A recente crise provocada pela imposição de tarifas comerciais por parte dos Estados Unidos, em especial após a carta enviada por Donald Trump ao Brasil, reconfigurou o cenário político interno e expôs novas fragilidades na narrativa polarizada que dominou o país nos últimos anos. Para a cientista política Priscila Lapa, há um deslocamento do debate político para fora da bolha ideológica. “A economia sempre explica a política. Quando o impacto é direto no bolso, as pessoas deixam de ver apenas pelos olhos da polarização”, afirmou ela em entrevista ao Movimento da Semana, o podcast do Movimento Econômico
A sobretaxa imposta pelos EUA atinge diretamente a cadeia produtiva brasileira, afetando da produção agrícola às exportações industriais. Segundo Priscila, a reação inicial do governo brasileiro foi considerada tímida por parte da opinião pública, mas o avanço da crise levou a uma resposta mais estruturada, com destaque para o papel do vice-presidente Geraldo Alckmin nas negociações. “O governo entendeu que precisava atuar com serenidade. Alckmin se tornou o interlocutor ideal nesse momento”, avalia.
Na outra ponta, a postura do ex-presidente Jair Bolsonaro e do seu núcleo mais próximo tem provocado desconforto até entre antigos aliados. A recente decisão do ministro Alexandre de Moraes de determinar o uso de tornozeleira eletrônica por Bolsonaro acentuou esse quadro. “Ele vem perdendo espaço. A opinião pública não o vê mais como parte da solução. Está isolado politicamente”, observa Priscila. O movimento de anistia, defendido por parte da direita, também não encontra eco fora da base bolsonarista, o que, segundo a analista, reforça a distância entre o discurso político e os anseios da sociedade.
A cientista politica também analisa a presença de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e sua postura de defensor familiar em detrimento do papel de representante do povo brasileiro. “Isso tem custo político”, diz Priscila. Para ela, o capital político de Bolsonaro e seu grupo está se esgotando. “O discurso da vitimização continua presente, mas sem a mesma força de antes”.
O desafio do momento, portanto, é institucional: preservar a estabilidade democrática em meio a uma conjuntura volátil, onde a opinião pública reage rapidamente e as redes sociais amplificam discursos e desinformações. Neste cenário, o pragmatismo e a capacidade de articulação política voltam ao centro da arena. Confira a entrevista no vídeo.
Veja também:
Bolsonaro fez flagrante confissão de obstrução de Justiça, diz Moraes










