda não provocou uma mudança brusca no comportamento do turista brasileiro, mas já acende um sinal de alerta no setor. Sem relatar queda relevante nas reservas até agora, representantes da hotelaria e das operadoras de turismo ouvidos pelo Movimento Econômico afirmam que o mercado acompanha com cautela os próximos passos da crise, diante do risco de passagens mais caras, ajustes nas rotas aéreas e um possível redirecionamento da demanda para destinos nacionais.
Na quarta-feira (1º), a Petrobras anunciou um reajuste de 55% no querosene de aviação (QAV), que gerou reação imediata da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), que representa as empresas Azul, Boeing, Gol, Gol Log, Latam, Latam Cargo, Rima, Sideral e Total Express.
Para a entidade, com o reajuste, somado ao aumento de 9,4% em vigor desde 1º de março, o combustível passa a responder por 45% dos custos operacionais das companhias aéreas.
“A medida tem consequências severas sobre a abertura de novas rotas e a oferta de serviços, restringindo a conectividade do país e a democratização do transporte aéreo”, diz a Abear.
No mesmo dia, a Petrobras informou que vai parcelar o reajuste anunciado para o querosene de aviação (QAV). Distribuidoras que atendem à aviação comercial poderão optar por pagar apenas 18% de aumento e parcelar a diferença em até seis vezes, a partir de julho.
O diretor comercial da operadora de turismo Schultz, Rodrigo Rodrigues, disse ao Movimento Econômico que o cenário internacional ainda não alterou de forma significativa o comportamento de compra dos clientes da operadora. Segundo ele, o impacto segue bastante limitado e, até o momento, não há sinais de mudança estrutural na demanda.
“O comportamento segue bastante estável, sem mudanças relevantes. Existe, sim, um leve aumento na atenção do cliente e do agente no momento da decisão, mas nada que indique uma alteração estrutural”, afirmou.
Rodrigues pondera que ainda é cedo para medir com mais precisão os efeitos do aumento do preço do querosene de aviação sobre o consumidor final. Para ele, é preciso cautela para evitar alarde antes que o impacto efetivo chegue ao mercado de forma mais clara.
“É preciso cautela para não gerar alarde desnecessário. O turismo é muito sensível à percepção, e muitas vezes o comportamento de compra é influenciado mais por notícias alarmistas do que pela realidade concreta do mercado”, disse.

Imprevisibilidade vira principal preocupação da hotelaria
Na hotelaria, a leitura segue linha semelhante. Em entrevista ao Movimento Econômico, o Country Manager Brasil da BWH Hotels, Ricardo Manarini, afirma que a rede ainda não sentiu impacto direto dos reajustes no comportamento dos hóspedes ou nas reservas. O principal desconforto, segundo ele, está na falta de previsibilidade sobre a duração da crise e seus desdobramentos sobre toda a cadeia do turismo.
“A princípio, a gente não sentiu ainda o impacto dos aumentos, principalmente do combustível. Mas é inevitável que eles venham. O grande receio hoje é quanto tempo isso vai durar, até quanto tempo a guerra vai durar”, afirmou.
Para Manarini, essa imprevisibilidade afeta o setor porque o mercado responde de forma muito rápida quando empresas e consumidores percebem risco de aumento mais forte de custos. Na prática, o temor é menos o reajuste imediato e mais a incapacidade de projetar o comportamento da demanda no médio prazo.

Turismo corporativo tende a reagir antes do lazer
Entre os diferentes segmentos do turismo, a expectativa é de que o turismo corporativo sinta primeiro qualquer piora mais forte do cenário. Na avaliação de Manarini, empresas conseguem reagir com mais rapidez ao aumento de custos, substituindo deslocamentos por reuniões virtuais e contendo despesas enquanto o ambiente permanece incerto.
“Uma empresa que tinha ali um planejamento, um orçamento com viagens, consegue rapidamente não viajar para visitar seu cliente e opta por fazer uma videoconferência. Não vão parar os negócios, mas vão evitar esse gasto nesse momento”, explicou.
No lazer, o efeito tende a ser mais lento. Isso porque muitas viagens já foram compradas, há planejamento familiar envolvido e o desejo de viajar segue forte mesmo em contextos adversos. Ainda assim, a avaliação é de que, se os custos continuarem subindo, o impacto deve aparecer mais à frente também nesse segmento.
“Lazer impacta, mas é um impacto que a gente vai ver um pouco mais lá na frente. Já o corporativo, eu sinto que isso é mais imediato”, disse o executivo.

