
A revisão das faixas de renda do programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) vai ter impactos maiores nos estados de Pernambuco, Ceará e Bahia, na região Nordeste. Juntos, os três estados concentram a maior parte desse movimento, reunindo quase 70% das famílias impactadas. No total, 3,1 milhões de famílias no Nordeste serão beneficiadas pelas mudanças nas faixas de renda do programa.
Os dados são da BCB Inteligência, que realizou um levantamento com base em dados socioeconômicos de 1.794 municípios dos nove estados do Nordeste. A revisão dos limites aumenta o valor da renda da Faixa 1 de R$ 2.850 para R$ 3.200; de R$ 4.700 para R$ 5.000 na Faixa 2; de R$ 8.600 para R$ 9.600 na Faixa 3; e de R$ 12.000 para R$ 13.000 na Faixa 4.
A atualização soa valores amplia o público elegível e redistribui beneficiários entre as faixas. Os dados indicam, principalmente, uma migração significativa para faixas de menor renda, com potencial de ampliar o acesso a subsídios e crédito imobiliário em condições mais favoráveis.
Pernambuco: maior impacto do Nordeste e forte redistribuição de renda
Em Pernambuco, as mudanças atingem mais de 1 milhão de famílias distribuídas em todos os 185 municípios, consolidando o estado como o principal epicentro da reconfiguração do MCMV na região.
A revisão dos limites provocou uma migração expressiva para faixas de menor renda, ampliando o acesso a subsídios maiores. A principal transição ocorreu da Faixa 3 para a Faixa 2, com 613.325 famílias (56,8%), seguida pela migração da Faixa 2 para a Faixa 1, que abrange cerca de 334 mil famílias.
A concentração do impacto se dá na Região Metropolitana do Recife, especialmente na capital (442.068 famílias), além de Olinda e Jaboatão dos Guararapes. No interior, Caruaru lidera como principal polo, com mais de 102 mil famílias impactadas, acompanhado por municípios como Garanhuns, Arcoverde e Serra Talhada.
O cenário indica não apenas expansão do número de beneficiários, mas também interiorização do acesso ao programa, fortalecendo o mercado habitacional em cidades médias e ampliando o alcance das políticas públicas.
“A reconfiguração das faixas e o ajuste nos tetos de financiamento são ferramentas que destravam o sonho da casa própria para milhares de famílias pernambucanas”, afirma Rafael Simões, presidente da Ademi-PE.

Ceará: mercado reage com melhora de expectativas
No Ceará, 658.093 famílias foram impactadas pelas novas regras do MCMV, com mudanças concentradas principalmente na transição para a Faixa 1, que passou a abranger uma parcela significativamente maior da população.
A principal migração ocorreu da Faixa 2 para a Faixa 1, envolvendo 324.513 famílias, quase metade de todas as mudanças registradas no estado. Também foram relevantes as transições da Faixa 3 para a Faixa 2 (208.619 famílias) e da Faixa 4 para a Faixa 3 (121.489 famílias).
A Região Metropolitana de Fortaleza concentra mais da metade dos impactos, com a capital respondendo sozinha por 338.151 famílias. Municípios como Caucaia, Maranguape e Itaitinga também apresentam números expressivos.
No interior, polos regionais como Quixeramobim, Sobral e Itapipoca se destacam, demonstrando que a reconfiguração das faixas de renda não se limita aos grandes centros urbanos, mas alcança diferentes regiões do estado.
Para o presidente do Sinduscon-CE, Patriolino Dias de Sousa, a ampliação dos limites de renda corrige distorções e fortalece o papel do programa. “A ampliação é extremamente positiva e alinhada à realidade atual de renda das famílias brasileiras. Com essa atualização, o programa volta a cumprir melhor seu papel social e econômico, permitindo que mais famílias acessem taxas de juros mais baixas”, afirma.
Segundo ele, a medida também impulsiona o setor da construção. “Isso significa ampliação da base de demanda qualificada, especialmente no segmento econômico, que é um dos motores da atividade no Estado”, completa.
A avaliação do setor é de que o momento macroeconômico reforça esse cenário. “A combinação de redução da taxa básica de juros com o fortalecimento do programa habitacional cria um ambiente mais favorável para o crédito imobiliário. Agora, com juros em trajetória de queda e regras mais inclusivas, o setor trabalha com maior previsibilidade para novos lançamentos”, diz.
Na prática, os efeitos já começam a aparecer. “No curto prazo, há aumento da demanda e das simulações de crédito. No médio prazo, devemos observar um volume mais consistente de lançamentos e, no longo prazo, expansão das obras e geração de empregos”, projeta Patriolino.

Bahia: interior lidera volume de famílias impactadas
Na Bahia, as mudanças atingem 428.398 famílias em todos os 417 municípios, com uma dinâmica marcada pela predominância de transições para faixas de menor renda.
A migração da Faixa 3 para a Faixa 2 concentra 63,1% dos casos (270.357 famílias), seguida pela transição da Faixa 2 para a Faixa 1 (cerca de 88 mil famílias). Já a mudança da Faixa 4 para a Faixa 3 envolve quase 63 mil famílias.
Diferentemente de outros estados, o impacto baiano é puxado pelo interior. Municípios como Itabuna (49.892 famílias) e Ilhéus (45.446) lideram o ranking, seguidos por Luís Eduardo Magalhães. Na Região Metropolitana de Salvador, Candeias e São Sebastião do Passé aparecem como principais destaques, mas com menor volume relativo.
A distribuição reforça o papel de cidades médias e polos regionais no avanço do programa, especialmente em regiões ligadas ao agronegócio e à cadeia produtiva do cacau.
Segundo dados da Ademi-BA, nos últimos dois anos, foram contratados 108,9 mil unidades pelo MCMV no Estado. Na visão da entidade, a ampliação do teto de renda reposiciona a atuação do programa ao incluir de forma mais consistente a classe média, que passa a ter acesso facilitado ao crédito imobiliário, com valores que chegam a R$ 600 mil. Esse movimento cria uma nova dinâmica entre oferta e demanda, ampliando o mercado para empreendimentos de padrão intermediário e estimulando novos lançamentos.
Os efeitos já começam a aparecer na capital baiana. Imóveis de médio padrão, com tipologias standard e enquadrados nessa faixa de valor, responderam por 23% das vendas em janeiro deste ano. Para o presidente da Ademi-BA, Cláudio Cunha, o cenário abre uma janela relevante para o setor. “A mudança traz boas oportunidades com essa ampliação das faixas, além de indicar um aquecimento do mercado, com potencial de impulsionar a atividade econômica e gerar empregos em toda a cadeia da construção civil”, avalia.

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