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Eduardo Peixoto: “Inovar com impacto social é a essência do CESAR”

Nesta entrevista exclusiva, o CEO do CESAR revela ao ME como o centro de inovação vem se posicionando globalmente
Patricia Raposo
Patricia Raposo
De Recife CEO do Movimento Econômico [email protected]
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Eduardo Peixoto CEO do CESAR
Eduardo Peixoto CEO do CESAR /Foto: divulgação

Durante sua participação no Web Summit Rio, Eduardo Peixoto, CEO do CESAR (Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife), apresentou iniciativas que demonstram como o centro de inovação sediado no Recife vem se posicionando como uma referência nacional e internacional em soluções tecnológicas com foco em impacto social. Nesta entrevista exclusiva, a Patricia Raposo, ele fala dos projetos com a Petrobras, da criação de uma solução portuária em Suape, da expansão internacional em Portugal, e de iniciativas na área de educação e os desafios e ambições do novo centro nacional de cibersegurança, o CISSA.


Movimento Econômico: O CESAR participou do Web Summit Rio com um projeto em parceria com a Petrobras. Do que se trata?

Eduardo Peixoto: É um projeto voltado à análise de dados em tempo real para orientar ações com foco em impacto ambiental. É uma iniciativa que utiliza dashboards integrados e ferramentas analíticas específicas para compreender, com precisão, o que está acontecendo em operações complexas e redirecionar os esforços para aquilo que gera mais resultado. Essa é uma frente nova, mas que se soma a outras colaborações com a Petrobras, como o projeto com gêmeos digitais aplicados ao monitoramento de dutos de prospecção em águas profundas.

ME: E esse projeto dos gêmeos digitais, que já foi até premiado… o que ele envolve?

EP: É um projeto de ponta, que usa representações virtuais para simular objetos físicos — no caso, dutos em alto-mar. Ele permite visualizar, em tempo real, o desgaste e a utilização desses ativos. Esse trabalho já foi premiado duas vezes pela ANP como projeto mais inovador, além de ter sido reconhecido internacionalmente pela Society of Petroleum Engineers. Foi destaque também no maior evento de óleo e gás do mundo, realizado no Texas. É uma solução que une engenharia, dados e impacto ambiental, fortalecendo a capacidade da Petrobras de operar com mais segurança e eficiência.

ME: A Petrobras é uma das grandes parcerias. Mas o CESAR também desenvolveu uma solução para o Porto de Suape. Como nasceu esse projeto?

EP: Foi um projeto muito especial porque surgiu de uma demanda tecnológica real do Porto de Suape. Desenvolvemos uma plataforma digital de gestão portuária, tecnicamente chamada de PMIS – Port Management Information System – para substituir controles obsoletos baseados em planilhas e permitir uma gestão integrada e automatizada das operações. A ferramenta permite monitorar a chegada de navios, controlar alocação de berços, emitir faturas e manter conformidade com órgãos como a Receita Federal e Antaq.

ME: Essa plataforma pode ser usada por outros portos?

EP: Sim. Suape financiou o desenvolvimento, mas o contrato previa uma cláusula de propriedade intelectual permitindo a exploração comercial da tecnologia. Após aprovação do conselho de Suape, começamos a oferecer a solução para outros portos. Já estamos negociando com quatro terminais, incluindo o Porto de Santos e dois terminais privados. O modelo é vantajoso para todos: Suape recebe dividendos e atualizações constantes, e nós levamos a tecnologia a outros pontos logísticos estratégicos do país.

ME: Um dos projetos que também foi premiados é o batom inteligente. Fala um pouco desse produto.

EP: O batom inteligente que desenvolvemos foi premiado no SXSW. Ele envolve mecânica fina e eletrônica. Esse projeto também está entre os mais inovadores já criados pelo CESAR e tem chamado atenção por sua complexidade tecnológica e impacto. Grupo Boticário buscou o CESAR para desenvolver uma solução de beleza para pessoas com deficiência visual e motora, bem como restrições nos membros superiores. O objetivo era desenvolver uma tecnologia baseada em inteligência artificial, capaz de tornar possível a aplicação de batom automaticamente, sem borrar, diferenciando a pele dos lábios e do rosto com precisão.

