
Nos últimos dez anos, a agricultura nordestina se deslocou de vez para onde há máquina, água e estrada. Cerrado baiano, sul do Piauí e margens do São Francisco definem hoje o mapa da produção rural na região. Em 2024, esses polos concentraram quase um terço do valor agrícola de todo o Nordeste.
Os dados estão na nova edição da Produção Agrícola Municipal (PAM 2024), divulgada na quarta-feira (11) pelo IBGE. Entre os destaques, a soja lidera com folga, seguida pelo milho de segunda safra e pelas frutas irrigadas do semiárido. Bahia e Piauí respondem por mais de 60% do valor agrícola regional.
São Desidério (BA), Uruçuí (PI) e Petrolina (PE) aparecem entre os maiores produtores da região, em universos completamente distintos: grãos mecanizados no Cerrado e frutas tropicais sob irrigação no Vale do São Francisco.
Soja e milho dominam o Cerrado baiano e o sul do Piauí
A soja segue como o principal produto agrícola do Nordeste, com 13,4 milhões de toneladas colhidas em 2024, quase toda concentrada na Bahia e no Piauí. Municípios como São Desidério, Formosa do Rio Preto, Correntina, Luís Eduardo Magalhães e Baixa Grande do Ribeiro movimentaram, juntos, mais de R$ 18 bilhões apenas com a oleaginosa.
O milho, em segunda safra, completa a lógica produtiva do Cerrado. No Piauí, foram 2,2 milhões de toneladas; no Maranhão, 1,7 milhão; e na Bahia, 1,6 milhão. A cultura ganha espaço no intervalo entre as safras de soja, com base em sistemas de plantio direto e uso extensivo de sementes híbridas e insumos industriais.
O Matopiba, fronteira agrícola que reúne parte de quatro estados (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), concentrou os dez maiores PIBs agrícolas do Nordeste em 2024. Oito deles estão na Bahia, dois no Piauí e um no Maranhão. Juntos, esses municípios somaram R$ 29,2 bilhões em valor de produção, o equivalente a 28,6% de tudo o que foi gerado no campo nordestino.
A expansão da agricultura no Matopiba é resultado direto da política de ocupação do Cerrado iniciada nos anos 1990, com incentivos fiscais, investimento em correção do solo e a chegada de grandes grupos agroindustriais. No caso baiano, o Oeste se transformou em principal área agrícola do estado, superando inclusive zonas tradicionais como o Recôncavo e a Chapada Diamantina.
Pecuária extensiva dá lugar a lavouras tecnificadas
No sul do Piauí, municípios como Uruçuí, Baixa Grande do Ribeiro, Ribeiro Gonçalves e Bom Jesus passaram por uma reconfiguração territorial completa nas últimas duas décadas. Áreas antes voltadas à pecuária extensiva foram convertidas em lavouras tecnificadas, com forte presença de empresas de fora da região, sistemas de pivô central e máquinas de grande porte.
A infraestrutura logística, no entanto, ainda limita o avanço da competitividade. A dependência de rodovias em mau estado e a ausência de terminais ferroviários ou portuários próximos elevam os custos e reduzem a margem dos produtores. A chamada “rodovia da soja”, entre Barreiras e Luís Eduardo Magalhães, é frequentemente citada como gargalo logístico, apesar de sua importância.
Mesmo com essas restrições, os grãos seguem como motor econômico do Cerrado nordestino. Os dados da PAM 2024 confirmam que as lavouras de soja e milho responderam por mais de R$ 22 bilhões na Bahia e no Piauí — o equivalente a 72% do valor agrícola dos dois estados somados.

Frutas irrigadas sustentam o semiárido
Do lado oposto da geografia produtiva, o Vale do São Francisco sustenta a fruticultura irrigada, voltada à exportação. Em Juazeiro (BA), o valor da produção de frutas em 2024 passou de R$ 1,1 bilhão. Petrolina (PE) alcançou R$ 973 milhões. Ambas seguem líderes nacionais na exportação de manga e uva.
Casa Nova (BA), terceiro polo da fruticultura irrigada regional, também mantém produção relevante. Embora fora do ranking dos maiores PIBs agrícolas, o município apresenta expansão contínua na produção de banana e goiaba.
A irrigação segue sendo a base técnica da fruticultura no semiárido. O uso das águas do rio São Francisco, por meio de canais públicos e pivôs privados, garante estabilidade produtiva mesmo em anos com pouca chuva. A cadeia é voltada principalmente à exportação, com destaque para Europa e América Latina.
No entorno de Petrolina e Juazeiro, a fruticultura irrigada começou a se consolidar nos anos 1980, com os primeiros projetos públicos de irrigação estruturados pelo governo federal. O Perímetro Irrigado Senador Nilo Coelho, em Pernambuco, e o Projeto Curaçá, na Bahia, foram os marcos de uma virada estrutural na agricultura do semiárido.

