
A decisão do governo dos Estados Unidos de aplicar taxação de 50% sobre produtos brasileiros exportados ao país provocou forte reação no setor industrial de Alagoas. Em São Miguel dos Campos, município responsável por mais de 90% das exportações alagoanas de açúcar para os EUA, o temor é de que a medida inviabilize negociações futuras com compradores norte-americanos.
A Usina Caeté, localizada em São Miguel dos Campos, é uma das empresas alagoanas que exporta açúcar para os Estados Unidos. O diretor Financeiro e Comercial da empresa, Araken Barbosa, vê com preocupação a medida anunciada pelo governo americano, que caso não seja revogada, deverá impactar a economia do estado e inviabilizar negociações.
“Não há até o momento nenhum cancelamento comercial em andamento. Todavia, ao taxar em 50% nossas exportações, haverá uma inviabilidade nos preços, acarretando uma mudança nas negociações dos produtos que tradicionalmente são embarcados entre dezembro e fevereiro de cada ano. Em função disso, entendemos que se o comprador não assumir o custo da nova taxação, não haverá vendas para os Estados Unidos”, afirmou.
A sobretaxa anunciada por Washington faz parte de um pacote de medidas protecionistas que afetam produtos, como o aço e o açúcar, com grande impacto ao agronegócio brasileiro e na balança comercial regional.
Indústria alagoana cobra reação e diálogo diplomático
A Federação das Indústrias do Estado de Alagoas (FIEA) classificou como “injustificável” a medida adotada pelos Estados Unidos. Segundo a entidade, os EUA foram o terceiro maior destino das exportações alagoanas em 2024, com mais de US$ 61 milhões em embarques — sendo o açúcar o principal item comercializado com o país.
“O impacto será direto sobre empregos, investimentos e competitividade da indústria. Esperamos que prevaleça o diálogo diplomático e comercial, com vistas à manutenção de uma relação estratégica entre os dois países”, afirmou o presidente da FIEA, José Carlos Lyra de Andrade.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) também se manifestou contrária à decisão americana, classificando a tarifa como prejudicial à previsibilidade dos contratos comerciais.
Ambiente internacional mais hostil ao comércio preocupa
O tarifaço reforça o alerta de especialistas sobre um cenário internacional menos cooperativo e mais protecionista. Durante o evento Origem 360, realizado em Maceió, o professor de Relações Internacionais da FGV, Oliver Stuenkel, destacou que o Brasil está mais exposto a barreiras tarifárias, especialmente diante das tensões entre grandes potências e do realinhamento comercial dos EUA.
“Essa guinada protecionista coloca em risco setores estratégicos da economia brasileira, como o agronegócio. O Brasil precisa agir com firmeza para defender seus interesses comerciais e manter acesso a mercados-chave como o norte-americano”, alertou o especialista.
Lula diz a TV americana que está disposto a negociar
Em entrevista à âncora da CNN Internacional, Christiane Amanpour, o presidente Lula afirmou que o Brasil está disposto a sentar à mesa para negociar com os Estados Unidos, mas que jamais aceitará imposições como as do presidente norte-americano Donald Trump, que determinou a aplicação de uma taxa de 50% aos produtos brasileiros.
“O Brasil não aceitará nada que lhe seja imposto. Aceitamos negociação e não imposição”, disse o presidente brasileiro ao afirmar que não quer “se ver livre dos EUA”, nem brigar com ninguém. “O que não queremos é ser feitos de reféns. Queremos ser livres”, argumentou.
Lula sugeriu que Trump “reveja alguns de seus posicionamentos”, em especial quando voltados a interferir em assuntos internos do Brasil – como o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
“É inaceitável a interferência dos EUA em assuntos internos do Brasil”, disse Lula ao se referir à carta tornada pública por Trump.
Lula lembrou que o Brasil está há meses tentando negociar com os EUA, e que, inclusive, chegou a enviar propostas no último mês de maio, que poderiam ser colocadas à mesa de negociação. “Enviamos as propostas, mas em vez de nos responderem, vimos notícias com as falas dele feitas fora da via diplomática”.
O presidente brasileiro voltou a reiterar que o melhor a ser feito é dialogar, mas que toda negociação sempre deve ser feita com respeito entre as partes e que lamenta o fato dos dois países, que mantém relações comerciais seculares, chegarem a ponto de uma manifestação desrespeitosa, como a feita por Trump aos brasileiros.
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