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Do posto ao frete, guerra do petróleo no Oriente Médio fere o bolso no Nordeste

Conflito entre EUA, Israel e Irã paralisa rotas marítimas, dispara diesel 20%, leva gasolina a R$ 7,50 no Nordeste e pressiona fretes e indústria regional por causa do petróleo
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Litro da gasolina passa dos R$ 7,40 no Recife e clientes reclamam da alta por causa da guerra do petróleo no Oriente Médio. Foto: Matheus Ribeiro/Folha de Pernambuco

O barril de petróleo saltou de cerca de US$ 60 para aproximadamente US$ 100 nos últimos dias — e o Nordeste já sente o choque nas bombas e nas estradas. O diesel acumula alta de 20% nos postos da região e o setor de transporte de cargas já opera em modo de contenção: a Federação das Empresas de Transporte de Cargas do Nordeste (Fetracan) — entidade fundada em 1987, sediada no Recife, que representa sindicatos em sete estados nordestinos — orientou suas filiadas a implantarem reajuste médio de 15% nos fretes enquanto aguardam o desfecho do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã.

Os preços nas bombas confirmam a pressão. Na Bahia, a gasolina chegou a R$ 7,50 em Salvador e no interior — o maior patamar registrado no Nordeste —, após quatro reajustes em uma semana pela Acelen. Em Pernambuco, o combustível ultrapassou R$ 7 na Região Metropolitana do Recife, levando o Procon Recife a autuar 12 postos nas Zonas Norte e Sul nesta quarta-feira (11 de março) por elevação sem justificativa. Na Paraíba, a gasolina chegou a R$ 7 e o diesel a R$ 8 em João Pessoa. No Piauí, postos em Teresina registravam gasolina a R$ 6,39 ainda sem reajuste formal da Petrobras.

No Ceará, o Sindipostos-CE confirmou em nota que acompanha os impactos do conflito no mercado internacional e que distribuidoras têm justificado reajustes com base nesse cenário. A entidade reforçou que postos funcionam como repassadores: os aumentos nas bombas ocorrem quando há reajustes na origem, nas distribuidoras.

Em Alagoas, o presidente do Sindicombustíveis-AL, James Thorp Neto, afirmou que o mercado é livre em todas as etapas da cadeia — produção, distribuição e revenda — e que cabe a cada agente determinar reajustes com base em sua estrutura de custos individualmente, sem interferência do sindicato sobre os preços praticados nos postos.

O quadro é estrutural para o Nordeste — região onde apenas 35% do combustível consumido provém da Petrobras, enquanto 65% vêm da refinaria da Acelen e de importadores, expondo o abastecimento regional diretamente à volatilidade do mercado internacional. Essa dependência foi destacada pelo presidente do Sindicombustíveis-PE, Alfredo Pinheiro Ramos, que afirmou que a tendência é de alta persistente enquanto o conflito não tiver desfecho.

Acelen pratica preço internacional e amplifica impacto na Bahia

O caso baiano revela a dimensão estrutural do problema. Antes da escalada do conflito, o litro da gasolina era vendido em média a R$ 5,50 no estado. Em uma semana, o valor ultrapassou R$ 7 — alta de cerca de 36% — após quatro reajustes promovidos pela Acelen, empresa responsável pela Refinaria de Mataripe desde a privatização em 2021.

Diferentemente da Petrobras, que abandonou a Paridade de Preço Internacional (PPI) há cerca de três anos, a Acelen mantém política de preços atrelada ao mercado externo. O secretário-executivo do Sindicombustíveis Bahia, Marcelo Travassos, explicou a distorção: enquanto as refinarias próprias da Petrobras recebem petróleo a um custo entre US$ 11 e US$ 15 por barril, a Refinaria de Mataripe paga cerca de US$ 88 — o preço internacional. “Isso sim é um absurdo”, afirmou.

Diante da disparada, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) solicitou ao Cade a abertura de investigação para apurar possíveis distorções no mercado de combustíveis em alguns estados, incluindo a Bahia. O diesel acumula alta de R$ 0,80 e a gasolina de R$ 0,52 desde o início do conflito no estado, segundo Travassos, que alertou para impactos no mercado de trabalho e no custo de vida caso a situação se prolongue.

