
Ancorado em projetos de energia solar e indústria leve, o Nordeste vem ampliando a atração de investimentos chineses, chegando a 15% do número total dos projetos confirmados em 2024, segundo relatório do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), divulgado nesta quinta-feira (4). O avanço ocorre em um contexto de mudança no perfil geográfico dos aportes, que vêm migrando da antiga hegemonia do Sudeste para outros polos do país. Entre 2007 e 2024, os investimentos chineses no Brasil somaram US$ 77,5 bilhões, distribuídos em 303 projetos confirmados. O Nordeste concentrou 15% do total, o equivalente a 58 empreendimentos, com aportes estimados entre R$ 11,9 bilhões e R$ 13,2 bilhões.
De acordo com o levantamento, o Nordeste é a segunda região com maior número de projetos chineses confirmados no Brasil no período analisado, atrás apenas do Sudeste, que concentrou 202 empreendimentos (54% do total). A Bahia lidera entre os estados nordestinos, com 5,9% dos projetos nacionais, o que a posiciona em quarto lugar no ranking geral, superando o Rio de Janeiro. Na sequência aparecem Ceará (2,9%), Pernambuco e Piauí (ambos com 2,4%).
Para o pesquisador associado da Tongji University, em Xangai, Emanuel Leite Junior, a descentralização responde tanto a fatores conjunturais quanto estratégicos. “A descentralização reduz riscos políticos, econômicos e logísticos. Além disso, a presença chinesa também tem um caráter de promoção da imagem do país, no sentido em que os benefícios à economia local criam uma percepção positiva da própria China”, avaliou. Ele lembrou que, na África, a ampliação da presença chinesa teve impactos semelhantes na percepção pública.

Sudeste perde participação, Nordeste e Sul avançam
O estudo mostra que o Sudeste, historicamente majoritário na recepção de aportes, perdeu espaço nos últimos anos. Após atingir pico de 79% dos projetos em 2021, a região caiu para 48% em 2024 — o menor percentual desde o início da série histórica. O Nordeste, que chegou a liderar os investimentos chineses no país em 2019, retomou gradualmente sua participação após queda pontual durante a pandemia, alcançando 14% dos projetos confirmados em 2024.
Na avaliação de Emanuel Leite, esse movimento no Nordeste é estrutural. “O crescimento da presença chinesa no Nordeste é estrutural e estratégico, com seu potencial em energia renovável, infraestrutura e logística, tecnologia e inovação, abundância em terras férteis. É importante ressaltar que esta tendência não pode ser dissociada do protagonismo crescente do Consórcio Nordeste”, disse, citando as missões oficiais realizadas pelos governadores da região à China.
Bahia, Ceará e Maranhão recebem projetos estratégicos
A Bahia figura entre os principais destinos da presença chinesa em eletricidade, setor que liderou os investimentos em 2024 com US$ 1,43 bilhão. O estado abriga o complexo da montadora BYD em Camaçari, voltado à produção de veículos elétricos, chassis para ônibus e baterias, com investimento de R$ 3 bilhões. Além disso, a Bahia tem o megaprojeto da ponte Salvador–Itaparica, orçado em aproximadamente R$ 9 bilhões, com participação de grupos chineses na estruturação e implantação.
No Maranhão, a atuação da State Grid Brazil Holding (SGBH), subsidiária da estatal chinesa State Grid Corporation, inclui projetos de transmissão e distribuição de energia elétrica com investimentos estimados em R$ 5 bilhões.
No Ceará, além do parque solar da CGN em Russas, a empresa firmou acordo com o governo estadual para desenvolver projetos de energia renovável e hidrogênio verde, com aporte de R$ 650 milhões. O estado também recebeu anúncio da instalação de um megadatacenter da ByteDance (controladora do TikTok), em Caucaia, com previsão de R$ 55 bilhões.
Segundo Emanuel Leite, além da energia, os investimentos chineses no Nordeste têm avançado em logística e tecnologia. “Temos visto aportes em portos como Itaqui, no Maranhão, e Pecém, no Ceará, ferrovias no Piauí, além da ponte Salvador-Itaparica, na Bahia. Há também a instalação de datacenters, como o da ByteDance em Caucaia, e parcerias em pesquisa, como a da Windey Energy com o Senai-Cimatec na Bahia”, destacou.
