
O Nordeste amplia suas fronteiras canavieiras e projeta 55,2 milhões de toneladas de cana-de-açúcar na safra 2026/27, alta de 3,7% sobre o ciclo anterior, segundo o 1º Levantamento da Safra 2026/27, divulgado na terça-feira (28) pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O Piauí registra o maior crescimento relativo da região, com expansão de 25% na produção, reflexo da incorporação de novas áreas ao setor sucroenergético no Semiárido do Matopiba.
Em Pernambuco, a colheita mecanizada avança de 4,6% para 17,3% da área colhida em um único ciclo, o maior salto relativo do Nordeste. A moagem regional inicia em agosto de 2026, enquanto o país projeta produção nacional de 709,1 milhões de toneladas, a segunda maior da série histórica da Conab, atrás apenas do volume colhido em 2023/24.
A área colhida no Nordeste é estimada em 901,3 mil hectares (+1,3%) e a produtividade média em 61.248 kg/ha (+2,3%). O desempenho regional é impulsionado por Alagoas, maior produtor do Nordeste, com estimativa de 18,5 milhões de toneladas (+1,5%), seguida por Pernambuco, com 13,6 milhões de toneladas (+1,5%), e Paraíba, com 7,03 milhões de toneladas (+1,7%). A Bahia registra o maior crescimento absoluto da região: 6,5 milhões de toneladas, alta de 11,4%, puxada por expansão de 14,1% na área colhida, que chegará a 76,2 mil hectares.
O Rio Grande do Norte projeta 3,8 milhões de toneladas (+7,4%), com expansão de 3,8% na área e ganho de 3,5% na produtividade. Sergipe é o único estado nordestino com queda estimada: 1,9 milhão de toneladas (-0,5%), reflexo da descontinuidade das atividades industriais em uma unidade produtiva, que manterá apenas operações agrícolas com comercialização para outras usinas.
Piauí e a expansão para o Matopiba
O Piauí concentra os maiores crescimentos relativos da região em praticamente todos os indicadores da safra 2026/27: produção estimada em 1,44 milhão de toneladas (+25%), área em 22,8 mil hectares (+11,1%) e produtividade em 63.172 kg/ha (+12,6%). O estado integra o recorte do Matopiba — fronteira agrícola que abrange o Maranhão, o Tocantins, o Piauí e o Bahia — e representa a expansão do setor sucroenergético para além do eixo tradicional Alagoas-Pernambuco.
O Maranhão acompanha o movimento, com produção estimada em 2,27 milhões de toneladas (+6,5%) e área em 31,6 mil hectares (+1,3%). O etanol anidro de cana cresce no estado piauiense 10,9% e no Maranhão, 12%, ambos acima da média regional.
Mecanização avança, mas ainda é baixa no Nordeste
A colheita mecanizada corresponde a 27% da área colhida no Nordeste na safra 2026/27, mesmo percentual da safra anterior em termos regionais agregados, segundo a Conab. O avanço mais expressivo ocorre em Pernambuco: de 4,6% de colheita mecanizada na safra 2025/26 para 17,3% na projeção atual, o maior salto relativo do Nordeste em um único ciclo. O relevo da Zona da Mata pernambucana, com áreas de maior declividade, historicamente limitou a mecanização no estado.
A redução da disponibilidade de mão de obra tem funcionado como indutor da adoção gradual de colhedoras, processo agora acelerado. O Maranhão mantém o maior índice de mecanização do Nordeste (77,1%), seguido pela Bahia (72,4%) e pelo Rio Grande do Norte (65,6%). O Piauí permanece com apenas 12% de mecanização, o menor índice da região. O dado contrasta com o Centro-Sul, onde 98,6% da colheita é mecanizada, e com a Região Norte, onde 100% da colheita é mecanizada desde a safra 2016/17.
Etanol de cana recua no Nordeste, mas anidro cresce
A produção total de etanol de cana-de-açúcar no Nordeste deve recuar 3% na safra 2026/27, para 1,987 bilhão de litros, com comportamento distinto entre os tipos. O etanol hidratado de cana cai 8% na região, de 1,156 bilhão para 1,064 bilhão de litros, com quedas concentradas em Sergipe (-35,5%), Maranhão (-47,1%), Alagoas (-16,6%) e Pernambuco (-15,3%). Já o etanol anidro de cana cresce 3,6% no Nordeste, de 891,4 milhões para 923,1 milhões de litros, com destaque para o Rio Grande do Norte (+64,9%), Pernambuco (+14,7%) e Maranhão (+12%).
A Bahia é exceção no etanol hidratado: alta de 31,3%, para 261,5 milhões de litros, impulsionada pela entrada em operação de nova unidade no estado. Na produção de etanol de milho, o Nordeste avança 47,2%, para 1,466 bilhão de litros, com a Bahia adicionando 470 milhões de litros inteiramente novos sem contrapartida na safra anterior.
Açúcar no Nordeste cresce 10,3% contra tendência nacional
A produção de açúcar no Nordeste deve crescer 10,3% na safra 2026/27, para 3,63 milhões de toneladas, em sentido oposto à tendência nacional de leve recuo de 0,5%. O crescimento reflete a estratégia de diversas usinas nordestinas de direcionar maior volume de matéria-prima para o adoçante, favorecida em parte pela elevação do ATR — açúcar total recuperável — em estados como a Bahia, único do Nordeste com alta no indicador: de 129,0 para 133,2 kg/t (+3,2%).
O ATR médio regional recua levemente, de 129,7 para 128,3 kg/t (-1%), com as maiores quedas em Pernambuco (-2,4%) e Alagoas (-1,5%). Alagoas lidera a produção de açúcar com 1,648 milhão de toneladas (+7,1%), seguida por Pernambuco, com 990,2 mil toneladas (+1,9%), e Paraíba, com 295 mil toneladas (+31,7%). A Bahia projeta 214 mil toneladas (+44,9%) e o Piauí registra a maior expansão relativa do açúcar no Nordeste: 118 mil toneladas, crescimento de 37,2%.
Setor questiona metodologia e alerta para falta de mão de obra
O presidente executivo do Sindaçúcar-PE e da NovaBio, Renato Cunha, questiona a estimativa de 710 milhões de toneladas de cana projetada pela Conab para o Brasil. Para o setor, a sistemática oficial pode estar incluindo áreas de pousio, inflando a conta em 50 milhões de toneladas — o equivalente a toda a produção do Nordeste.
Além do clima, Cunha alerta para o gargalo na mão de obra: a falta de conciliação entre o Bolsa Família e o trabalho safrista. Sem a garantia de manutenção do benefício social, a oferta de trabalhadores escasseia, fazendo com que as usinas mantenham um esforço redobrado em mecanização e irrigação para garantir a colheita.
Preocupação com etanol de outras fontes sem planejamento
Renato Cunha alerta para o crescimento “desordenado, atabalhoado e desorganizado” da produção de etanol de fontes distintas da cana-de-açúcar, como o milho. Segundo ele, há um superávit exponencial de mais de 9 bilhões de litros em estados com baixo consumo populacional, o que ameaça o equilíbrio do mercado no Nordeste.
Para o executivo, o modelo de produzir sem planejamento para depois buscar mercado já liquidou usinas de grande porte no passado. “Prejudica a todos e todos perdem”, afirma Cunha, destacando que o setor não pode aceitar a improvisação diante de uma região com mais de 57 milhões de pessoas dependente de uma oferta organizada.
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