Tecnologia para chegar à manga modelo exportação
Atualmente, mais de 80% da manga e da uva exportadas pelo Brasil têm origem no Vale do São Francisco. A produção se baseia em ciclos contínuos, colheitas escalonadas e protocolos de qualidade exigidos por grandes redes varejistas internacionais. O uso de defensivos e fertilizantes é controlado por padrões rígidos de rastreabilidade, voltados ao mercado externo.
Além das frutas de exportação, o semiárido irrigado também produz alimentos voltados ao abastecimento regional. A banana de Casa Nova, o mamão de Curaçá e a goiaba de Santa Maria da Boa Vista abastecem mercados do Nordeste e do Sudeste. Há ainda produção de maracujá, limão, melancia e coco verde em menor escala.
Mesmo com a relevância econômica, o modelo irrigado enfrenta riscos estruturais. O aumento no custo da energia elétrica, os limites de vazão do São Francisco e a crescente competição entre usos — agricultura, abastecimento humano e geração de energia — colocam em alerta produtores da região. A sustentabilidade do sistema depende de investimentos em reuso, eficiência hídrica e infraestrutura pública.

Cana, cacau e mandioca resistem em faixas tradicionais
Em faixas do litoral e do agreste, culturas permanentes mantêm presença, mas fora do eixo da alta produtividade. A cana-de-açúcar resiste em Pernambuco, Alagoas e Paraíba, com produção voltada para usinas locais. O cacau mantém base no sul da Bahia, principalmente em Ilhéus, Itabuna, Uruçuca e Camacan, mas sem a pujança histórica da lavoura cabruca.
A mandioca ainda aparece em áreas do Maranhão, Ceará e norte do Piauí. Quase toda cultivada por pequenos produtores, a cultura segue com baixa rentabilidade e enfrenta queda de área plantada.
A produção de cana no Nordeste tem trajetória de declínio desde os anos 2000, impactada por dívidas das usinas, envelhecimento dos canaviais e perda de competitividade frente ao Centro-Sul. Ainda assim, Pernambuco produziu mais de 10 milhões de toneladas em 2024, com destaque para municípios da Mata Sul como Palmares, Ribeirão e Barreiros. Alagoas e Paraíba somam juntas cerca de 8 milhões de toneladas.
No sul da Bahia, o cacau ainda sustenta milhares de pequenos produtores e trabalhadores agrícolas, mas a produtividade permanece baixa. A vassoura-de-bruxa, praga que devastou os cacauais a partir dos anos 1990, reduziu drasticamente a área produtiva. Nos últimos anos, programas de renovação de lavoura e adoção de sistemas agroflorestais vêm tentando reverter esse cenário, com avanços pontuais.
A mandioca, por sua vez, se mantém como cultura de subsistência e abastecimento local. No Maranhão, Piauí e Ceará, a raiz é base da alimentação rural e abastece pequenas agroindústrias de farinha e fécula. A produção é marcada por baixo uso de tecnologia, pouco acesso a crédito e vulnerabilidade climática.
Embora com menor expressão econômica frente à soja e à fruticultura, essas lavouras têm importância social e territorial. A cana-de-açúcar ainda sustenta empregos formais em zonas canavieiras de Pernambuco e Alagoas; o cacau mantém viva a dinâmica rural no sul baiano; e a mandioca é estratégica para a segurança alimentar em dezenas de microrregiões com baixo dinamismo agrícola.
Nos dados da PAM 2024, essas três culturas somadas representaram cerca de R$ 7,9 bilhões no Nordeste, o que equivale a 7,7% do valor total da produção agrícola da região. Apesar da proporção reduzida, seu peso territorial e social segue relevante.
Concentração produtiva e desigualdades estruturais
A PAM 2024 confirma que o agro nordestino se tornou altamente concentrado. Em 2024, o valor total da produção agrícola na região foi de R$ 102,1 bilhões. Só a Bahia respondeu por R$ 47,3 bilhões, quase metade do total. Pernambuco aparece em segundo, com R$ 11,5 bilhões, seguido por Piauí (R$ 11,2 bilhões).
A soja respondeu por 53% de todo o valor da produção agrícola nordestina. As frutas irrigadas somaram 21%. Os demais produtos — milho, cana, algodão, café, feijão, mandioca, cacau — juntos, representam 26%, segundo o levantamento.
Os dados também revelam uma geografia concentrada da produção: dez municípios, todos no Matopiba, foram responsáveis por R$ 29,2 bilhões — o equivalente a 28,6% do valor agrícola da região. O restante dos mais de 1.700 municípios nordestinos ficou com 71,4%, o que reforça o desequilíbrio estrutural do setor.
Essa concentração está diretamente associada ao grau de tecnificação, ao acesso à infraestrutura e à lógica de integração com grandes cadeias do agronegócio. Municípios com produção irrigada, mecanização, crédito rural acessível e presença empresarial conseguem se manter produtivos mesmo em contextos adversos de clima e mercado.

O outro lado do mapa do agro nordestino
No outro extremo, há centenas de municípios com baixa produtividade, dependentes da agricultura de subsistência e vulneráveis a oscilações climáticas e falta de política agrícola efetiva. Mesmo estados com tradição rural, como Paraíba, Sergipe e Rio Grande do Norte, têm desempenho modesto nos indicadores da PAM, com queda em área plantada e estagnação do valor gerado no campo.
A diferença entre os blocos produtivos tende a crescer, conforme adverte o próprio IBGE. “A produção agrícola do Nordeste é cada vez mais dependente dos polos mecanizados e irrigados, com desafios logísticos e climáticos em áreas menos estruturadas”, aponta o informativo técnico divulgado junto aos dados da pesquisa.
Na prática, o campo nordestino se organiza em dois ritmos: o que opera por safra e mercado, e o que segue exposto à seca, à informalidade e à ausência do Estado. O risco é transformar parte do território agrícola da região em zonas economicamente invisíveis, ainda que ativas socialmente.
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