ME: Como está a operação de vocês em Portugal?

EP: Portugal é um passo importante na nossa internacionalização. Começamos de forma enxuta, em modo startup, com o objetivo de aprender e adaptar o nosso modelo à realidade europeia. Já temos como cliente o grupo SONAE, um dos maiores conglomerados portugueses. A cultura de negócios é bem diferente, o ciclo de decisões é mais longo e as fontes de recursos variam. Mas há muito potencial, especialmente em soluções que unem o digital ao físico.

ME: Portugal é uma porta para a Europa…

EP: Sem dúvida. A ideia é complementar capacidades. Portugal tem uma indústria física muito desenvolvida – moldes, nanomateriais, baterias. Nós somos fortes no digital. Juntos, podemos criar soluções híbridas que respondem aos desafios atuais da sociedade. Estamos olhando para o longo prazo. Não temos o perfil de multinacional que investe pesado e sai se não der certo. Estamos lá para ficar e escalar com sustentabilidade.

CESAR School

ME: O CESAR também tem se dedicado ao campo da educação. Quais são os principais projetos hoje?

EP: Nossa faculdade, a CESAR School, acaba de receber nota 5 do MEC, o que nos orgulha bastante. Mas não estamos apenas no ensino superior. Atuamos também no ensino médio, com projetos como o NAVE – em parceria com o Oi Futuro – e o programa Florescendo Talentos, com o Governo de Pernambuco. Esse último tem como foco levar conhecimento em computação e dados para alunos do ensino médio da rede pública em mais de 70 municípios. O modelo é remoto e síncrono, com monitores locais em sala de aula. Nossa meta é alcançar 25 mil alunos em dois anos e meio. Já ultrapassamos os 10 mil inscritos. E temos cooperação com a Universidade de Stanford, que está avaliando os resultados com vistas à possível replicação do modelo.

ME: E o CISSA (Centro Integrado de Segurança em Sistemas Avançados) que promete posicionar o Recife como referência nacional em cibersegurança?

EP: O CISSA é uma das nossas iniciativas mais estratégicas. Ele conta com investimento de R$ 60 milhões da Embrapii e está instalado no Moinho, no Recife Antigo. Já está operando e buscamos preencher vagas com pesquisadores qualificados, inclusive do exterior, no modelo de professores visitantes. O centro foca em três pilares: pesquisa básica, formação técnica e fomento ao empreendedorismo em cibersegurança. A área é extremamente crítica e há escassez brutal de profissionais qualificados. Os salários são altíssimos, superiores até a áreas como IA e data analytics, mas ainda há pouco interesse dos estudantes. Nosso papel é formar esses talentos e gerar conhecimento aplicado.

CESAR fundo de investimentos
O CESAR fica sediado no Recife/Foto: divulgação

ME: O centro também tem participação de empresas privadas?
EP: Sim. Funciona por meio de associação. A FEBRABAN já faz parte do conselho que orienta as pesquisas. Outras grandes instituições, inclusive globais, estão em fase de adesão. A ideia é desenvolver conhecimento pré-competitivo, compartilhado entre os associados, para combater ameaças crescentes como IA maliciosa e computação de alto desempenho, que pode comprometer a segurança digital em escala. Queremos estar à frente, formando profissionais e criando soluções antes que os problemas se agravem.

ME: Em resumo, qual é o papel do CESAR nesse cenário de inovação e transformação digital?

EP: Nosso papel é estar onde a inovação acontece e onde ela é necessária. Criamos soluções junto a quem vai usá-las. Estamos nos portos, nas escolas, em centros de pesquisa e agora também na Europa. A nossa essência é gerar conhecimento aplicável, com impacto social e valor estratégico. Aprender sempre, construir junto e melhorar o que já existe. Essa é a cultura do CESAR.

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