Petrobras corta cotas e realiza leilão acima do preço de refinaria

Sem anunciar reajuste formal, a Petrobras adotou mecanismo que resultou em aumento efetivo para as distribuidoras. A estatal convocou reunião com distribuidoras, reduziu as cotas de venda em 50% e ofertou o volume restante em leilão pelo preço do mercado internacional — R$ 1,80 acima do valor praticado nas refinarias. “A Petrobras não anunciou o aumento, cortou as cotas pela metade. Ofertou a outra metade do diesel no leilão e vendeu por um preço R$ 1,80 acima do que a estatal comercializa nas suas refinarias”, afirmou Ramos. O diesel adquirido nessas condições começa a ser entregue a partir de 16 de março.

A repercussão na cadeia é direta: distribuidoras que compraram mais caro repassam aos postos, que repassam ao consumidor. “A relação de consumo só estoura no posto de gasolina”, completou o dirigente. Em nota, a Petrobras reiterou compromisso com atuação responsável e informou não antecipar decisões sobre manutenção ou reajustes de preços “por questões concorrenciais”. O Cade informou que avaliará os indícios para verificar se há elementos suficientes para abertura de investigação, sem comentar o caso por ora.

Rotas bloqueadas encarecem frete marítimo e pressionam setor já fragilizado

No plano logístico global, o conflito praticamente paralisou o tráfego comercial pelo Estreito de Ormuz — rota responsável por cerca de 20% do abastecimento mundial de petróleo. O presidente do Sistema Fecomércio/Sesc/Senac-PE, Bernardo Peixoto, afirmou que as principais armadoras já anunciaram a suspensão completa da passagem pelo estreito, pelo Bab el-Mandeb e pelo Canal de Suez, obrigando navios-tanque e embarcações de contêineres a desviar pelo Cabo da Boa Esperança — trajeto que adiciona entre 10 e 14 dias ao tempo de trânsito e eleva custos operacionais por meio de sobretaxas de risco de guerra e aumento emergencial de consumo de combustível.

O resultado é alta nas tarifas das rotas Ásia-Brasil, com impacto direto sobre importações de insumos e exportações de commodities como soja, minério de ferro, carne e açúcar. Segundo Peixoto, empresas de logística, transportadoras, armazéns e operadores portuários enfrentam margem de lucro comprimida e necessidade de repassar custos aos clientes, com prazos de entrega mais longos e preços mais altos ao consumidor final.

O choque chega sobre um setor já pressionado. Levantamento da NTC&Logística referente ao primeiro trimestre de 2025 — anterior ao conflito — mostrava que 62% das empresas de transporte de cargas no Brasil relatavam redução na rentabilidade, e 47% estavam renegociando contratos ou reduzindo rotas para manter a operação viável.

A plataforma Transvias, que reúne mais de 12 mil transportadoras cadastradas, registrou crescimento de 39,5% nas buscas por cotações de fretes fracionados em 2024 — de 693 mil para quase 971 mil consultas —, com destaque para o Nordeste, que liderou a expansão com alta de 90,46%. O modelo fracionado avançou como resposta à pressão de custos, mas não elimina a vulnerabilidade estrutural do setor diante de choques externos como o atual.

Fiepe alerta para transversalidade do petróleo

O impacto não se restringe ao combustível para veículos. Maurício Laranjeiras, gerente de Política Industrial da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (Fiepe), destacou que o petróleo funciona como insumo transversal na estrutura produtiva. “O petróleo é muito transversal na indústria: serve como matéria-prima para vários tipos de indústrias, como por exemplo a de plásticos, que vai sofrer com o aumento dos seus insumos”, afirmou. A pressão se propaga para a construção civil, que depende de derivados plásticos, para fornos industriais abastecidos por gás natural e para o coque de petróleo utilizado em processos metalúrgicos.

Para indústrias que importam matéria-prima derivada do petróleo, Laranjeiras mapeou uma tripla exposição simultânea: alta no custo do insumo, encarecimento do frete marítimo e aumento do custo logístico rodoviário interno — em um país cujo setor industrial é “muito dependente do modal rodoviário”. O dirigente ressaltou ainda que o cenário se soma a outros fatores de pressão já existentes, como taxa de juros elevada. “O petróleo é inflação líquida”, sintetizou Laranjeiras, ao descrever o efeito cascata sobre o consumidor final.

O desfecho do conflito permanece indefinido, e o ritmo de repasse dos custos ao longo da cadeia — do frete internacional ao posto de combustível — dependerá da duração e intensidade da instabilidade nas rotas do Oriente Médio.

Leia mais: Cade investigará alta de combustíveis e MME cria sala de monitoramento

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