
O que era para ser apenas um intercâmbio de um ano se transformou em uma mudança definitiva de vida. A trajetória do pernambucano Ricardo Rosa começou com o plano simples de passar um ano nos Estados Unidos para aprender inglês. Ele começou a fazer coxinha em pequena escala em uma cozinha apertada em um apartamento de Nova York. Hoje a Petisco Brazuca produz milhares de salgados por hora e é responsável por levar um dos sabores mais populares do Brasil ao cotidiano dos nova-iorquinos.
Esta é a segunda reportagem da série “Nordeste pelo mundo”, onde o Movimento Econômico mostra a experiência de empreendedores nordestinos, publicada aos domingos. Na primeira reportagem, apresentamos a trajetória do recifense Leonardo Barbosa com a sua Lead Foods, que produz carne seca no Canadá e também exporta para os Estados Unidos.
Em 2012, embalado pelo momento positivo do Brasil, Ricardo decidiu, ao lado de Vanessa, então namorada e hoje esposa, aproveitar a oportunidade que não tiveram antes, de viver fora e aprender uma nova língua. “Era um momento muito positivo do Brasil. A gente pensou ‘é agora ou nunca para fazer um intercâmbio.’ A ideia era passar um ano, aprender inglês e voltar”, relembra.
O casal decidiu deixar para trás a estabilidade que começava a construir no Brasil. Ele vendeu uma plataforma digital própria, onde divulgava temas ligados ao mercado de comunicação para estudantes, criada durante a faculdade de Propaganda e Marketing. A plataforma fez sucesso e ele foi convidado para ministrar algumas palestras pelo Brasil.
Já Vanessa pediu demissão do banco onde trabalhava. O dinheiro da venda foi usado para financiar a viagem.
A adaptação em Nova York foi rápida. Após nove meses vivendo na cidade, o casal decidiu mudar os planos. “A gente percebeu que não queria voltar. Nova York é uma cidade que te impulsiona, te faz correr atrás de oportunidades”, afirma.
A permanência, no entanto, exigia um caminho legal. Foi nesse momento que surgiu a possibilidade do visto por habilidades extraordinárias, concedido a profissionais com reconhecimento em suas áreas. Com premiações e experiências acumuladas ainda com sua plataforma, Ricardo conseguiu atender aos critérios e garantiu o direito de viver e trabalhar nos Estados Unidos.

A ideia que nasceu de forma despretensiosa
O empreendedorismo surgiu de maneira improvável, dentro de casa e sem planejamento estruturado. Após uma tentativa frustrada de criar uma plataforma digital de turismo, o casal passou a explorar alternativas. A culinária, hábito comum entre amigos, acabou abrindo uma nova possibilidade.
O insight definitivo veio em uma festa. “Pediram para a gente levar coxinhas. A gente fez, sem saber modelar direito, mas foi um sucesso. Acabou rápido e todo mundo queria mais”, lembra. A experiência revelou uma lacuna no mercado. Mesmo em regiões com forte presença brasileira, como a rua conhecida como “Little Brazil”, em Nova York, não havia oferta profissional do produto.
O início foi marcado por improviso e limitações. Em um apartamento com cozinha de apenas 3 m², Ricardo e a esposa começaram a produzir e vender os primeiros pedidos. Nos três primeiros meses, a demanda foi baixa. Uma estratégia de comunicação mudou o rumo do negócio. Ricardo entrou em contato com um blog da comunidade brasileira. A postagem foi feita e a publicação viralizou.
“A gente saiu de quatro pedidos para 40 por semana. E não tinha estrutura para isso”, conta. Com um investimento inicial enxuto de cerca de 200 dólares, o casal adquiriu equipamentos básicos e passou a operar também em cozinhas compartilhadas.
Tecnologia como diferencial competitivo
A experiência prévia de Ricardo com tecnologia foi determinante para o crescimento. Ele desenvolveu um aplicativo de delivery focado em comida brasileira, tendo a coxinha como carro-chefe. O impacto foi imediato. Em três meses, o negócio faturou cerca de 10 mil dólares e ganhou visibilidade nacional e internacional. “Foi uma repercussão absurda. A gente começou a receber pedidos de todos os lados”, afirma.
Após cinco anos operando exclusivamente no modelo online, a empresa deu um salto estratégico com a abertura da primeira fábrica, em 2018, no Brooklyn, acompanhada de uma loja física. A escolha da localização foi intencional para testar o produto junto ao público americano.
“A gente queria entender como o americano consome. Se desse certo no Brooklyn, daria certo em qualquer lugar”, explica. A estratégia funcionou. O negócio passou por uma virada importante, saindo de uma base majoritariamente brasileira para cerca de 95% de clientes americanos.
Além de coxinhas, a Petisco Brazuca produz também mini-kibes, churros, esfirras abertas, pastéis, brigadeiros e tortas salgadas.

Crescimento industrial e novos mercados
A evolução da operação foi expressiva. De cerca de 30 mil unidades produzidas manualmente por mês, a empresa passou a operar com equipamentos capazes de produzir até 5 mil unidades por hora. Hoje, a produção gira em torno de 300 mil salgados mensais, com planos de expansão para até 1,5 milhão de unidades.
“A nossa ideia sempre foi construir uma indústria. Agora estamos avançando para vender para supermercados e food service”, afirma.
O crescimento levou à criação da BRZ Foods, holding que reúne diferentes frentes, incluindo operação de alimentação, educação para empreendedores e plataformas de conexão de negócios. Além disso, a marca ganhou visibilidade ao integrar grandes feiras de rua e mercados de rua sazonais de Nova York, sendo a única representante brasileira em algumas das principais organizações do setor.
Desafios no cenário atual
Apesar da consolidação, o ambiente de negócios apresenta desafios. Mudanças na política migratória estadunidense e restrições ao crédito têm impactado o mercado. “A gente vê um cenário mais tenso. Só nas feiras, o movimento caiu pelo menos 20% no último ano”, afirma.
Mais do que um negócio de alimentação, a trajetória de Ricardo Rosa representa a construção de uma ponte cultural, levando um dos ícones da culinária brasileira para o cotidiano americano. “A gente começou testando, sem saber onde ia dar. O importante foi dar o primeiro passo e ajustar ao longo do caminho”, resume.
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