
O excedente de energia renovável do Nordeste acumulou prejuízo de R$ 6,5 bilhões ao setor gerador em 2025, segundo levantamento da Volts Robotics, e transformou o curtailment, corte compulsório de geração determinado pelo operador do sistema quando a oferta de energia supera a capacidade de escoamento pela rede de transmissão, no principal motor de atração de investimentos em mineração de bitcoin na região. Somente no domingo (8), o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) cortou até 12.609 MW de geração eólica e solar na região, volume superior à capacidade instalada da Usina Hidrelétrica de Belo Monte (11 GW), a maior hidrelétrica inteiramente brasileira, de acordo com o Informativo Preliminar Diário da Operação (IPDO).
Publicada nesta terça-feira (11) pelo jornal cearense Diário do Nordeste, a informação de que a Casa dos Ventos, maior geradora privada de energia renovável do país, prevê o comissionamento de um data center de mineração de criptomoedas acoplado a uma usina própria no Nordeste entre julho e agosto de 2026 integra um movimento mais amplo: empresas internacionais já somam mais de US$ 320 milhões em projetos estruturados na região.
O projeto da Casa dos Ventos será executado em parceria com uma empresa de criptomineração, que investirá nos equipamentos. A informação foi confirmada por Itamar Lessa, diretor de comercialização da Casa dos Ventos, durante a I Feira da Indústria da Fiec, realizada no Ceará. A empresa avalia que a estratégia reduz em até 50% o prejuízo do curtailment na usina contemplada, com perspectiva de escalonamento para outros ativos do portfólio.
O local da usina não foi divulgado. O data center funcionará como unidade consumidora vizinha ao parque gerador, absorvendo a energia que seria cortada pelo ONS, e deve abrir caminho para a instalação futura de uma estrutura de maior porte.
Regulação, resposta da demanda e próximos passos
O Brasil não dispõe de regulamentação específica para o setor, embora a Lei 14.478/2022 tenha estabelecido diretrizes gerais para o mercado de ativos virtuais. A Casa dos Ventos adotará ainda neste semestre o mecanismo de resposta da demanda, autorizado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) ao ONS em julho de 2025, que consiste na redução programada do consumo de grandes clientes entre 19h e 22h em troca de descontos contratuais. Segundo Lessa, mineração de criptomoedas, resposta da demanda e exportação de energia compõem um conjunto de soluções em estruturação simultânea para mitigar o curtailment no Nordeste.
Em maio de 2025, o governo federal zerou o imposto de importação sobre equipamentos de mineração de bitcoin para empresas por meio da Resolução Gecex nº 726/2025, válida até dezembro de 2025, com objetivo declarado de atrair operações para estados nordestinos com geração excedente. O Ceará registra ainda a atuação da Pacto Energia, que opera mineração com excedente de pequenas centrais hidrelétricas. A Tether, emissora do USDT, maior stablecoin do mundo, anunciou em 2025 interesse em operações no Piauí.
Axia Energia na Bahia, Enegix no Piauí e Renova com US$ 200 milhões
A Axia Energia, antiga Eletrobras, iniciou em setembro de 2025 projeto piloto de mineração de bitcoin na Bahia, com uso de turbinas eólicas, painéis solares e baterias, confirmado por Juliano Dantas, vice-presidente de inovação da companhia, em entrevista à Reuters. No mesmo estado, a Renova Energia SA já atende cliente não identificado que investiu US$ 200 milhões em mineração com energia eólica, segundo o CEO Sergio Brasil.
No Piauí, a Enegix Global, sediada no Cazaquistão e operadora de dois grandes data centers no país asiático com capacidade combinada de 190 MW, assinou memorando de entendimento com autoridades locais durante a Brazil Energy Conference 2025, em Teresina, com a presença do governador Rafael Fonteles e da Investe Piauí.
O projeto prevê investimento de até US$ 120 milhões em Parnaíba, no litoral piauiense, com capacidade de até 100 MW em ciclo de maturação entre quatro e seis anos. Os equipamentos operam em formato plug-and-play, instalados em contêineres, o que reduz o tempo de implantação.
Segundo Mário Palombini, sócio brasileiro da Enegix, parte dos clientes da operação no Cazaquistão pode migrar automaticamente para o novo centro no Brasil. Estudo da startup Arthur Inc., em parceria com a Genial Investimentos, publicado em fevereiro de 2024, projetou que a monetização do excedente via mineração de bitcoin pode gerar até R$ 300 milhões em receita já em 2026, considerando crescimento de minigeradores solares com potência a partir de 500 kW.
Mineração irregular de bitcoin em Alagoas
O crescimento da atividade coexiste com operações irregulares. Em Porto Real do Colégio, no interior de Alagoas, a Polícia Civil do estado (PCAL), por meio da Diretoria de Inteligência Policial (Dinpol) com apoio da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), desarticulou em 9 de janeiro quatro fazendas clandestinas de mineração de criptomoedas na zona rural do município.
As estruturas utilizavam furto de energia elétrica em larga escala e bombeamento irregular de água do Rio São Francisco para resfriamento e funcionamento contínuo das máquinas. O consumo ilegal estimado era de 200 mil quilowatt-hora (kWh) por mês, equivalente ao consumo de aproximadamente mil residências, com prejuízo mensal de R$ 155 mil em energia furtada. Em cinco meses, o prejuízo total chegou a R$ 750 mil, segundo a polícia.
Segundo o delegado Thales Araújo, diretor da Dinpol, o consumo clandestino causava instabilidade e picos de tensão nos arredores, com queima de eletrodomésticos e prejuízos à população local. A investigação apura ainda possíveis conexões com sonegação fiscal e lavagem de dinheiro.
Mecanismo e dimensão do curtailment
Os cortes de geração determinados pelo ONS ocorrem por três razões: falta de infraestrutura de transmissão, com direito a ressarcimento ao gerador; atingimento do limite de capacidade das linhas de transmissão; ou excesso de oferta em relação à demanda, nos dois últimos casos sem direito a compensação. No domingo, o Nordeste respondeu pela maior parte dos cortes nacionais. O Sudeste/Centro-Oeste registrou corte máximo de 488 MW e o Norte, 125 MW. A carga total do sistema ficou em 75.803 MW médios no dia, com predominância da geração hidráulica.
O fenômeno acumula impacto desde outubro de 2021. Em quatro anos, as usinas do Ceará desperdiçaram quase 3,3 milhões de MWh, suficientes para abastecer 16,5 milhões de residências por um mês. A mineração de criptomoedas opera como carga flexível e interruptível: pode ser desligada e religada em minutos, adaptando-se às oscilações de disponibilidade sem comprometer contratos de fornecimento contínuo.
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