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NE dribla tarifas de Trump e mantém mercado de etanol aquecido

Estados Unidos estão entre os três maiores consumidores do etanol brasileiro, mas estão muito distante do maior comprador
Patricia Raposo
Patricia Raposo
De Recife CEO do Movimento Econômico [email protected]
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etanol -biocombustíveis
O etanol brasileiro tem menor pegada de carbono/ Foto: AgroSaber

A política de equiparação tarifária do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afetou diretamente o etanol, mas não deve provocar grande abalo nas exportações do biocombustível produzido no Nordeste. De janeiro a dezembro de 2024, o Brasil exportou 2,7 bilhões de litros de etanol, dos 35 bilhões produzidos. Desse total, 41,8% foram adquiridos pela Coreia do Sul, maior compradora do produto brasileiro. Os Estados Unidos consumiram 16,3%, ficando em segundo lugar, seguidos pela Holanda, com 8%.

As exportações do Nordeste não chegam a 0,5% da produção. A região gera cerca de 2,4 bilhões de litros por ano e, em alguns períodos, chega a exportar 1 bilhão, grande parte para países asiáticos.

Na hipótese de uma queda no número de compradores norte-americanos, o Brasil seguirá vendendo a países como Nigéria, Filipinas, Singapura, Japão, Índia, Gana e Camarões, entre outros, que já compram o produto brasileiro, podendo abrir novos mercados.

A Renewable Fuels Association (RFA), principal entidade representativa do setor de biocombustíveis nos Estados Unidos, avalia que a medida restabelece uma relação comercial justa e recíproca no setor de etanol com o Brasil. O presidente da RFA, Geoff Cooper, é um crítico da política comercial brasileira. Ele reclama que, enquanto o etanol brasileiro tem acesso praticamente livre de tarifas ao mercado americano desde 2012, o Brasil passou a impor tarifas e barreiras comerciais ao etanol dos EUA a partir de 2017, reduzindo drasticamente as exportações americanas. Elas caíram de 489 milhões de galões em 2018, com valor de US$ 761 milhões, para apenas 28 milhões de galões em 2024, totalizando US$ 53 milhões.

Mas, nessa conta, Geoff precisa considerar a desvalorização do real, que exerceu forte influência nas exportações norte-americanas. “Os números não refletem a realidade histórica dos últimos cinco anos. Quando o real está valorizado, os EUA tendem a aumentar ainda mais suas exportações para o Brasil”, diz o presidente do Sindicato do Açúcar e do Álcool de Pernambuco (Sindaçúcar-PE), Renato Cunha.

Pegada de carbono

Para entidades do setor sucroalcooleiro brasileiro, não há injustiça tarifária, já que o etanol nacional tem um diferencial ambiental reconhecido internacionalmente. A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA) e a Bioenergia Brasil se posicionaram, em nota, ressaltando que esse diferencial precisa ser considerado. As entidades entendem que a medida de Trump coloca no mesmo patamar o etanol do Brasil e dos Estados Unidos.

Produzido a partir da cana-de-açúcar, o etanol brasileiro tem uma pegada de carbono muito menor que o etanol de milho americano – que, em alguns casos, chega a usar diesel em seu processo produtivo.

“Os EUA falam em tarifa recíproca, mas o etanol de cana é considerado um produto avançado, devido ao seu diferencial ambiental. Portanto, não se pode falar em reciprocidade. Eles exportam etanol de milho para cá, enquanto nós enviamos o de cana para lá, que é inclusive certificado por eles como um biocombustível avançado em termos ambientais”, ressalta Cunha.

O presidente do Sindaçúcar acrescenta que os Estados Unidos têm ainda um programa de subsídios que não encontra paralelo no Brasil e é sustentado pela Farm Bill, lei que protege a agricultura norte-americana. “Eles têm uma visão protecionista que não foca na questão ambiental. Tanto é que o governo dos EUA está fora da COP-30. Eles também não seguem plenamente as diretrizes da OMC, que estabelece regras para minimizar distorções no comércio internacional devido a subsídios”, sustenta Cunha, que também é vice-presidente da Bioenergia Brasil.

Renato Cunha
Renato Cunha: “Etanol brasileiro é um produto considerado avançado pelos norte-americanos”/Foto: divulgação

Os norte-americanos podem argumentar que o Brasil tem o RenovaBio, mas os propósitos são bem diferentes. O RenovaBio é a Política Nacional de Biocombustíveis do Brasil, criada para incentivar a produção e o consumo de biocombustíveis, como etanol e biodiesel, com foco na redução das emissões de carbono. Instituído pela Lei 13.576/2017, o programa busca garantir previsibilidade para o setor de biocombustíveis e ajudar o Brasil a cumprir seus compromissos no Acordo de Paris.

O RenovaBio é uma política de mercado baseada em incentivos ambientais, enquanto a Farm Bill oferece subsídios diretos ao setor agrícola, incluindo produtores de etanol de milho. Por isso, enquanto o Brasil enfatiza que seu modelo valoriza a sustentabilidade, os EUA argumentam que sua política protege o setor agrícola nacional.

Etanol dos EUA para o Nordeste

Antes da forte desvalorização do real, os EUA chegaram a exportar mais de 1 bilhão de litros para o Brasil, com mais de 90% desse volume destinado ao Nordeste. “O etanol deles chega em plena safra da região, prejudicando os negócios no setor e gerando desemprego. Eles não se dispõem a programar esse abastecimento, o que é danoso para a produção nordestina”, reclama Cunha.

O envio de etanol norte-americano excedente ao Nordeste em plena safra reflete a falta de uma política para o biocombustível. “A produção poderia ser facilmente absorvida pelo mercado norte-americano se o etanol fosse incorporado à gasolina, como se faz aqui no Brasil”, diz o presidente do Sindaçúcar.

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