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Não é consumo. É sobrevivência: o novo papel do crédito no Brasil

"O país precisa parar de tratar o crédito como substituto da renda. Enquanto isso continuar acontecendo, estaremos apenas administrando o problema"
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  1. Crédito tornou-se ferramenta de sobrevivência para milhões de brasileiros, cobrindo necessidades básicas mensais.
  2. Brasil endividado não é irresponsável, mas desassistido pela renda comprimida e custo de vida crescente.
  3. Inclusão financeira vai além de acesso: exige condição, educação aplicada e acompanhamento contínuo do cliente.
  4. Crédito sem cuidado gera dívida; estruturado com propósito transforma-se em ferramenta de reconstrução financeira.
  5. Instituições financeiras devem assumir corresponsabilidade, acompanhando comportamento do cliente e desenvolvendo soluções alinhadas à realidade popular.
Vanderson Aquino
Vanderson Aquino/Foto: divulgação


Por Vanderson Aquino*

Entre o salário e o fim do mês, entrou o crédito. Essa frase resume, com precisão desconfortável, o momento que o Brasil atravessa. Durante décadas, o crédito foi associado ao consumo, à realização de desejos, à antecipação de conquistas, ao acesso a bens e experiências. Hoje, para milhões de brasileiros, ele ocupa um lugar muito mais básico: o da sobrevivência. Não estamos falando de excessos. Estamos falando de contas.

O crédito deixou de ser uma escolha e passou a ser um recurso emergencial recorrente. Ele cobre o que a renda já não alcança. Paga o supermercado, segura o aluguel, viabiliza o transporte. Não há planejamento sofisticado nisso, há necessidade. E quando uma ferramenta pensada para impulsionar a vida passa a nos sustentar no limite, é sinal de que algo mais profundo se desorganizou.

É preciso dizer com clareza: o Brasil endividado não é irresponsável. É desassistido. Existe uma narrativa simplista que culpa o indivíduo pelo próprio endividamento, como se fosse apenas uma questão de disciplina ou educação financeira. Mas essa leitura ignora o contexto. Ignora a renda comprimida, o custo de vida crescente, a instabilidade econômica e, principalmente, ignora a forma como o crédito é ofertado no país.

O modelo tradicional falha porque enxerga o crédito como fim, quando ele deveria ser meio. Conceder crédito, por si só, nunca foi suficiente. E hoje isso ficou evidente. O sistema aprova limites, mas não acompanha trajetórias. Disponibiliza recursos, mas não constrói sustentação. Entrega acesso, mas não garante condição. E é justamente aí que reside o ponto de ruptura. Inclusão financeira não é dar acesso. É dar condição.

Não basta colocar crédito na mão de quem precisa. É preciso garantir que esse crédito cumpra um papel positivo na vida do trabalhador. Isso passa por responsabilidade na concessão, inteligência no desenho dos produtos, acompanhamento contínuo e, sobretudo, educação financeira aplicada à realidade de quem ganha de um a três salários mínimos. Porque educar, acompanhar e incluir não são etapas isoladas, são partes do mesmo compromisso.

Quando o crédito é oferecido sem contexto, ele vira dívida. Quando é estruturado com propósito, ele pode se transformar em ferramenta de reconstrução. A diferença está no cuidado. Crédito sem cuidado gera dívida. Crédito com propósito gera futuro.

O papel das instituições financeiras precisa evoluir. Não se trata apenas de ampliar portfólio ou ganhar escala. Devemos assumir corresponsabilidade sobre o impacto gerado. O crédito precisa ser mais do que uma operação. Ele precisa ser uma relação.

Isso implica acompanhar o comportamento financeiro do cliente, oferecer orientação acessível, criar mecanismos de proteção contra o superendividamento e, principalmente, desenvolver soluções alinhadas à realidade de quem está na base da pirâmide.

Mas não é só o setor financeiro que precisa se transformar. Quebrar o ciclo de endividamento no Brasil exige uma abordagem sistêmica. Passa por políticas públicas que valorizem a renda do trabalhador, por iniciativas que ampliem a educação financeira de forma prática e contínua e por um redesenho do próprio modelo de crédito. Mais justo, mais transparente e mais sustentável.

O país precisa parar de tratar o crédito como substituto da renda. Enquanto isso continuar acontecendo, estaremos apenas administrando o problema, e não resolvendo. O Brasil não precisa de mais crédito. Precisa de melhor crédito. Um crédito que compreenda contextos, que respeite limites reais, que acompanhe jornadas e que, acima de tudo, contribua para a construção de estabilidade. E não para o aprofundamento da vulnerabilidade. Porque no fim, o que está em jogo não é o acesso ao crédito. É a dignidade de quem depende dele para viver.

*Vanderson Aquino é fundador e CEO do Mêntore Bank

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