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Biogás de frutas e verduras: tecnologia do Ceará pode abastecer Ceasas

Nova tecnologia da Embrapa e UFC testada no Ceará pode transformar centrais de abastecimento em produtoras autônomas de energia renovável, o biogás
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O modelo de produçãop de biogás permite aproveitar integralmente frutas e hortaliças impróprias para o consumo humano, resultado das perdas durante o transporte e armazenamento. Foto: Embrapa/Divulgação

A produção de biogás a partir de resíduos orgânicos gerados nas Centrais de Abastecimento (Ceasas) pode suprir até 100% da demanda de energia elétrica dessas unidades nos horários de pico. O dado foi confirmado a partir de testes conduzidos na Ceasa do Ceará com o uso do Sistema Integrado de Reatores Anaeróbios, desenvolvido pela Embrapa Agroindústria Tropical (CE) em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC). Além da autossuficiência energética em determinados períodos do dia, o modelo permite uma redução de até 20% nos custos com eletricidade fora dos horários de pico.

O sistema foi projetado para transformar em energia renovável entre 17 e 25 toneladas mensais de frutas e hortaliças impróprias para o consumo humano, que anteriormente eram destinadas ao aterro sanitário com custo aproximado de R$ 230 mil por mês. Com o novo modelo, esse passivo se converte em insumo energético e econômico, por meio de um processo de digestão anaeróbia que eleva o teor de metano do biogás e reduz emissões de gases de efeito estufa.

Segundo o pesquisador Renato Leitão, da Embrapa Agroindústria Tropical (CE), responsável pelo projeto, “com o uso do novo sistema, a quantidade de biogás gerada na Ceasa‑CE pode produzir energia elétrica suficiente para suprir a demanda dessa central em até 100% da energia nos horários de ponta e mais 20% da energia fora desses períodos. Caso não seja utilizado na própria Ceasa, esse biogás pode ser comercializado na forma de biometano após tratamento adequado”.

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Reator utiliza a biomassa altamente biodegradável, que é ideal para produzir um biogás rico em metano, aproveitável na forma de combustível. Foto: Embrapa/Divulgação

Modelo de biogás validado no Ceará pode ser replicado em todo o país

A inovação desenvolvida no Ceará tem potencial de replicação nas 57 centrais de abastecimento brasileiras, que registram perdas significativas ao longo da cadeia de distribuição de frutas e hortaliças. O modelo da Embrapa e da UFC permite o aproveitamento integral da biomassa descartada, resultado de perdas no transporte, armazenamento e manuseio. Atualmente, estima-se que 10,9 milhões de toneladas de frutas e hortaliças são desperdiçadas anualmente nas Ceasas do Brasil.

No método usual, os resíduos são processados em reatores de mistura completa (CSTR), que exigem grandes volumes e apresentam limitações operacionais. O novo sistema aplica um pré-tratamento por trituração e prensagem, que separa o material em frações líquida e sólida. A primeira é destinada a reatores de manta de lodo de fluxo ascendente (UASB), eficazes na digestão de cargas orgânicas elevadas. A segunda pode ser encaminhada para compostagem — resultando em fertilizante de alta qualidade — ou para reatores de metanização seca, ainda em fase de estudo.

De acordo com o professor André dos Santos, do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da UFC, “o impacto pode ser enorme: energia limpa, menos resíduos, mais empregos e economia circular na prática”.

A Ceasa‑CE atua como unidade de validação do sistema, que será apresentado oficialmente no XV Workshop e Simpósio Latino-Americano de Digestão Anaeróbia (XV DAAL). O evento será realizado em Fortaleza (CE), entre os dias 14 e 17 de outubro de 2025, e reunirá pesquisadores, universidades, empresas e instituições públicas atuantes na área de energias renováveis, saneamento e biomassa.

Biohidrogênio e desdobramentos técnicos

Os pesquisadores também realizaram testes com a produção de biohidrogênio a partir da fração líquida dos resíduos, utilizando tecnologia de fermentação escura em reatores anaeróbios de leito estruturado (AnStBR). Embora o volume obtido ainda não seja competitivo, a experiência abre possibilidade de novos caminhos para a diversificação energética a partir de resíduos orgânicos de centrais de abastecimento.

A próxima etapa do projeto prevê a construção de uma unidade-piloto de maior escala, com o objetivo de calibrar equipamentos e projetar cenários de replicação técnica e econômica em outros estados. Segundo os pesquisadores, as condições operacionais observadas no Ceará são compatíveis com estruturas semelhantes em outras regiões do país, o que viabiliza sua adoção nacional.

Desperdício no Brasil e oportunidade de transformação

O Brasil é o terceiro maior produtor de frutas e hortaliças do mundo e enfrenta perdas superiores a 40% da produção total, segundo a FAO. Cerca de 30% de tudo que é comercializado nas Ceasas é descartado. O estado de São Paulo, que abriga a Ceagesp — maior central da América Latina —, reportou entre 150 e 180 toneladas de resíduos gerados por dia em 2023.

*Com informações da Embrapa

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