
Embora Alagoas esteja fora do percurso da ferrovia Transnordestina, a possibilidade de uma reconexão ferroviária pode colocar o estado novamente nos trilhos da logística regional. Isso depende do resultado de um estudo de viabilidade que está sendo realizado pela Infra S.A., que pretende oferecer ao mercado “ferrovias inteligentes”. Enquanto o estudo não é concluído, o setor produtivo alagoano alerta que a falta de modal ferroviário pode levar à estagnação logística.
Uma parte da ferrovia existente em Alagoas, que está sem operação há décadas, vai transportar passageiros em Arapiraca, no primeiro Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), que está em construção.
O trecho de Arapiraca faz parte da antiga Malha Nordeste, concedida à Ferrovia Transnordestina Logística, em 1998. Sem operação desde 2011, o trecho local, de 9km, passará a transportar passageiros, a fim de resgatar o papel da ferrovia como vetor de crescimento e revitalização urbana.
Questionado sobre projetos voltados à Alagoas que tenham como objetivo construir ferrovias, sejam aproveitando trechos inoperantes ou novos, o Ministério dos Transportes disse ao Movimento Econômico, por meio de nota que a Infra S.A. firmou uma parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para realizar um estudo de viabilidade econômica sobre os trechos ferroviários atualmente inativos e que serão devolvidos pelas concessionárias. A previsão é que o estudo seja concluído até o final deste ano.
Ainda segundo o ministério, os trechos identificados como viáveis para a operação ferroviária poderão ser oferecidos ao mercado por meio de chamamento público, com o objetivo de contratar “ferrovias inteligentes” na modalidade de autorização, integrando a malha ferroviária nacional. Já os trechos que não apresentarem viabilidade ferroviária poderão ser destinados a municípios interessados em requalificá-los para outros usos.
“Nesse sentido, o Ministério dos Transportes tem recebido e analisado solicitações de prefeituras, como as de Arapiraca (AL) e Campina Grande (PB), que buscam implantar sistemas de Veículos Leves sobre Trilhos (VLT) para aprimorar a mobilidade urbana local. Além disso, estão em análise projetos para sistemas de drenagem urbana em Araraquara (SP) e para a criação de um parque linear em Pesqueira (PE), com foco na melhoria da qualidade de vida das populações dessas regiões”, finalizou a nota.
Setor produtivo defende necessidade de ferrovia em Alagoas
O debate sobre a necessidade ou não de alternativas sobre trilhos para escoar a produção alagoana possui divergências entre dirigentes do estado.
Para o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Alagoas (FIEA) José Carlos Lyra, o transporte ferroviário é, sem dúvida, estratégico para a competitividade em muitas regiões do Brasil e do mundo. Ele destaca que, no entanto, no caso de Alagoas, há muito tempo não se cogitava a inclusão do estado no traçado da Transnordestina, justamente pela inviabilidade econômica.

“Não há, hoje, demanda de carga suficiente que justifique um investimento dessa dimensão. A prioridade da concessionária e do governo federal foi dada a trechos onde existe maior volume produtivo, especialmente mineral. Portanto, não vemos essa exclusão como um fator que comprometa a competitividade da indústria alagoana, que se conecta por outros modais. E, até onde sabemos, não há qualquer diálogo em andamento com Sudene, DNIT ou ANTT sobre esse tema”, disse.
Se por um lado, a Federação das Indústrias acredita que a falta de um modal ferroviário não compromete o escoamento da produção alagoana, o presidente do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural e da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Alagoas (Senar/FAEAL), Álvaro Almeida, acredita que a exclusão de Alagoas do traçado da Transnordestina pode gerar impactos diretos na competitividade do agronegócio local, que permanece dependente do modal ferroviário, o que acaba encarecendo os custos e limita a eficiência logística.
Para Almeida, a ausência da ferrovia significa maior tempo de deslocamento até destinos estratégicos, com trechos longos percorridos em estradas, afetando a competitividade de cadeias como a de cana-de-açúcar, grãos e fruticultura e pecuária. “Isso reduz margens de lucro, aumenta a imprevisibilidade dos prazos e deixa o produtor mais vulnerável a variações no preço do frete. Nos países onde o trem é uma opção, os custos para o produtor costumam ser menores”, defendeu.
O presidente do Senar/FAEAL afirmou ainda que o setor produtivo em Alagoas tem buscado alternativas investindo em armazéns coletivos, hubs logísticos regionais e contratos de transporte em bloco, para reduzir custos e garantir maior previsibilidade na entrega.

“Há também movimentos de aproximação com operadores logísticos privados para consolidar cargas e negociar tarifas diferenciadas. Isso, porém, não contempla o pequeno produtor rural, que depende fortemente ainda de intermediários para o escoamento de suas produções, quase sempre de forma desvantajosa. Essas soluções ainda são paliativas e não substituem o impacto estrutural de uma ferrovia integrada. Sem o ramal, Alagoas corre sim o risco de manter-se em desvantagem competitiva frente a estados vizinhos, especialmente em um momento em que a eficiência logística é determinante para expandir mercados e atrair investimentos. Porém, acreditamos que, tendo o Ministro dos Transportes, Renan Filho, conhecimento acerca da importância deste ramal para o desenvolvimento do estado, tudo fará para que Alagoas seja incluída neste trajeto. É o que espera o setor produtivo alagoano”, afirmou Álvaro Almeida.
Transnordestina promove integração regional
A ferrovia Transnordestina é um projeto de infraestrutura com aproximadamente 1.753 km de extensão, conectando Eliseu Martins (PI) aos portos de Pecém (CE) e Suape (PE). O trecho entre Salgueiro e Suape, com cerca de 544 km, foi excluído do projeto em 2022, sendo devolvido à União. Cerca de 190 km já estão construídos, especialmente entre Salgueiro e Custódia.
O trecho cearense teve suas obras retomadas em 2023 e há expectativa de conclusão de trechos em 2027. Em julho, o Ministério dos Transportes anunciou R$ 1,4 bilhão em novos investimentos para a ferrovia, sendo R$ 600 milhões do Fundo de Desenvolvimento do Nordeste (FDNE) e R$ 816 milhões do Finor.
Já o trecho Salgueiro-Suape está com as obras paralisadas desde 2016. Em setembro, o ministro dos Transportes, Renan Filho, anunciou que o edital de licitação da Transnordestina será publicado em outubro.
“Em outubro, vamos lançar o edital”, afirmou o ministro. “Quando licitarmos o trecho pernambucano da Transnordestina, eu quero voltar aqui para dar a ordem de serviço e para dizer ao povo pernambucano que a Transnordestina voltou no Nordeste, mas voltou em Pernambuco também. Esse será um grande incentivo ao desenvolvimento do Estado”, declarou.
Além disso, estudos logísticos avaliam a implantação de dois portos secos no trecho pernambucano: um em Salgueiro (Sertão Central) e outro em Altinho ou Agrestina (Agreste Central). Esses entrepostos aduaneiros permitirão armazenagem e despacho de mercadorias no interior, otimizando a operação da ferrovia e atraindo novos empreendimentos industriais para as regiões atendidas.
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