
A segunda edição do Cana Show Inovação movimentou, nesta quinta-feira (25), o município de São Miguel dos Campos (AL), reunindo produtores, técnicos, empresários e representantes institucionais ligados ao cultivo da cana-de-açúcar. Com foco na troca de conhecimento e na difusão de tecnologias, o evento abriu espaço para o debate sobre os desafios da safra 2025/26, os custos crescentes de produção e o papel da inovação como estratégia para manter a rentabilidade do setor no Nordeste.
Promovido pelo Sindicato Rural de São Miguel dos Campos, com apoio do Sistema Faeal/Senar e patrocínio do Sebrae Alagoas, o Cana Show é considerado o maior do setor na região e tem se consolidado como espaço de referência para o compartilhamento de tecnologias e estratégias produtivas. A programação teve como destaque a palestra do economista Raphael Delloiagono, do Instituto Pecege, que apresentou uma análise aprofundada dos custos da safra 2024/25 e as perspectivas econômicas e produtivas para o ciclo 2025/26.
Com base em dados coletados junto a 15 usinas da região, Delloiagono revelou que o custo agroindustrial médio da safra 2024/25 ficou em R$ 284 por tonelada de cana, considerando apenas despesas que impactam diretamente o caixa das unidades. Em Alagoas, o arrendamento é o mais caro entre os estados do Nordeste, atingindo R$ 27 por tonelada, enquanto a média nos demais estados, como Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, ficou em R$ 15,60 por tonelada, uma diferença de quase 75%.

Durante sua palestra no Cana Show, o pesquisador detalhou a composição dos custos, apontando que quase 60% estão ligados a operações agrícolas (maquinário, mão de obra e irrigação), enquanto 22% vêm de insumos, principalmente fertilizantes (11%), defensivos (6%) e mudas (3,5%). A indústria, por sua vez, respondeu por R$ 41,39 por tonelada, com destaque para o peso da mão de obra (32% dos custos industriais).
Mesmo com um ambiente de custos pressionados, o setor sucroenergético no Nordeste encerrou a safra 2024/25 com uma margem operacional média de 19%, sustentada sobretudo pela produção de açúcar. O preço médio da tonelada de cana comercializada ficou em R$ 351, frente ao custo de R$ 284, gerando um lucro de R$ 67 por tonelada.
Entre os produtos, o açúcar VHP apresentou a melhor rentabilidade, com margem de 30%, seguido do açúcar branco, com 26%. Já o etanol hidratado teve margem negativa de 6%, com perda média de R$ 0,19 por litro. A energia elétrica co-gerada também operou no vermelho, com déficit de 13%. Os CBios foram o único produto, além do açúcar, com resultado expressivo, com retorno próximo de 100% sobre o custo de produção.
“O setor sobreviveu basicamente com o açúcar. Qualquer outro produto não trouxe a rentabilidade esperada”, resumiu Delloiagono.

Safra 2025/26 deve ter produtividade maior, mas cenário global pressiona preços
Para a safra que se iniciou, a projeção do Pecege indica melhora na produtividade, puxada pelo regime de chuvas acima da média e pela boa saúde da vegetação canavieira. A estimativa é que a produção nos estados do Nordeste colha entre 44 e 48 milhões de toneladas de cana, com produtividade variando entre 60 e 64 toneladas por hectare. A área colhida deve se manter estável em relação ao ciclo anterior.
Por outro lado, a qualidade da cana (ATR) tende a cair levemente, em função do aumento das precipitações. Já o mix de produção deve seguir predominantemente açucareiro, ainda que com menor intensidade, diante da recente desvalorização do açúcar no mercado internacional.
Delloiagono explicou que a queda de preço da commodity está associada à perda de sustentação do petróleo, que tem recuado desde fevereiro de 2025, e à previsão de superávit global de açúcar no novo ciclo internacional (2025/26), em função da recuperação da produção na Índia e da manutenção do mix recorde no Centro-Sul do Brasil. A projeção é de que o preço do açúcar permaneça abaixo dos 17 centavos de dólar por libra-peso até o final do atual ciclo global, o que acende o alerta para margens futuras.

Senar anuncia no Cana Show novo centro de treinamento
Durante o Cana Show, o presidente do Sistema Faeal/Senar, Álvaro Almeida, destacou a importância do Cana Show como espaço de difusão de conhecimento, fortalecimento institucional e aproximação entre os elos do setor. Ele anunciou a implantação de um novo centro de treinamento com cerca de 900 m², que será construído em São Miguel dos Campos.
“A gente precisa se profissionalizar cada vez mais para continuar sendo fortes como somos. Esse novo centro vai servir para capacitar os produtores em diversas áreas, como pecuária e cana-de-açúcar, com foco em aumentar a produção em menos espaço e com mais lucro”, afirmou.
Álvaro também defendeu a ampliação da participação dos produtores nas entidades de classe e o incentivo ao cooperativismo como estratégias para dar escala e representatividade ao setor. “Juntos, através da federação, dos sindicatos e do Senar, podemos fornecer muito mais do que estamos oferecendo hoje”, completou.
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