Novos polos em Piauí e Alagoas
O Piauí consolidou-se como destino de grandes empreendimentos chineses. O estado abriga o Parque Solar Nova Olinda, operado pela CGN, com investimento de cerca de R$ 1,56 bilhão, e também um hub de energia renovável anunciado em 2024, com aporte de R$ 3 bilhões. Além disso, empresas chinesas têm demonstrado interesse em ferrovias estratégicas e projetos de conectividade digital.
Em Alagoas, a Baiyin Nonferrous Group adquiriu a mina de cobre Serrote, com aporte estimado em R$ 2,4 bilhões, ampliando a presença chinesa no setor de mineração do Nordeste.
Transição energética e Belt and Road
Emanuel Leite afirmou que a transição energética já é eixo central da estratégia chinesa no Brasil. “O compromisso anunciado por Xi Jinping em 2020 — atingir o pico de emissões de carbono até 2030 e a neutralidade até 2060 — reposicionou a China como líder em transição energética. Financiar infraestrutura verde em países do Sul Global permite que a China consolide sua posição como ator-chave da economia pós-carbono”, explicou.
Ele acrescentou que esse processo está conectado à Belt and Road Initiative (BRI), maior projeto geopolítico contemporâneo da China. Embora o Brasil não tenha adesão formal, há sinergia com a estratégia. “Isso se reflete neste crescimento dos investimentos chineses no nosso país, em particular no Nordeste, como a Rota Marítima da BRI e o grande projeto da ferrovia que irá conectar Ilhéus (BA) ao Porto de Chancay, no Peru”, disse.
Tecnologia, ciência e cooperação acadêmica
O pesquisador ressaltou que o Nordeste já disputa projetos de tecnologia e ciência. Além do datacenter da ByteDance no Ceará, ele citou o acordo entre a Paraíba e o Departamento de Ciência e Tecnologia de Yangzhou, no projeto BINGO, voltado a pesquisas espaciais. Mencionou ainda planos do Consórcio Nordeste como o programa Nordeste Conectado, em estudo com empresas como Huawei e ZTE, que pretendem atuar em tele-educação, tele-saúde e segurança pública. A ZTE já participa do “Piauí Conectado”, com cerca de 5 mil km de fibra ótica instalada.
Emanuel lembrou também do Programa Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres (CBERS), no Maranhão, e destacou que a academia desempenha papel estratégico nessa relação. “O papel da universidade e da academia na diplomacia econômica entre Brasil e China é estratégico e multifacetado. Elas atuam como ponte de conhecimento, inovação e credibilidade, fortalecendo a relação bilateral e criando condições para investimentos e parcerias sustentáveis”, afirmou.
Barreiras e próximos passos
Apesar do avanço, Emanuel apontou que ainda existem barreiras. “A principal reside do nosso lado. A China tem todo o interesse e disposição de ampliar e diversificar seus investimentos. Contudo, ainda cabe às autoridades públicas locais apresentar aos investidores como seu estado pode receber os investimentos chineses. É necessário se mostrar atrativo e demonstrar que seu estado tem condições para suprir as demandas e necessidades chinesas. É preciso investir em capacitação técnica e diplomática de equipes estaduais e municipais, realizar mais missões à China e, por que não, estabelecer escritórios no país.”
Investimentos chineses adicionais ultrapassam a estimativa do CEBC
Embora o relatório do CEBC contabilize até R$ 13,2 bilhões em aportes no Nordeste entre 2007 e 2024, grandes projetos realizados na região ajudam a dimensionar melhor a presença chinesa, ainda que nem todos estejam incluídos na metodologia oficial. Casos como a BYD em Camaçari, a ponte Salvador–Itaparica, o datacenter da ByteDance em Caucaia, os investimentos da State Grid no Maranhão, os parques solares da CGN no Ceará e no Piauí, a mina de cobre Serrote em Alagoas, o projeto BINGO na Paraíba e a cooperação no programa CBERS no Maranhão mostram que os volumes aplicados no Nordeste já superam o patamar indicado pelo relatório, reforçando a relevância estratégica da região para a China.
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