Brasil e Nordeste podem se beneficiar de um rearranjo da demanda
Se por um lado o aumento do querosene e a instabilidade internacional elevam a pressão sobre o turismo, por outro o cenário pode abrir espaço para uma redistribuição da demanda em favor do turismo em destinos nacionais. Essa é uma das leituras compartilhadas tanto pela hotelaria quanto pela operadora de turismo.
Na visão da Schultz, hoje não há risco claro de retração, mas pode haver uma migração gradual para alternativas mais próximas, mais acessíveis e com melhor relação custo-benefício. Nesse cenário, o Brasil e especialmente o Nordeste tendem a ganhar competitividade.
“O turismo doméstico, especialmente o Nordeste, tem uma base muito sólida, clima, experiência e boa infraestrutura e naturalmente se torna mais competitivo em cenários de pressão no internacional”, afirmou Rodrigo Rodrigues.
Ele ressalta, porém, que esse movimento ainda depende do tamanho real do impacto sobre os preços. “Mais do que uma substituição, o que enxergamos é uma ampliação de possibilidades, com o Brasil ganhando espaço dentro da decisão do cliente”, disse.
Manarini também vê espaço para esse rearranjo. Segundo ele, o encarecimento das viagens internacionais e a insegurança envolvendo determinados destinos podem levar parte do público a reconsiderar seus planos e optar por roteiros domésticos ou regionais.
“Talvez esse turista que iria fazer uma viagem internacional prefira conhecer um destino nacional. Acho que o Brasil pode se beneficiar bastante disso”, afirmou.
Preço, parcelamento e custo-benefício ganham peso na decisão
Mesmo sem uma retração visível, o consumidor já está mais atento às condições de compra. Segundo a Schultz, parcelamento, promoções e produtos bem estruturados devem ganhar ainda mais relevância, especialmente em um ambiente em que a viagem continua sendo prioridade para muitas famílias, mas precisa caber melhor no orçamento.
“O consumidor está mais atento às condições. O que percebemos é uma valorização maior de oportunidades bem estruturadas: parcelamentos sem entrada, campanhas promocionais e produtos com boa relação custo-benefício ganham ainda mais força”, afirmou Rodrigo Rodrigues.
Na avaliação da operadora, isso não significa abandono da viagem, mas uma busca mais estratégica por alternativas viáveis. Viagens mais curtas, regionais e até roteiros com deslocamento em carro próprio podem ganhar espaço, caso os custos do aéreo avancem de forma mais intensa.

Hotéis revisam estratégias para enfrentar pressão sobre custos
Na hotelaria, o aumento de custos também pressiona a operação, ainda que os reflexos mais fortes sobre a demanda não tenham aparecido até agora. Manarini avalia que, se a crise se prolongar, os hotéis terão de rever processos, apostar mais em tecnologia e buscar novas formas de absorver parte da pressão sem perder competitividade.
Segundo ele, esse movimento já vem desde a pandemia, quando o setor foi obrigado a reestruturar equipes, rever despesas e acelerar processos de modernização. Agora, a possibilidade de um novo choque de custos volta a exigir respostas rápidas da gestão.
“Os hotéis já vêm desde a pandemia numa reestruturação muito forte. Também vêm investindo em tecnologia, principalmente na distribuição, e isso ajuda a criar espaço para reduzir custo de operação final”, afirmou.
Ao mesmo tempo, ele lembra que a hotelaria costuma ser uma das pontas mais pressionadas na composição dos pacotes, mesmo quando o custo aéreo é o primeiro a disparar. “A cadeia toda vai ser pressionada, mas o hotel acaba sendo sempre mais esmagado nisso. O cliente olha o custo total da viagem e o hotel tem que caber nesse pacote”, finalizou.
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