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Habitat Marte: cultivo de tomates em “planeta” no RN une ciência espacial e semiárido

Habitat Marte colheu tomates com reúso de água e energia solar no RN. Experimento da UFRN, AEB e Embrapa testa tecnologias para missões espaciais e adaptação ao semiárido nordestino
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O projeto Habitat Marte está localizado na zona rural de Caiçara do Rio do Vento (BR 304), a 100 km de Natal. foto: Cícero Oliveira (Agecom/UFRN)
O projeto Habitat Marte está localizado na zona rural de Caiçara do Rio do Vento (BR 304), a 100 km de Natal. foto: Cícero Oliveira/Agecom-UFRN

Um experimento recente no Habitat  Marte, estação de simulação espacial instalada em Caiçara do Rio do Vento, no interior do Rio Grande do Norte, colheu tomates em estufa isolada com reúso de água e geração de energia solar — sistema concebido para reproduzir as condições de missões tripuladas ao planeta Marte.

A atividade envolveu a participação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), da Agência Espacial Brasileira (AEB) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), marcando uma nova etapa de integração entre pesquisa universitária, política espacial e desenvolvimento tecnológico em agricultura para ambientes extremos.

A presença da Embrapa contribui com competências em cultivo protegido, manejo de solo e automação agrícola, enquanto a UFRN coordena a operação científica e logística do habitat. A AEB, por sua vez, apoia institucionalmente o projeto no escopo da política espacial brasileira. Essa composição tripartite reforça o potencial do Habitat Marte como espaço de experimentação para tecnologias sustentáveis com aplicação tanto em futuros assentamentos espaciais quanto na adaptação produtiva ao semiárido nordestino.

A estação espacial análoga é a primeira no Hemisfério Sul. Foto: Cícero Oliveira/Agecom-UFRN
A estação espacial análoga é a primeira no Hemisfério Sul. Foto: Cícero Oliveira/Agecom-UFRN

Habitat Marte: da UFRN ao sertão potiguar

Coordenado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, o Habitat Marte foi idealizado pelo professor Júlio Rezende a partir de sua pesquisa de pós-doutorado, com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

A estação, localizada a cerca de 100 km de Natal, simula condições de vida em Marte com o uso de trajes pressurizados, reciclagem de água, produção de energia solar e cultivo em estufas, adaptando os testes ao clima e ao solo da Caatinga.

Inspirado na estação norte-americana Mars Desert Research Station, o projeto busca desenvolver e validar tecnologias aplicáveis a missões espaciais e, simultaneamente, a regiões de clima extremo na Terra. Desde 2017, o habitat já realizou mais de 200 missões, com equipes compostas por pesquisadores nacionais e estrangeiros em diferentes áreas do conhecimento.

A estação também atua como ambiente multidisciplinar para educação, ciência e inovação, reunindo profissionais da engenharia, agronomia, medicina, ciências humanas, psicologia e tecnologia. A UFRN mantém a infraestrutura e lidera as atividades científicas do projeto.

AEB e a política espacial brasileira

A Agência Espacial Brasileira é responsável pela articulação do setor espacial no país e tem ampliado sua atuação em projetos que integram ciência, tecnologia e formação de recursos humanos. A presença da AEB no Habitat Marte fortalece a inserção do projeto potiguar nas diretrizes da política espacial brasileira.

Desde 2021, a agência apoia institucionalmente o habitat como parte da preparação para missões espaciais reais, considerando que ambientes análogos são etapas essenciais para testar sistemas de suporte à vida, protocolos operacionais e tecnologias de produção em ambientes hostis. A atuação da AEB também conecta o projeto a redes internacionais e ao Programa Artemis, conduzido pela agência espacial dos Estados Unidos (Nasa).

O objetivo inicial foi montar no Habitat Marte uma estrutura de cultivo em ambiente protegido
O objetivo inicial foi montar no Habitat Marte uma estrutura de cultivo em ambiente protegido. Foto: Júlio Rezende/UFRN

Embrapa leva expertise agrícola à missão 226

A Missão 226, realizada em novembro, foi a primeira missão espacial análoga com participação formal da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. A atividade ocorreu no âmbito da Rede Space Farming Brazil, coordenada pela Embrapa e pela AEB, com foco em tecnologias agrícolas para ambientes com escassez de água, radiação elevada ou ausência de solo fértil.

Participaram da missão os pesquisadores Ítalo Guedes e Juscimar da Silva, da Embrapa Hortaliças (DF), que conduziram o experimento com tomates; Renato Torres, da Embrapa Agricultura Digital (SP), responsável por testar sensores de internet das coisas (IoT); e Clarissa Castro, da Diretoria de Pesquisa e Desenvolvimento, que implantou modelo de gestão e rastreabilidade para missões científicas simuladas.

Os pesquisadores também realizaram visitas técnicas a hortas comunitárias da região, avaliando possibilidades de adaptação das tecnologias testadas no habitat a contextos locais de produção agrícola no semiárido.

Pesquisadores da missão 226-Embrapa no interior do Habitat Marte, que reproduz o ambiente de uma base fora do planeta. A partir da esquerda: Julio Rezende, Renato Torres, Juscimar da Silva, Ítalo Guedes e Clarissa Castro
Pesquisadores da missão 226-Embrapa no interior do Habitat Marte, que reproduz o ambiente de uma base fora do planeta. A partir da esquerda: Julio Rezende, Renato Torres, Juscimar da Silva, Ítalo Guedes e Clarissa Castro. Foto: Julio Rezende/UFRN

Tecnologias espaciais com uso potencial no Nordeste

De acordo com os responsáveis pela missão, os sistemas de cultivo testados no Habitat Marte — com reúso de água, manejo racional de nutrientes e controle climático — podem ser adaptados para ampliar a produção sustentável em áreas de baixa disponibilidade hídrica. O projeto também contribui com dados para políticas públicas voltadas à segurança alimentar, inovação tecnológica e convivência com o semiárido.

A coordenadora da Rede Space Farming Brazil, Alessandra Favero, pesquisadora da Embrapa Pecuária Sudeste (SP), destaca que os experimentos têm duplo impacto: geram conhecimento para o setor espacial e oferecem soluções práticas para populações vulneráveis às mudanças climáticas.

Bem-estar e protocolos operacionais

A missão incluiu também aspectos ligados à saúde física e mental dos participantes. A pesquisadora Clarissa Castro, que é instrutora voluntária de hatha yoga, conduziu sessões da prática como parte da simulação, testando seu uso em ambientes de isolamento e estresse. A iniciativa está alinhada a protocolos de bem-estar adotados por agências espaciais em missões reais.

As atividades foram desenvolvidas com base em procedimentos de confinamento, simulação de falhas, resposta a emergências, avaliação de recursos e gestão de dados. O modelo poderá ser replicado em outras missões análogas conduzidas no Brasil.

*Com informações da Embrapa e da AEB

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