
O Nordeste voltou a ocupar um lugar de destaque no planejamento estratégico da mineração brasileira. O Plano Decenal de Pesquisa de Recursos Minerais (PlanGeo 2026-2035), elaborado pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB) e publicado em julho, atribui à região um papel relevante na agenda nacional de minerais críticos, fertilizantes naturais e sustentabilidade da atividade mineral.
Hoje, o Nordeste responde por aproximadamente 3% do valor total da produção mineral brasileira. O PlanGeo visa elevar essa participação por meio da expansão do conhecimento geológico e da atração de investimentos. Após anos de foco concentrado nas províncias minerais do Norte, Sudeste e Centro-Oeste, a região ressurge como fronteira de oportunidades geológicas e econômicas, impulsionada por demandas como a transição energética, a produção agrícola regional e a interiorização da infraestrutura mineral.
As ações abrangem desde o mapeamento de jazidas estratégicas — como potássio, fosfato, níquel, cobre, ouro, terras raras e urânio — até estudos de rochas ornamentais, sílica de alta pureza e minerais industriais. Também ganham corpo as iniciativas voltadas à inteligência mineral, reaproveitamento de resíduos e mitigação de impactos ambientais, com foco na circularidade da mineração. A retomada do protagonismo nordestino também está ligada à expansão da fronteira mineral, com novas áreas de prospecção em estados como Ceará, Paraíba e Bahia.
No total, o plano contempla 234 projetos de pesquisa mineral até 2035, distribuídos pelas cinco regiões do país. A distribuição não é uniforme e segue critérios como lacunas cartográficas, demandas industriais, potencial estratégico e vulnerabilidades de abastecimento. A região Norte lidera em extensão territorial e volume de investimento, com foco em áreas pouco conhecidas da Amazônia e nas províncias consolidadas de Carajás.
O Centro-Oeste destaca-se pelo avanço da fronteira agrícola e papel logístico. O Sudeste, polo mineral maduro, concentra projetos voltados à circularidade e inteligência mineral, enquanto o Sul foca em minerais industriais, gemas e rochas ornamentais.
Já o Nordeste, com 32 projetos, é reposicionado como fronteira de expansão geológica, após anos de menor protagonismo nas políticas nacionais de mineração.
Um novo ciclo para a mineração no Nordeste
A nova abordagem amplia a integração do Nordeste à política mineral brasileira, tanto do ponto de vista geológico quanto econômico. Historicamente, o Nordeste esteve à margem das grandes iniciativas de pesquisa mineral no Brasil, em comparação com províncias consolidadas como Carajás (PA), Quadrilátero Ferrífero (MG) e Vale do Rio Madeira (RO/MT). Faltavam dados geológicos de base, infraestrutura logística e estímulos econômicos regionais.
O PlanGeo 2026–2035 sinaliza uma mudança desse paradigma ao conectar potencial geológico com demandas estruturais da região, como produção agrícola, abastecimento urbano e interiorização de cadeias produtivas.
Essa reconfiguração também acompanha a nova orientação de planejamento mineral do país. A retomada da importância estratégica do Nordeste se alinha ao Plano Plurianual 2024–2027 do Governo Federal, ao Plano Nacional de Fertilizantes (2022) e à atualização do Plano Nacional de Mineração 2050, todos com diretrizes voltadas à redução da dependência de importações minerais, uso sustentável de recursos e fortalecimento de cadeias regionais. O PlanGeo 2026–2035 atua como instrumento técnico-científico de suporte a essas políticas públicas, fornecendo base geológica para decisões de investimento e planejamento.

Projetos por estado e foco em fertilizantes
Ao todo, os nove estados da região somam 32 projetos, sendo a Bahia o principal polo (9 iniciativas), seguida por Ceará (6), Paraíba (4), Pernambuco (3), Rio Grande do Norte (3), Alagoas (2), Sergipe (2), Piauí (2) e Maranhão (1).
A Bahia concentra frentes voltadas a cobre no Vale do Curaçá, níquel no cinturão Salvador-Itabuna-Curaçá, terras raras no Bloco Jequié, além de rochas ornamentais e circularidade mineral. O estado ainda sedia projetos voltados a agrominerais no sudoeste baiano, com execução prevista até 2035.
No Ceará, os destaques são as pesquisas para cobre e metais base no Domínio Ceará Central e Grupo Cachoeirinha, e projetos de potássio nas bacias do Tucano-Jatobá e Camamu-Almada. Paraíba e Pernambuco participam de frentes voltadas à avaliação de urânio, fosfato e rochas ornamentais no semiárido nordestino, além de estarem contempladas nos estudos de circularidade da mineração. Na Paraíba, destaca-se o projeto sobre urânio em São José do Espinharas, e no norte da Província Borborema (PB/CE/RN).
O Rio Grande do Norte integra estudos sobre impactos ambientais, circularidade e prospecções em profundidade no Domínio geológico Potiguar (projeto EF100), voltadas à modelagem de depósitos em subsuperfície. Já Sergipe e Alagoas são áreas prioritárias para potássio, especialmente na Bacia Sergipe-Alagoas. O Maranhão aparece com um projeto de estudo geoeconômico, previsto para 2028.
Os estados do Maranhão, Alagoas, Sergipe, Pernambuco, Paraíba e Bahia participam dos Estudos Geoeconômicos Estaduais, com foco na estrutura mineral e no potencial produtivo, com entregas previstas até 2029.
A pesquisa de fertilizantes naturais é estratégica para a região. O plano inclui a avaliação do potencial mineral de fosfato e potássio em áreas como a Bacia do Araripe (PE-CE-PI), Coreaú (CE), Faixa Sergipana (BA/SE), Bacia do Tucano-Jatobá (BA) e Bacia Sergipe-Alagoas. Esses insumos são fundamentais para reduzir a dependência externa do Brasil, que importa mais de 80% do potássio consumido no país.
Segundo a ANDA (Associação Nacional para Difusão de Adubos), o Nordeste representa menos de 5% da produção nacional de fosfato e cerca de 3% da produção de potássio, com forte dependência de outras regiões e do exterior.
Produção mineral atual e potencial de crescimento
O setor mineral nordestino ainda responde por uma pequena fração do valor da produção mineral brasileira. Segundo dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), a região representou cerca de 3% do valor da produção nacional em 2022.
A Bahia lidera em valor absoluto, com destaque para ouro, níquel, rochas ornamentais e sal-gema. No Ceará e no Piauí, predominam calcário, argilas e minerais usados na construção civil. Sergipe é destaque na produção de gipsita e potássio, enquanto Pernambuco produz minério de ferro e agregados.
O PlanGeo busca reverter esse quadro ao direcionar esforços para identificar novas jazidas, melhorar o conhecimento geológico de base e atrair investimentos privados para áreas hoje pouco exploradas.
Minerais industriais, gemas e economia circular
O Nordeste também é contemplado em projetos de minerais industriais — como sílica de alta pureza, argilas especiais e crostas lateríticas —, além de frentes de pesquisa em rochas ornamentais e gemas, com destaque para Pedro II (PI) e o Vale do Jequitinhonha (BA). Essas matérias-primas abastecem segmentos industriais como vidro, cerâmica, cosméticos e eletrônicos.
A região participa ainda de ações voltadas à sustentabilidade da mineração. Entre 2033 e 2035, o PlanGeo prevê estudos de circularidade e reaproveitamento de rejeitos minerais nos estados de Ceará, Pernambuco, Paraíba e Alagoas, promovendo inovação no reaproveitamento de resíduos e redução de impactos ambientais.
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