
O Arco Viário Metropolitano (AVM) de Pernambuco vive um paradoxo: ao mesmo tempo em que uma parte essencial do projeto finalmente ganha ritmo de execução, a porção mais crítica e complexa continua travada. Nesta sexta-feira (12), a governadora Raquel Lyra autoriza o início das obras do Segmento 2 do Lote 2 (sul), que representam um investimento de cerca de R$ 632 milhões via Programa PE na Estrada.
Esse segmento estratégico ligará o entroncamento da BR-232, em Moreno, ao entroncamento com a BR-101, no Cabo de Santo Agostinho, com 25,32 quilômetros de extensão. O objetivo é claro: desafogar a circulação viária da Região Metropolitana do Recife (RMR) e consolidar Pernambuco como um hub logístico do Nordeste.
A obra é considerada urgente. De acordo com o economista Edgar Leonardo, o Arco Metropolitano foi concebido ainda na década de 1990 com a finalidade de desafogar o contorno urbano da BR-101 e reorganizar a circulação na RMR, sendo um investimento vital para dinamizar fluxos e reduzir acidentes.
O Impulso do Eixo Sul
O Lote 2 (sul) do empreendimento, por onde as obras se iniciam, conecta polos econômicos cruciais, garantindo uma rota mais eficiente para o Porto de Suape. A lógica do investimento é sustentada por evidências técnicas. “Infraestrutura de transporte reduz custos operacionais, amplia eficiência em cadeias produtivas e reforça o papel da logística como motor do desenvolvimento,” explica Leonardo.
A relevância econômica do projeto transcende as fronteiras estaduais, dado que a RMR constitui o núcleo de uma economia que responde por cerca de um terço do Produto Interno Bruto (PIB) do Nordeste.
O Lote Norte e o recuo estratégico
Apesar do avanço no Sul, o projeto total só atinge sua plenitude com a conclusão do Lote 1 (Norte), que interligaria a BR-408, em Paudalho, à BR-101 Norte, na região de Goiana. É justamente neste trecho, com aproximadamente 50 quilômetros, que residem os maiores desafios.
O Lote Norte é tecnicamente mais complexo e socialmente mais sensível, uma vez que atravessa a Área de Proteção Ambiental (APA) Aldeia-Beberibe, criada em 2010. A instituição da APA ampliou o debate ambiental e exigiu adaptações no projeto, resultando em anos de paralisação e idas e vindas na Justiça.
O engenheiro Marcilio Cunha, diretor operacional da Associação Nordestina de Logística (Anelog), ressalta que a principal razão pela qual o Lote Norte permanece paralisado “deve-se a questões ambientais e entraves burocráticos/jurídicos”.
O custo da ineficiência logística
A ausência da conclusão integral do Arco Metropolitano impõe um ônus significativo à cadeia logística do estado. Embora não existam estimativas oficiais diárias do prejuízo financeiro, o impacto é sentido no aumento do Custo Brasil.
Ainda segundo Marcílio Cunha, o projeto incompleto gera gargalos logísticos crônicos nas rotas existentes, impactando diretamente o escoamento de cargas. Marcilio Cunha foi enfático ao afirmar que o atraso “compromete a competitividade do Porto de Suape” e prejudica a eficiência e a agilidade necessárias para um hub portuário.
O Arco é considerado estratégico para desviar o tráfego pesado das BR-101 e BR-408 e integrar a área industrial ao Norte com o complexo de Suape. Sua não conclusão, portanto, dificulta a atração de novos investimentos e a produtividade regional.
O horizonte empurrado para 2027
Diante dos impasses técnicos e das exigências ambientais da APA Aldeia-Beberibe (que abrange 31 mil hectares), a gestão da obra foi forçada a um “recuo estratégico”. A medida imediata adotada para lidar com o atraso no Lote Norte (Lote 1) foi a prorrogação dos estudos de viabilidade até fevereiro de 2027. Isso significa que, na prática, qualquer avanço na construção do trecho crucial do Arco está adiado para além desse período.
O engenheiro Marcilio Cunha sintetiza a situação, afirmando que “a única saída é esperar pelo ano de 2027”. Apesar da morosidade para o início das obras da porção Norte, o economista Edgar Leonardo mantém a posição de que a APA não constitui um impedimento definitivo, mas exige ajustes no traçado e medidas de compatibilização. “O Arco Metropolitano permanece como um projeto de extrema relevância, antigo em sua concepção, mas atual e indispensável para destravar o desenvolvimento logístico, econômico e urbano de Pernambuco”, ressalta.
A expectativa é que a conclusão do Arco Metropolitano gere um choque inicial de empregos na construção civil, seguido pela consolidação de postos permanentes em logística e indústria, contribuindo para ganhos de produtividade e, indiretamente, para a redução da pobreza, conforme sugerem evidências nacionais sobre investimentos em infraestrutura.
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