
A safra 2025/2026 da cana-de-açúcar em Alagoas começa sob o desafio de um cenário climático adverso. A partir da segunda quinzena de setembro, a maioria das usinas dará início à moagem, mas a previsão inicial é de queda na quantidade de cana processada em relação ao ciclo anterior. O déficit hídrico registrado nos últimos meses provocou canaviais com plantas mais curtas e a perda de parte das áreas de rebrota, fatores que devem impactar diretamente o volume a ser colhido.
Segundo o presidente da Associação dos Plantadores de Cana do Estado de Alagoas (Asplana), Edgar Antunes, o momento exige cautela. “A perspectiva é de uma safra bem difícil e com preços complicados. Ainda é cedo para termos um cenário real de como a moagem vai se comportar, mas a previsão inicial é de redução. Além de a cana estar mais curta em relação ao ciclo passado, também houve perda significativa em áreas de rebrota por conta de um verão rigoroso”, afirmou.
A Cooperativa Pindorama, situada em Coruripe, foi a primeira a abrir oficialmente a safra 2025/2026. O início ocorreu em 26 de agosto, com a entrada do primeiro caminhão de cana na indústria. A expectativa da cooperativa é repetir o volume processado na temporada anterior, entre 800 mil e 1 milhão de toneladas. Para o gerente agrícola da Pindorama, Danilo Wanderley, as condições climáticas limitam o potencial de expansão. “Estimamos repetir a safra passada devido ao último verão severo. Dependemos 100% da natureza, e como nossa área é majoritariamente de sequeiro, a distribuição de chuvas é determinante para o desenvolvimento da cultura”, explicou.
A usina Santo Antônio, localizada no litoral norte, prevê começar a moagem no dia 2 de setembro. Sua filial, a usina Camaragibe, deve iniciar a atividade alguns dias depois, em 8 de setembro. De acordo com a diretoria, a expectativa é processar mais de 2,5 milhões de toneladas de cana nas duas unidades, com possibilidade de crescimento de até 5% em relação ao ciclo passado, resultado que dependerá das chuvas previstas para os próximos meses.
Na safra anterior (2024/2025), Alagoas registrou moagem de 17,4 milhões de toneladas, contra 19,3 milhões do ciclo 2023/2024, o que representou uma quebra superior a 1,8 milhão de toneladas. O levantamento do Sindaçúcar-AL mostrou que o ciclo passado foi predominantemente açucareiro: a produção de açúcar (VHP, cristal e refinado) somou 1,6 milhão de toneladas, enquanto a de etanol (anidro e hidratado) ficou em 405,6 milhões de litros. Para este ano, a expectativa é de números semelhantes, ainda que pressionados pela menor disponibilidade de matéria-prima.
Impactos socioeconômicos da moagem da cana em AL
Apesar dos desafios, o período da moagem continua sendo um dos mais importantes para a economia alagoana. A cana-de-açúcar é o principal motor do setor agrícola do estado, responsável por milhares de empregos diretos e indiretos e por movimentar a cadeia de fornecedores, serviços e comércio em diversas cidades.

Na Pindorama, por exemplo, a usina emprega cerca de 1.500 colaboradores fixos, número que dobra durante o ciclo produtivo com a contratação de temporários. “A safra é sempre um momento de geração de riquezas. Ela movimenta desde o campo até o comércio das cidades vizinhas, trazendo impacto para toda a economia alagoana. Alagoas segue como o maior produtor de cana-de-açúcar do Nordeste, e isso mostra a importância da atividade para o estado”, destacou o presidente da cooperativa, Klécio Santos.
A previsão da Pindorama é encerrar o ciclo em fevereiro de 2026, com a produção de aproximadamente 55 mil toneladas de açúcar e 30 milhões de litros de etanol. Já a Santo Antônio projeta que os números finais dependerão do regime de chuvas, mas reforça a expectativa de contribuir para manter o estado como referência no setor sucroenergético da região.
Desafios e perspectivas para a safra
Para especialistas, o déficit hídrico é hoje o maior gargalo do setor, que precisa conciliar produtividade e custos em um cenário de preços internacionais voláteis. Além disso, as áreas de rebrota, que representam parte significativa da produção, sofreram maior impacto com a estiagem prolongada, reduzindo a qualidade da matéria-prima.
Ainda assim, a expectativa é de que o setor consiga se reorganizar ao longo da safra, aproveitando ganhos em eficiência industrial e de manejo no campo. “A moagem que se inicia é cercada de incertezas, mas também de muito trabalho e resiliência. A cana continua sendo um pilar da economia alagoana, e mesmo em anos difíceis, garante emprego, renda e competitividade para o estado”, reforçou Edgar Antunes.
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